Alguém sabia o que estava fazendo
Laudos do IML detectaram lidocaína, midazolam e terbufós-sulfóxido no corpo do menino que comeu bolo suspeito de envenenamento. Arthur morava com pai e madrasta desde março; bolo teria sido levado pela mãe no fim de semana anterior ao incidente.
- Arthur de Mello da Silva, 11 anos, faleceu após 11 dias internado
- Laudos detectaram lidocaína, midazolam e terbufós-sulfóxido no organismo
- Bolo foi encontrado na mochila do menino, entre roupas dobradas
- Arthur morava com pai e madrasta desde março de 2026
- Mãe negou ter servido bolo de chocolate na reunião familiar
Arthur de Mello da Silva, 11 anos, faleceu após 11 dias internado por ingerir bolo contaminado com anestésico, sedativo e chumbinho. Polícia investiga familiares próximos para esclarecer como as substâncias chegaram ao organismo da criança.
Arthur de Mello da Silva tinha 11 anos quando comeu um pedaço de bolo de chocolate numa segunda-feira à noite. Onze dias depois, ele estava morto. Os laudos do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto encontraram três substâncias no seu corpo: lidocaína, um anestésico local; midazolam, um sedativo; e terbufós-sulfóxido, conhecido popularmente como chumbinho, um veneno usado para matar roedores. A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense, que assumiu a investigação, ouviu quatro pessoas próximas ao menino — seu pai, sua madrasta, sua mãe e seu padrasto — tentando reconstruir como aquelas substâncias chegaram até ele.
Arthur vivia com o pai, Ademir Mello, e a madrasta desde março daquele ano. Antes disso, havia passado um período na casa do pai durante as férias escolares, entre novembro de 2025 e fevereiro, retornando depois para a mãe. Segundo a defesa do pai, foi a própria mãe quem procurou Ademir pedindo que o filho voltasse a morar com ele porque a convivência na casa dela não estava funcionando bem. Desde então, Arthur mantinha visitas à mãe nos fins de semana.
No último fim de semana antes do incidente, o menino estava com a mãe. O plano inicial era que retornasse para a casa do pai no domingo, mas como havia uma reunião escolar na segunda-feira, a mãe o levou direto para a escola. Após as aulas, Arthur pegou um ônibus para a casa do pai, chegando por volta das 18h20, conforme registrado pelas câmeras de segurança do imóvel. Naquele momento, estavam na residência o pai, a madrasta, o meio-irmão de 4 anos, e logo depois chegaria a enteada da madrasta, de 9 anos.
Ao chegar em casa, Arthur contou ao pai que o padrasto havia dito que deixaria a mãe caso o menino voltasse a morar com ela. Ademir orientou o filho a não se preocupar com a situação. Pouco depois, enquanto o pai saía para buscar a enteada no reforço escolar, a madrasta mexeu na mochila do menino e encontrou um pedaço de bolo de chocolate. O alimento chamou atenção porque estava guardado sem recipiente, entre roupas dobradas. A madrasta telefonou para o marido avisando sobre o bolo. Quando o pai retornou, Arthur disse que a mãe tinha guardado aquele pedaço para ele, já que estava passando mal no sábado e domingo e não havia conseguido comer na festa. Segundo a defesa, o pai nem sequer chegou a ver o bolo. Mais tarde, a família jantou macarrão com carne moída, o mesmo alimento consumido pelos demais moradores da casa.
Por volta das 23h, horas depois de comer o bolo, Arthur começou a vomitar. Teve episódios de diarreia e começou a demonstrar confusão mental, falando frases sem sentido. Foi levado para atendimento médico e transferido para uma unidade de maior complexidade, onde permaneceu internado desde o dia 1º de junho. A suspeita sobre o bolo surgiu quando o pai entrou em contato com a mãe do menino para tentar descobrir a origem do alimento. Segundo o advogado que representa Ademir, a mãe informou que na reunião familiar daquele fim de semana não havia sido servido bolo de chocolate, mas outros tipos de sobremesa.
A Secretaria estadual de Saúde lamentou a morte e se solidarizou com os familiares. A investigação agora busca esclarecer como as três substâncias chegaram ao bolo e quem teria colocado aquele pedaço na mochila do menino. As respostas que a polícia procura estão nas mãos das quatro pessoas que foram ouvidas — pessoas que faziam parte do círculo mais próximo de Arthur, pessoas que ele via todos os dias ou nos fins de semana.
Notable Quotes
A mãe informou que na reunião familiar daquele fim de semana não havia sido servido bolo de chocolate, mas outros tipos de sobremesa— Advogado Luiz Almeida, representante do pai
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como um bolo envenenado chega até uma criança sem que ninguém veja?
Essa é a pergunta que a polícia está tentando responder. O bolo estava na mochila, escondido entre roupas. Ninguém sabe quem colocou lá ou quando.
A mãe dele disse que não havia bolo na festa. O que isso significa?
Significa que alguém mentiu, ou o bolo veio de outro lugar. A mãe nega ter dado aquele pedaço. O pai diz que não viu o bolo. Mas Arthur comeu algo.
E as outras crianças na casa? O meio-irmão, a enteada?
Comeram o macarrão com carne moída que foi servido depois. Nenhuma delas adoeceu. Só Arthur comeu o bolo.
Três substâncias diferentes. Anestésico, sedativo, veneno. Isso parece planejado.
Parece, sim. Não é algo que acontece por acaso. Alguém sabia o que estava fazendo.
Quem teria motivo para fazer isso com uma criança?
Essa é a questão que fica no ar. Arthur vivia entre duas casas, entre duas famílias. Havia tensão — o padrasto havia dito que deixaria a mãe se Arthur voltasse. Mas motivo não é o mesmo que culpa.
O que acontece agora?
A polícia continua ouvindo as pessoas próximas a ele. Pai, madrasta, mãe, padrasto. Um deles sabe o que aconteceu.