Vorcaro pediu a Moraes que atuasse junto à cúpula da PF e PGR para evitar medidas contra o Banco Master, questionando se seria possível 'bloquear' ações investigativas. As conversas intensificaram-se dias antes da primeira prisão do banqueiro, incluindo perguntas diretas sobre se deveria deixar o país e pedidos para adiar cumprimento de medidas cautelares.
Mensagens revelam pedidos de Vorcaro a Moraes para bloquear investigação do Banco Master
Juntos em tudo. Muito obrigado por tudo.
O que essas mensagens realmente mostram? É um banqueiro pedindo favores ou algo mais grave?
É um banqueiro pedindo ao ministro que interfira em investigações. Ele quer que Moraes convença a PF e a PGR a não agir contra ele. Não é um pedido velado — é direto.
Mas a gente sabe que Moraes respondeu? Que ele fez algo? As mensagens mostram os pedidos, mas não mostram se houve interferência real.
Verdade. Mas os investigadores dizem que as mensagens indicam que Moraes compartilhava informações sensíveis — datas, horários de diligências. Isso é mais que um pedido.
E quanto à fuga? Vorcaro realmente estava pensando em deixar o país?
Sim. Dois dias antes de ser preso, perguntou a Moraes se deveria estar fora na segunda-feira. Estava claramente assustado.
Mas a gente não sabe se Moraes respondeu a isso. Não sabemos se o ministro o desaconselhou ou se o encorajou.
Não, não sabemos. Só temos o lado de Vorcaro. As mensagens de Moraes não foram divulgadas.
Então Vorcaro estava completamente perdido sobre qual investigação o atingia?
Estava. Confessou em mensagem que não sabia nem qual era o inquérito. Seus advogados falaram com o procurador-geral, mas disseram que nem um número havia sido designado ainda.
Isso é estranho. Como alguém pede para bloquear uma investigação se não sabe qual é? Ou Vorcaro estava fingindo não saber, ou realmente estava no escuro.
Pode ser os dois. Mas o fato é que ele pedia a Moraes para descobrir e para agir.
E os elogios? Por que ele elogiava tanto o ministro?
Parece ser uma estratégia. Elogia, pede o favor, elogia de novo. "Juntos em tudo", escreveu. É uma forma de criar proximidade, de lembrar o ministro de que estão do mesmo lado.
Il Polso
- Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foi preso em 17 de novembro de 2025
- Mensagens enviadas entre 30 de outubro e 17 de novembro de 2025
- Vorcaro pediu a Moraes que interferisse junto a Andrei Rodrigues (PF) e Paulo Gonet (PGR)
- Operação Compliance Zero era a investigação que atingia o Banco Master
Vorcaro pediu a Moraes que atuasse junto à cúpula da PF e PGR para evitar medidas contra o Banco Master, questionando se seria possível 'bloquear' ações investigativas. As conversas intensificaram-se dias antes da primeira prisão do banqueiro, incluindo perguntas diretas sobre se deveria deixar o país e pedidos para adiar cumprimento de medidas cautelares.
Mensagens de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao ministro Alexandre de Moraes mostram pedidos para interferir em investigações da PF e PGR, além de questionamentos sobre fuga do país antes de sua prisão em novembro de 2025.
No final de outubro de 2025, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, começou a enviar mensagens para o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, pedindo ajuda para frear uma investigação que o atingia. As conversas, extraídas do celular do banqueiro e obtidas pelo Estadão, revelam um padrão claro: Vorcaro buscava que Moraes interferisse junto aos líderes da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República para evitar que medidas investigativas avançassem contra ele e sua instituição financeira.
Em 30 de outubro, Vorcaro foi direto ao ponto. Pediu que Moraes conversasse com Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República. A mensagem era clara: precisava impedir que investigadores adotassem ações contra o Master. "É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco", escreveu. O banqueiro oferecia-se para explicar qualquer coisa, desde que não houvesse "sacanagem". Naquele momento, já havia recebido informações sobre uma possível medida contra ele e o banco.
Nos dias seguintes, as mensagens se tornaram mais desesperadas. Em 4 de novembro, Vorcaro perguntou a Moraes sobre a natureza das medidas investigativas que poderiam vir. "Médio a grave seria busca ou quebra de sigilo?", questionou. Depois insistiu: "Mas pedido deferido por parte deles? Algo que dê pra bloquear?". Naquela mesma noite, às 20h45, voltou a implorar pela intervenção do ministro. "Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade", escreveu, argumentando que o Banco Central sequer havia aberto um processo administrativo contra ele. Uma ação drástica naquele momento, alertava, quebraria o banco de modo irreversível.
Conforme a prisão se aproximava, o tom das mensagens mudou. Dois dias antes de ser detido, em 15 de novembro, Vorcaro perguntou diretamente a Moraes: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". Na mesma conversa, questionou se o juiz Ricardo e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, estavam sabendo da situação e se conseguiam fazer algo. No dia seguinte, perguntou se havia chance de a PF agir na manhã seguinte. Horas depois, pediu que Moraes tentasse convencer Andrei Rodrigues a adiar o cumprimento das medidas cautelares, argumentando que havia feriado e o banco não resistiria.
Paralelamente aos pedidos de interferência, Vorcaro enviava elogios ao ministro. Em 30 de outubro, cerca de vinte minutos depois de pedir que Moraes atuasse junto à PF e à PGR, o banqueiro escreveu que tudo de importante ficava no colo do ministro e que seu legado para o Brasil seria eterno. "Tenho muito orgulho e tenho certeza que cada vez mais se consolidará como a pessoa mais importante do país", afirmou. Fechava a conversa com "Juntos em tudo. Muito obrigado por tudo".
As mensagens também mostram que Vorcaro estava em completa escuridão sobre qual investigação o atingia. Em 4 e 5 de novembro, confessou não saber nem do que se tratava para poder atuar. Mencionou que estava com seus advogados criminalistas, Pierpaolo Cruz Bottini e Roberto Podval, que haviam falado com Paulo Gonet, mas foi dito que nem um número de inquérito havia sido designado ainda. Vorcaro pediu a avaliação de Moraes antes de tomar qualquer medida jurídica, deixando claro que não faria nenhum movimento que o ministro não achasse produtivo. "Estamos no escuro", escreveu, "o Paulo só disse que tava olhando pessoalmente e que não teria sacanagem".
No dia 17 de novembro, quando foi preso, Vorcaro ainda enviava mensagens a Moraes. Pela manhã, relatou que tentava antecipar investidores e avançar com a venda do Master. Horas antes de ser detido, perguntou: "Conseguiu ter notícia ou bloquear?". Para os investigadores, segundo apuração do jornal, as mensagens indicam que Moraes compartilhava informações sensíveis sobre a Operação Compliance Zero, incluindo datas e horários de diligências previstas pela Polícia Federal. A prisão de Vorcaro em novembro de 2025 afetou potencialmente milhões de clientes do Banco Master, conforme o próprio banqueiro havia alertado nas conversas.
Citazioni salienti
É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco— Daniel Vorcaro, em mensagem a Alexandre de Moraes em 30 de outubro de 2025
Acha que segunda já tenho que estar fora?— Daniel Vorcaro, perguntando a Moraes dois dias antes de sua prisão