Mendonça trocou mensagens com Castro sobre prisão de Cabral, diz ministro

Sérgio Cabral permaneceu preso preventivamente por seis anos antes de ser liberado para prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.
Magistrados são procurados pelas mais diversas vias, afirma Mendonça
Defesa do ministro contra acusações de que recebeu influência política em caso de Cabral.
Mark

O que exatamente essas mensagens mostram? É uma conversa sobre um caso específico ou algo mais amplo?

Mimi

Castro escreve para Mendonça dizendo que precisa falar com urgência sobre o caso Cabral — o ex-governador preso há seis anos — e envia documentos sobre habeas corpus. Mendonça responde com detalhes do processo e promete ligar. Depois envia um link direto para o habeas corpus no site do STF.

Luke

Mas o que a gente sabe de fato? Que houve troca de mensagens. O que não sabemos: se Mendonça realmente ligou, o que foi dito, se Castro pediu algo explicitamente ou se Mendonça ofereceu ajuda. As mensagens não deixam claro o interesse de Castro na soltura.

Mark

E quanto ao timing? Mendonça votou 17 dias depois. Isso é suspeito?

Mimi

É o que levanta questões. Ele pediu vista dos autos em outubro, depois da conversa com Castro em novembro, devolveu o processo em 28 de novembro e votou pela soltura em 9 de dezembro. Cabral saiu da prisão preventiva após seis anos.

Luke

Mas precisamos ser precisos: Mendonça votou pela soltura argumentando excesso de prazo na detenção. Esse é um argumento jurídico legítimo que ele pode ter aplicado em outros casos. A Folha não apresenta evidência de que ele mudou seu voto por causa da conversa.

Mark

Mendonça nega amizade com Castro. Isso é credível?

Mimi

Ele diz que se conheceram institucionalmente quando era ministro da Justiça. Castro diz que expressões como "amigo" são formas de tratamento usuais no meio político. Ambos afirmam que a relação é estritamente institucional.

Luke

Verdade, mas a Folha também mostra que a PF criticou diferenças de prazo em operações contra Castro versus contra Wagner. Isso sugere possível tratamento diferenciado, mas não prova que Mendonça foi responsável por isso.

Mark

Então o que fica em aberto?

Mimi

Se houve influência política sobre a decisão judicial. Se a conversa teve peso na votação. Se há um padrão de favorecimento.

Luke

E o que não fica em aberto: que as mensagens existem, que foram trocadas, que Mendonça votou pela soltura, e que a PF viu diferenças de prazo. Isso é fato. O resto é interpretação.

  • Mensagens interceptadas pela PF revelam que um ex-governador pediu 'urgência' a um ministro do STF sobre o caso de um rival político preso — e o ministro respondeu com informações processuais e um link direto para o habeas corpus.
  • Dezessete dias depois do contato, Mendonça devolveu os autos para julgamento; semanas mais tarde, votou pela soltura de Cabral, argumentando excesso de prazo na detenção preventiva de seis anos.
  • O STF revogou a prisão preventiva por 3 votos a 2, libertando Cabral para prisão domiciliar com tornozeleira — decisão que agora é relida à luz das mensagens divulgadas.
  • Mendonça nega amizade com Castro e afirma que suas decisões se baseiam exclusivamente nos autos; Castro nega ter feito qualquer pedido relacionado a processos judiciais.
  • Um relatório interno da PF aponta assimetria de prazos: autorização de operação contra aliado do governo levou 9 dias; contra Castro, 74 dias — alimentando suspeitas sobre possível tratamento diferenciado.

No cruzamento entre o poder judiciário e a política, mensagens trocadas em novembro de 2022 entre o ministro do STF André Mendonça e o ex-governador Cláudio Castro lançam sombra sobre a independência das decisões judiciais. Dezessete dias após a conversa — na qual Castro pediu urgência no caso do ex-governador Sérgio Cabral, preso há seis anos —, Mendonça devolveu o processo e, semanas depois, votou pela soltura de Cabral. A questão que persiste não é de culpa declarada, mas de aparência: até que ponto a justiça pode ser percebida como justa quando seus bastidores se confundem com os corredores do poder?

Na noite de 11 de novembro de 2022, o ex-governador do Rio Cláudio Castro enviou uma mensagem ao ministro do STF André Mendonça pedindo contato urgente sobre o "caso Cabral" — referência ao ex-governador Sérgio Cabral, então preso preventivamente há seis anos. Junto à mensagem, Castro anexou documentos de habeas corpus e alvará de soltura que seriam julgados pelo próprio tribunal do qual Mendonça fazia parte.

Mendonça respondeu menos de uma hora depois, descrevendo o processo e prometendo ligar em minutos. Sete minutos depois, encaminhou a Castro um link direto para a página do STF com o habeas corpus de Cabral — um caso em julgamento na Segunda Turma, da qual o ministro era integrante. As mensagens foram coletadas pela Polícia Federal e obtidas pela Folha de S.Paulo.

O cronograma que se seguiu é o centro da controvérsia. Mendonça havia pedido vista dos autos em 24 de outubro. A conversa com Castro ocorreu 18 dias depois. No dia 28 de novembro — 17 dias após a troca de mensagens —, o ministro devolveu o processo. Em 9 de dezembro, votou pela soltura de Cabral, argumentando excesso de prazo na detenção. Em 16 de dezembro, o STF revogou a prisão preventiva por 3 votos a 2.

Mendonça nega qualquer irregularidade. Seu gabinete afirmou que o ministro não mantém relação de amizade com Castro, que os dois se conheceram apenas institucionalmente, e que magistrados são rotineiramente procurados por diversas partes. "Tais manifestações não alteram o curso do exame dos processos, que se dá exclusivamente a partir do que consta dos autos", diz a nota. Castro, por sua vez, negou ter feito qualquer pedido relacionado a processos judiciais.

As mensagens foram interceptadas durante a Operação Sem Refino, da qual Castro foi alvo em agosto, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Um relatório interno da PF usado por Moraes apontou ainda uma assimetria de prazos: a autorização de operação contra o senador governista Jaques Wagner levou 9 dias; contra Castro, 74 dias. Em outro episódio, a PF pediu buscas em um endereço em Petrópolis em maio, mas Mendonça negou o pedido em julho — as buscas só foram autorizadas em agosto. Mendonça afirma que sua atuação é pública e verificável, e que em maio já havia autorizado mandados de busca na residência do ex-governador.

Na noite de 11 de novembro de 2022, o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro enviou uma mensagem de WhatsApp ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. "Amigo, preciso falar com urgência", escreveu Castro às 19h37, seguido de "caso Cabral" — uma referência ao ex-governador Sérgio Cabral, então preso preventivamente. Anexados à mensagem estavam dois arquivos contendo pedidos de habeas corpus e alvará de soltura, documentos que seriam julgados pelo STF.

Mendonça respondeu 48 minutos depois com a descrição de um processo da 13ª Vara Federal de Curitiba que havia decretado a prisão preventiva de Cabral por corrupção no âmbito da Operação Lava Jato. "Ligo em alguns minutos", completou o ministro. Sete minutos após essa troca, Mendonça encaminhou a Castro um link direto para a página do Supremo com o habeas corpus movido por Cabral — um caso que estava sendo julgado na Segunda Turma da corte, da qual o próprio Mendonça era integrante.

Essas mensagens foram coletadas pela Polícia Federal e obtidas pela Folha de S.Paulo. Elas formam o núcleo de uma questão que agora permeia o debate sobre a atuação judicial: se houve influência política sobre uma decisão do STF. Mendonça nega qualquer irregularidade. Seu gabinete informou que o ministro não mantém relação de amizade com Castro, que os dois se conheceram apenas institucionalmente quando Mendonça era ministro da Justiça, e que magistrados são procurados rotineiramente por advogados, partes e terceiros. "Tais manifestações não alteram o curso do exame dos processos, que se dá exclusivamente a partir do que consta dos autos", afirmou a nota.

O cronograma dos eventos, porém, levanta questões. No dia 24 de outubro, Mendonça havia pedido vista dos autos — mais tempo para análise — após o voto do relator Edson Fachin negando o recurso de Cabral. A conversa com Castro ocorreu 18 dias depois. No dia 28 de novembro, 17 dias após a troca de mensagens, Mendonça devolveu o processo para julgamento. Em 9 de dezembro, votou pela soltura de Cabral, argumentando que havia excesso de prazo na detenção, configurando um ilegal "cumprimento antecipado de pena". No voto, escreveu que a presunção de que o agravante seguiria cometendo crimes não era admitida pela jurisprudência da corte. Em 16 de dezembro, com placar de 3 votos a 2, o STF revogou a prisão preventiva de Cabral, que estava preso há seis anos. Ele foi para prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica.

O mandado de prisão que motivou a conversa havia sido expedido pelo ex-juiz Sergio Moro em 2016. Cabral havia sido condenado a 14 anos e 2 meses de prisão em um caso que tratava de suposto pagamento de propina por executivos da Andrade Gutierrez. Castro, em nota, afirmou que sua relação com Mendonça "sempre se restringiu ao âmbito institucional, em contatos voltados a assuntos de interesse público do estado". Disse também que discutia a possibilidade de soltura de Cabral "por sua relevância para o estado, assim como fazia com outras situações sensíveis de interesse público". Negou categoricamente ter feito qualquer pedido relacionado a processos judiciais ao ministro ou a qualquer outro integrante do STF.

As mensagens não deixam claro qual era o interesse de Castro na soltura de Cabral. Os dois não tinham uma conexão política direta. O que se sabe é que as mensagens foram interceptadas pela Polícia Federal durante a Operação Sem Refino, da qual Castro foi alvo em 14 de agosto, em pedido autorizado pelo ministro relator Alexandre de Moraes. A operação aponta suspeitas sobre a atuação da Secretaria de Meio Ambiente do Rio para concessão de licenças à atividade da refinaria Refit.

Um detalhe adicional emergiu de um relatório interno da PF usado por Moraes: a polícia criticou a diferença de tempo na autorização entre operações relacionadas ao senador governista Jaques Wagner, que levou nove dias, e contra Castro, que levou 74 dias. Na operação sobre aplicações de mais de R$ 3 bilhões do Rioprevidência no Banco Master, policiais relataram que Castro e assessores foram vistos saindo com caixas de um endereço vinculado ao ex-governador na véspera da operação. A PF pediu buscas em um novo endereço em Petrópolis em 30 de maio, mas Mendonça negou o pedido em 15 de julho. Apenas em 14 de agosto as buscas foram autorizadas.

Mendonça afirmou que sua atuação nos casos envolvendo Castro é pública e verificável, e que em 26 de maio autorizou mandados de busca e apreensão na residência do ex-governador. No Tribunal Superior Eleitoral, reconheceu abuso de poder nas eleições de 2022 no Rio e consignou que cassação seria cabível. "As decisões do ministro se baseiam exclusivamente nos elementos de prova constantes dos autos e no direito aplicável", concluiu a nota. Mendonça não é investigado. As mensagens interceptadas seguem sob reserva, embora a operação tenha tido seu sigilo retirado.

Tais manifestações não alteram o curso do exame dos processos, que se dá exclusivamente a partir do que consta dos autos
— Gabinete de André Mendonça
Afirma, de forma categórica, que jamais fez qualquer pedido relacionado a processos judiciais ao ministro André Mendonça ou a qualquer outro integrante do STF
— Cláudio Castro
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