Meninas negras compartilham seus sonhos de futuro: policiais, bombeiras e jogadoras

Ser negra é um superpoder que me ajuda a ficar mais craque
Luiza, sete anos, vê em atletas negros como Pelé e Vinicius Junior a inspiração para seus próprios sonhos.
Mark

Por que essas histórias importam agora, em 2026?

Mimi

Porque durante séculos, meninas negras não tinham permissão para brincar, sonhar ou planejar um futuro. Agora têm. Não é perfeito — ainda enfrentam discriminação — mas o espaço existe.

Mark

Olívia quer cuidar da mãe quando for adulta. Isso é ambição ou é obrigação?

Mimi

É ambição. Ela viu a tia cuidando da avó e decidiu que quer fazer isso. Não é algo que lhe foi imposto; é algo que ela escolheu, porque viu o valor naquilo.

Mark

Luiza chama ser negra de superpoder. É retórica ou ela realmente acredita?

Mimi

Ela acredita. Ela vê atletas negros sendo os melhores do mundo e pensa: eu posso ser assim também. Para ela, a cor da pele não é um obstáculo — é uma conexão com pessoas que ela admira.

Mark

E quanto àquelas que não têm modelos para seguir?

Mimi

Esse é o trabalho que ainda falta. Nem toda menina negra tem um Pelé ou um Vinicius Junior próximo. Mas cada uma que sonha em voz alta abre caminho para a próxima.

Mark

O pai de Olívia morreu. Como isso muda a história?

Mimi

Muda tudo e nada. Ela não vai vê-lo no futuro que imagina, mas carrega o que ele deixou — o apelido, a herança, a inspiração. Ela segue em frente mesmo assim.

  • Trinta e quatro anos após o encontro fundador de Santo Domingo, a pergunta ainda ressoa: quanto espaço as meninas negras têm para imaginar seus próprios futuros?
  • Cada sonho dessas meninas — uma casa, um quarto rosa, treze gols em uma Copa do Mundo — carrega o peso silencioso de gerações que não tiveram permissão de sonhar em voz alta.
  • Famílias, referências esportivas como Vinicius Junior e Pelé, e a presença de parentes em profissões antes inacessíveis funcionam como combustível para essas aspirações.
  • O direito ao sonho ordinário — profissões comuns, lares próprios, cuidado com quem se ama — emerge como a fronteira mais simbólica ainda em disputa para meninas negras no Brasil.

Em 25 de julho, data que marca o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, meninas negras brasileiras entre cinco e oito anos falam abertamente sobre seus sonhos — ser policial federal, veterinária, jogadora de futebol, médica. O que parece simples é, na verdade, o fruto de décadas de luta iniciada em 1992, quando mulheres negras se reuniram em Santo Domingo para exigir um mundo mais justo. Sonhar com o ordinário, para quem foi historicamente excluído do ordinário, é em si um ato de conquista.

Olívia tem oito anos e já decidiu: quer ser policial federal. O tio a levou à delegacia, mostrou como tudo funciona, e ela construiu um futuro inteiro na imaginação — casa, dois filhos, a mãe morando com ela na velhice. Seu pai, carinhosamente chamado de Chocolate, não estará lá para ver. Mas ela carrega a herança dele e do bisavô, ambos na segurança pública, e segue em frente.

Essa conversa acontece num momento que não é trivial. Em 1992, mulheres negras se reuniram em Santo Domingo para o primeiro encontro latino-americano dedicado a elas, com um objetivo claro: criar estratégias contra o racismo e o machismo. A ONU respondeu marcando o 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Trinta e quatro anos depois, direitos foram conquistados — não todos, não sem luta contínua — mas o espaço para sonhar se abriu.

Eloá, sete anos, quer ser veterinária e tem um hamster chamado Panqueca e uma cachorra chamada Candinha. Júlia, cinco anos, quer ser bombeira, médica e modelo, adora dançar Michael Jackson e diz que sua pele é de chocolate — e que isso é algo bom. Luiza, sete anos, acredita que ser negra é um superpoder: ela vê Pelé, Vinicius Junior e Mbappé e quer jogar pela seleção brasileira numa Copa do Mundo, fazer treze gols. Sua irmã Helena, cinco anos, vai ser médica pediatra.

O que une essas meninas não é apenas a cor da pele. É o fato de que elas estão sonhando em voz alta e sendo ouvidas. Policial, veterinária, jogadora de futebol, médica — são profissões comuns. Mas para meninas negras numa sociedade marcada pela escravidão e pelo preconceito, o direito de sonhar com o ordinário ainda é uma conquista. Elas herdam uma luta que não começou com elas. Por enquanto, elas sonham. E alguém está escutando.

Olívia tem oito anos e já sabe o que quer ser quando crescer. Policial federal. Ela fala disso com a segurança de quem viu de perto como funciona — o tio a levou à delegacia, mostrou o trabalho, e agora ela imagina seu futuro com clareza: uma casa, dois filhos, e a mãe morando com ela na velhice, porque aprendeu observando a tia cuidar da avó que ninguém deveria ficar sozinho quando fica velho. Seu pai, que tinha o apelido carinhoso de Chocolate, não estará lá para ver isso acontecer. Mas Olívia carrega a herança dele e do bisavó, ambos na segurança pública, e segue em frente.

Essa conversa acontece em um momento que não é trivial. Em 1992, um grupo de mulheres negras se reuniu em Santo Domingo, na República Dominicana, para o primeiro encontro latino-americano e caribenho dedicado a elas. O objetivo era direto: criar caminhos para combater o racismo e o machismo, exigir uma sociedade mais justa. A ONU ouviu e marcou 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Trinta e quatro anos depois, direitos foram conquistados. Nem todos, nem sem luta contínua, mas o espaço para sonhar se abriu.

Eloá tem sete anos e seus sonhos são mais imediatos e também mais amplos. Quer um irmãozinho agora. Quer um liquidificador para a mãe. No futuro, quer ser veterinária e ter um quarto só seu — rosa e branco, com penteadeira, mesa de estudos, guarda-roupa. Ela tem um hamster chamado Panqueca e uma cachorra chamada Candinha. Sonha com um furão. Seus animais não são apenas brinquedos; são a razão de um futuro inteiro.

Júlia tem cinco anos e quer ser bombeira, médica e modelo. Quer ajudar pessoas doentes ou em perigo. Adora dançar — as coreografias de Michael Jackson são suas preferidas. No ano passado correu três quilômetros em uma corrida temática. Ela diz que gosta muito de ser menina negra: sua família é toda pretinha, ela pode fazer várias coisas com o cabelo, e sua pele é de chocolate. Quer ser como a mãe quando crescer, porque ama a mãe.

Luiza e Helena são irmãs. Luiza tem sete anos, Helena tem cinco. Luiza acredita que ser negra é um superpoder. Ela vê Pelé, Vinicius Junior, Mbappé — todos negros, todos craques — e sabe o que quer: ser jogadora de futebol, jogar pela seleção brasileira em uma Copa do Mundo, fazer treze gols. Ela diz que é muito boa na marcação. Fez uma festa de aniversário com o tema da Copa. Sua irmã vai ser médica pediatra, cuidando de bebês.

O que une essas meninas não é apenas a cor da pele ou a idade. É o fato de que elas estão falando, sonhando em voz alta, sendo ouvidas. Seus sonhos não são revolucionários — policial, veterinária, jogadora de futebol, médica — são profissões ordinárias. Mas para meninas negras em uma sociedade marcada pela escravidão e pelo preconceito, o direito de sonhar com o ordinário é ainda uma conquista. Elas herdam uma luta que não começou com elas e que não terminará com elas. Mas por enquanto, elas sonham. E alguém está escutando.

Às vezes tem algumas coisas boas em ser negra. A gente ganha uns apelidos muito fofinhos, tipo o apelido do meu pai, que era Chocolate
— Olívia, 8 anos
Ser negra é um superpoder. Isso me ajuda a ficar mais craque, porque vários craques também são negros
— Luiza, 7 anos
Contáctanos FAQ