Menino Henry é homenageado em mural que retrata pais como demônios

Morte de criança de 4 anos em circunstâncias investigadas, com pais acusados e presos.
Se fizesse só o menino, ia ficar bonito, mas não iria passar a realidade
Grafiteiro explica por que retratou os acusados como demônios ao lado do anjo Henry.

Nas ruas da Zona Norte do Rio, três grafiteiros transformaram um muro comum numa declaração moral coletiva: o menino Henry Borel, morto aos quatro anos em circunstâncias que chocaram o país, foi pintado como anjo entre figuras demoníacas que representam seus acusados. A obra não nasceu de encomenda nem de protocolo — nasceu de um impulso humano diante da injustiça, e encontrou seu caminho até o pai enlutado antes mesmo de secar. É a arte cumprindo uma função que o silêncio não consegue: nomear o inominável e forçar o olhar de quem preferiria desviar.

  • A morte de Henry Borel, quatro anos, sacudiu o Rio e o Brasil — e dois dias após a prisão dos acusados, três artistas decidiram que as palavras não bastavam.
  • Em menos de 24 horas, um muro de seis por três metros virou epicentro de comoção: ônibus paravam, passageiros se debruçavam pelas janelas, motoristas buzinavam sem entender por que o trânsito não andava.
  • As redes sociais dividiram-se entre elogios e críticas — há quem veja a representação demoníaca dos acusados como pesada demais, e há quem reconheça nela uma verdade que nenhuma linguagem mais suave conseguiria transmitir.
  • Os artistas são explícitos: a obra é protesto e alerta sobre sinais de abuso infantil, não apenas homenagem — 'se fizesse só o menino, ia ficar bonito, mas não iria passar a realidade'.
  • Um tio de Henry viu o mural ao passar pela estrada, anotou o contato do grafiteiro, e minutos depois o pai da criança ligava em lágrimas para agradecer — a arte havia chegado onde precisava chegar.

No sábado 10 de abril, um muro na Estrada do Barro Vermelho, em Rocha Miranda, ganhou cores e peso. Murilo Lemos, grafiteiro de 33 anos, viu na véspera uma foto do caso Henry Borel nas capas dos jornais e não conseguiu ficar parado. Convocou amigos do coletivo 400ml Crew — Thiago Harynk e Alex Bomb — e das sete da manhã até as seis da tarde os três pintaram sem parar. O resultado: Henry aparece como anjo de asas brancas e auréola dourada, enquanto ao fundo duas figuras com chifres vermelhos e tridentes representam o padrasto Jairinho e a mãe Monique, presos dois dias antes.

O mural foi estrategicamente colocado em frente a um semáforo demorado, numa via de ônibus intensa. Antes de ficar pronto, já parava o trânsito. Passageiros pediam escadas para fotografar melhor. Carros buzinavam. A obra se espalhou pelas redes sociais com reações divididas — admiração e incômodo em doses iguais.

Thiago, pai de três filhos com o caçula da mesma idade de Henry, é direto sobre a intenção: não era só homenagem, era protesto. Era forçar quem passasse a encarar o bem e o mal lado a lado, a vulnerabilidade de uma criança cercada por quem deveria protegê-la. Para Murilo, o impacto foi também pessoal — seu filho João Gabriel tem exatamente quatro anos.

Um tio de Henry passou pela estrada, reconheceu a obra, anotou o telefone de Murilo. Minutos depois, o pai da criança, Leniel Borel de Almeida Jr., ligou chorando, agradecendo, querendo conhecer os artistas. O mural permanece ali, na Zona Norte, a quilômetros do apartamento na Barra da Tijuca onde Henry morreu — lembrando quem passa que às vezes a realidade é exatamente tão dura quanto parece, e que ignorá-la tem um custo.

Um muro de seis metros de comprimento e três de altura na Estrada do Barro Vermelho, em Rocha Miranda, na Zona Norte do Rio, recebeu no sábado 10 de abril uma homenagem pintada a cores vibrantes. O menino Henry Borel, morto um mês antes aos quatro anos, aparece no grafite como um anjo — asas brancas, auréola dourada, o corpo pequeno suspenso numa pose de paz. O contraste é brutal. Ao fundo, ocupando o espaço com a mesma intensidade visual, estão duas figuras demoníacas: chifres vermelhos, olhos que queimam, tridentes nas mãos. São o padrasto, o vereador e médico Jairinho, e a mãe, Monique Medeiros — ambos acusados pela morte da criança, ambos presos na quinta-feira anterior.

A ideia nasceu de um impulso. Murilo Lemos, grafiteiro de 33 anos com mais de duas décadas de experiência em pintura, viu na sexta-feira uma foto do caso estampada nas capas dos jornais. Naquele mesmo dia, convidou amigos do coletivo 400ml Crew. Thiago Harynk, de 36 anos, dono de uma loja de grafite, e Alex Bomb se juntaram ao trabalho. Das sete da manhã até as seis da tarde, os três pintaram sem parar, transformando um muro estrategicamente localizado — em frente a um semáforo demorado, numa via de circulação intensa de ônibus — numa declaração visual que ninguém conseguia ignorar.

Antes mesmo de estar pronto, o mural já parava o trânsito. Murilo descreve a cena com uma mistura de surpresa e desconforto: ônibus inteiros imobilizados enquanto passageiros se debruçavam pelas janelas com celulares em mãos, pedindo que alguém tirasse a escada para fotografar. Carros buzinavam sem entender por que a via não avançava. Depois paravam também. A obra gerou ondas nas redes sociais — elogios e críticas acaloradas, pessoas que a viram como pesada demais, outras que reconheceram nela uma verdade necessária.

Mas não era apenas uma homenagem. Thiago é claro sobre isso. Pai de três filhos, o caçula com a mesma idade de Henry, ele vê a pintura como um protesto e um alerta. "Se fizesse só o menino, ia ficar bonito, mas não iria passar a realidade", diz. A intenção era chocar, era forçar quem passasse a encarar não apenas a morte de uma criança, mas o bem e o mal lado a lado, o sofrimento de uma vida pequena cercada pela família que deveria protegê-la. Muitos transeuntes não entenderam a proposta de imediato. Mas um tio de Henry sim. Ele estava passando, viu a obra, pediu para fotografar, anotou o telefone de Murilo. Minutos depois, o pai do menino, Leniel Borel de Almeida Jr., entrou em contato. Chorava. Elogiava a pintura. Queria conhecer os artistas.

Para Murilo, o impacto foi pessoal. Seu filho, João Gabriel, tem exatamente quatro anos. Ele não conseguia imaginar estar na pele daquele pai. Thiago também se sensibilizou profundamente — impossível não sentir a dor de um pai, ele diz. A obra, na sua visão, pode servir como um despertador. Uma imagem que impacta pode abrir os olhos de um parente, de um vizinho que talvez não desconfie de nada, mas a criança vem dando sinais. Tem que observar mesmo. O mural permanece ali, nas ruas da Zona Norte, a quilômetros do apartamento na Barra da Tijuca onde Henry morreu, lembrando quem passa que às vezes a realidade é exatamente tão dura quanto parece.

Muita gente achou a imagem pesada, outras concordaram. As pessoas não entenderam muito a nossa proposta, que é mostrar a realidade, o bem e o mau, o sofrimento daquela criança com a família. Não foi só uma homenagem, foi um protesto.
— Thiago Harynk, grafiteiro
Impossível não sentir a dor de um pai. Isso me comoveu muito. A imagem impactando pode abrir o olho de um parente, de um vizinho que às vezes não desconfia de uma pessoa, mas a criança vem dando sinais.
— Thiago Harynk
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que escolher um muro em Rocha Miranda, tão longe do lugar onde Henry morreu?

Model

A localização era estratégica. Um muro grande, em frente a um semáforo demorado, numa via com muito movimento de ônibus. Queríamos que o máximo de gente visse. Não era sobre estar perto do apartamento — era sobre alcance.

Inventor

A reação nas redes sociais foi dividida. Algumas pessoas acharam a imagem pesada demais. Como vocês lidam com isso?

Model

Esperávamos críticas. Não era para ser confortável. Se tivéssemos pintado só o Henry como anjo, teria ficado bonito, mas ninguém teria parado para pensar. A gente queria chocar, queria que as pessoas encarassem o bem e o mal lado a lado.

Inventor

Vocês conheciam Henry ou a família antes disso?

Model

Não. Vimos a foto nos jornais na sexta-feira e decidimos fazer algo. Mas depois que terminamos, um tio do Henry passou, fotografou, e em minutos o pai entrou em contato. Ele estava chorando, elogiando a pintura. Isso mudou tudo para a gente.

Inventor

Como foi receber esse contato do pai?

Model

Muito emocionante. Murilo tem um filho de quatro anos também. Thiago tem três filhos, o caçula com a mesma idade. Não dá para não se colocar no lugar daquele pai. É complicado demais.

Inventor

Vocês veem a obra como apenas uma homenagem ou como algo mais?

Model

É um protesto. Uma homenagem, sim, mas principalmente um alerta. A gente espera que a imagem impactando possa abrir o olho de um parente, de um vizinho que às vezes não desconfia, mas a criança vem dando sinais. Tem que observar mesmo.

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