Em 25 de julho, data que marca o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, meninas negras brasileiras entre cinco e oito anos falam abertamente sobre seus sonhos — ser policial federal, veterinária, jogadora de futebol, médica. O que parece simples é, na verdade, o fruto de décadas de luta iniciada em 1992, quando mulheres negras se reuniram em Santo Domingo para exigir um mundo mais justo. Sonhar com o ordinário, para quem foi historicamente excluído do ordinário, é em si um ato de conquista.
Meninas negras compartilham seus sonhos de futuro: policiais, bombeiras e jogadoras
Ser negra é um superpoder que me ajuda a ficar mais craque
Por que essas histórias importam agora, em 2026?
Porque durante séculos, meninas negras não tinham permissão para brincar, sonhar ou planejar um futuro. Agora têm. Não é perfeito — ainda enfrentam discriminação — mas o espaço existe.
Olívia quer cuidar da mãe quando for adulta. Isso é ambição ou é obrigação?
É ambição. Ela viu a tia cuidando da avó e decidiu que quer fazer isso. Não é algo que lhe foi imposto; é algo que ela escolheu, porque viu o valor naquilo.
Luiza chama ser negra de superpoder. É retórica ou ela realmente acredita?
Ela acredita. Ela vê atletas negros sendo os melhores do mundo e pensa: eu posso ser assim também. Para ela, a cor da pele não é um obstáculo — é uma conexão com pessoas que ela admira.
E quanto àquelas que não têm modelos para seguir?
Esse é o trabalho que ainda falta. Nem toda menina negra tem um Pelé ou um Vinicius Junior próximo. Mas cada uma que sonha em voz alta abre caminho para a próxima.
O pai de Olívia morreu. Como isso muda a história?
Muda tudo e nada. Ela não vai vê-lo no futuro que imagina, mas carrega o que ele deixou — o apelido, a herança, a inspiração. Ela segue em frente mesmo assim.
El Pulso
- Trinta e quatro anos após o encontro fundador de Santo Domingo, a pergunta ainda ressoa: quanto espaço as meninas negras têm para imaginar seus próprios futuros?
- Cada sonho dessas meninas — uma casa, um quarto rosa, treze gols em uma Copa do Mundo — carrega o peso silencioso de gerações que não tiveram permissão de sonhar em voz alta.
- Famílias, referências esportivas como Vinicius Junior e Pelé, e a presença de parentes em profissões antes inacessíveis funcionam como combustível para essas aspirações.
- O direito ao sonho ordinário — profissões comuns, lares próprios, cuidado com quem se ama — emerge como a fronteira mais simbólica ainda em disputa para meninas negras no Brasil.
Em 25 de julho, data que marca o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, meninas negras brasileiras entre cinco e oito anos falam abertamente sobre seus sonhos — ser policial federal, veterinária, jogadora de futebol, médica. O que parece simples é, na verdade, o fruto de décadas de luta iniciada em 1992, quando mulheres negras se reuniram em Santo Domingo para exigir um mundo mais justo. Sonhar com o ordinário, para quem foi historicamente excluído do ordinário, é em si um ato de conquista.
Olívia tem oito anos e já decidiu: quer ser policial federal. O tio a levou à delegacia, mostrou como tudo funciona, e ela construiu um futuro inteiro na imaginação — casa, dois filhos, a mãe morando com ela na velhice. Seu pai, carinhosamente chamado de Chocolate, não estará lá para ver. Mas ela carrega a herança dele e do bisavô, ambos na segurança pública, e segue em frente.
Essa conversa acontece num momento que não é trivial. Em 1992, mulheres negras se reuniram em Santo Domingo para o primeiro encontro latino-americano dedicado a elas, com um objetivo claro: criar estratégias contra o racismo e o machismo. A ONU respondeu marcando o 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Trinta e quatro anos depois, direitos foram conquistados — não todos, não sem luta contínua — mas o espaço para sonhar se abriu.
Eloá, sete anos, quer ser veterinária e tem um hamster chamado Panqueca e uma cachorra chamada Candinha. Júlia, cinco anos, quer ser bombeira, médica e modelo, adora dançar Michael Jackson e diz que sua pele é de chocolate — e que isso é algo bom. Luiza, sete anos, acredita que ser negra é um superpoder: ela vê Pelé, Vinicius Junior e Mbappé e quer jogar pela seleção brasileira numa Copa do Mundo, fazer treze gols. Sua irmã Helena, cinco anos, vai ser médica pediatra.
O que une essas meninas não é apenas a cor da pele. É o fato de que elas estão sonhando em voz alta e sendo ouvidas. Policial, veterinária, jogadora de futebol, médica — são profissões comuns. Mas para meninas negras numa sociedade marcada pela escravidão e pelo preconceito, o direito de sonhar com o ordinário ainda é uma conquista. Elas herdam uma luta que não começou com elas. Por enquanto, elas sonham. E alguém está escutando.
Olívia tem oito anos e já sabe o que quer ser quando crescer. Policial federal. Ela fala disso com a segurança de quem viu de perto como funciona — o tio a levou à delegacia, mostrou o trabalho, e agora ela imagina seu futuro com clareza: uma casa, dois filhos, e a mãe morando com ela na velhice, porque aprendeu observando a tia cuidar da avó que ninguém deveria ficar sozinho quando fica velho. Seu pai, que tinha o apelido carinhoso de Chocolate, não estará lá para ver isso acontecer. Mas Olívia carrega a herança dele e do bisavó, ambos na segurança pública, e segue em frente.
Essa conversa acontece em um momento que não é trivial. Em 1992, um grupo de mulheres negras se reuniu em Santo Domingo, na República Dominicana, para o primeiro encontro latino-americano e caribenho dedicado a elas. O objetivo era direto: criar caminhos para combater o racismo e o machismo, exigir uma sociedade mais justa. A ONU ouviu e marcou 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Trinta e quatro anos depois, direitos foram conquistados. Nem todos, nem sem luta contínua, mas o espaço para sonhar se abriu.
Eloá tem sete anos e seus sonhos são mais imediatos e também mais amplos. Quer um irmãozinho agora. Quer um liquidificador para a mãe. No futuro, quer ser veterinária e ter um quarto só seu — rosa e branco, com penteadeira, mesa de estudos, guarda-roupa. Ela tem um hamster chamado Panqueca e uma cachorra chamada Candinha. Sonha com um furão. Seus animais não são apenas brinquedos; são a razão de um futuro inteiro.
Júlia tem cinco anos e quer ser bombeira, médica e modelo. Quer ajudar pessoas doentes ou em perigo. Adora dançar — as coreografias de Michael Jackson são suas preferidas. No ano passado correu três quilômetros em uma corrida temática. Ela diz que gosta muito de ser menina negra: sua família é toda pretinha, ela pode fazer várias coisas com o cabelo, e sua pele é de chocolate. Quer ser como a mãe quando crescer, porque ama a mãe.
Luiza e Helena são irmãs. Luiza tem sete anos, Helena tem cinco. Luiza acredita que ser negra é um superpoder. Ela vê Pelé, Vinicius Junior, Mbappé — todos negros, todos craques — e sabe o que quer: ser jogadora de futebol, jogar pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo, fazer treze gols. Ela diz que é muito boa na marcação. Fez uma festa de aniversário com o tema da Copa. Sua irmã vai ser médica pediatra, cuidando de bebês.
O que une essas meninas não é apenas a cor da pele ou a idade. É o fato de que elas estão falando, sonhando em voz alta, sendo ouvidas. Seus sonhos não são revolucionários — policial, veterinária, jogadora de futebol, médica — são profissões ordinárias. Mas para meninas negras em uma sociedade marcada pela escravidão e pelo preconceito, o direito de sonhar com o ordinário é ainda uma conquista. Elas herdam uma luta que não começou com elas e que não terminará com elas. Mas por enquanto, elas sonham. E alguém está escutando.
Citas Notables
Às vezes tem algumas coisas boas em ser negra. A gente ganha uns apelidos muito fofinhos, tipo o apelido do meu pai, que era Chocolate— Olívia, 8 anos
Ser negra é um superpoder. Isso me ajuda a ficar mais craque, porque vários craques também são negros— Luiza, 7 anos