Mendonça convocou reunião surpresa em agosto para requisitar relatório sobre diálogos entre ex-banqueiro e ministro Moraes, determinando análise em 72 horas. PF teme que ordem seja interpretada como investigação não autorizada contra Moraes e que conflito interno no STF anule apurações sobre esquemas de Vorcaro.
Mendonça requisita análise sobre Moraes e PF vê excesso do ministro
A polícia teme que a análise seja vista como investigação não autorizada
Por que Mendonça pediu essa análise de forma tão abrupta? Parece haver algo mais por trás.
A reunião foi convocada sob pretexto de outro assunto, mas quando os policiais chegaram, já havia um despacho pronto. Mendonça deu 72 horas para identificar todas as pessoas mencionadas nas mensagens de Vorcaro, incluindo ministros do STF e o procurador-geral.
Mas por que isso é um problema? Se há mensagens relevantes, não deveria a polícia analisá-las?
O problema é que Mendonça está ordenando à polícia que investigue pessoas com foro no Supremo, o que normalmente requer autorização do plenário. A PF teme que isso seja visto como uma investigação não autorizada contra Moraes.
E qual é o risco real para as investigações em andamento?
Se o Supremo considerar que Mendonça excedeu sua autoridade, pode anular todas as apurações sobre os esquemas de Vorcaro. É um risco existencial para meses de trabalho.
Gonet pediu a nulidade. Mas ele também está sendo citado nas mensagens que Mendonça mandou analisar. Não há um conflito de interesse ali também?
Sim, há. Advogados de Vorcaro encaminharam mensagens atribuídas ao procurador-geral. Gonet não se manifestou sobre isso.
Mendonça tem feito isso antes? Usar sua posição para controlar investigações?
Sim. Ele exige que mudanças na equipe de investigadores sejam comunicadas antecipadamente, determinou que todos os atos do caso INSS sejam anexados ao seu gabinete, e se queixa de demora nas apurações.
Ele diz que há tentativa de impedir que as investigações avancem sobre aliados do Lula. Isso é verificável ou é apenas sua interpretação?
É sua interpretação, expressa internamente. A PF vê suas ações como intromissões na autonomia da corporação, não como proteção de investigações.
Como isso termina?
Depende de como o Supremo resolve o conflito entre a autoridade de um ministro individual e os limites constitucionais de seu poder.
O Pulso
- Mendonça convocou reunião surpresa em 24 de agosto para requisitar análise em 72 horas
- Ordem incluía identificação de ministros do STF e procurador-geral da República
- PF teme anulação colegiada de todas as apurações sobre esquemas de Vorcaro
- Paulo Gonet pediu nulidade da decisão, argumentando abuso de autoridade
Mendonça convocou reunião surpresa em agosto para requisitar relatório sobre diálogos entre ex-banqueiro e ministro Moraes, determinando análise em 72 horas. PF teme que ordem seja interpretada como investigação não autorizada contra Moraes e que conflito interno no STF anule apurações sobre esquemas de Vorcaro.
Ministro André Mendonça ordenou à Polícia Federal análise de mensagens entre Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes, gerando temores internos de excesso de autoridade e possível anulação de investigações.
André Mendonça convocou uma reunião surpresa com a Polícia Federal no dia 24 de agosto, sob o pretexto de discutir uma diligência sobre outro assunto. Quando os policiais chegaram, encontraram um despacho já pronto esperando por eles: uma ordem do ministro do Supremo Tribunal Federal determinando que a corporação analisasse mensagens do celular de Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro no centro das operações Compliance Zero e Sem Desconto, e identificasse todas as pessoas mencionadas naquelas conversas em apenas 72 horas. A ordem causou incômodo imediato entre investigadores, que viram nela mais do que um simples pedido de análise.
O que preocupava a Polícia Federal era a amplitude da determinação. Mendonça mandou identificar não apenas pessoas comuns, mas também detentores de foro no Supremo e autoridades que só podem ser julgadas pelo plenário da corte — incluindo ministros do próprio STF e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Entre as mensagens estava correspondência entre Vorcaro e Alexandre de Moraes, colega de Mendonça no tribunal. Parte desses diálogos já havia aparecido em outros inquéritos, como aquele que investigava suspeitas de irregularidades no relacionamento entre servidores do Banco Central e o ex-banqueiro, mas a polícia nunca havia nomeado quem era o interlocutor.
O temor interno na corporação era duplo e estrutural. Primeiro, havia o risco de que a análise das conversas de Moraes com Vorcaro fosse interpretada como o início de uma investigação policial contra o ministro, sem a autorização necessária do plenário da corte — um procedimento que violaria protocolos constitucionais. Segundo, havia a preocupação de que a crise gerada dentro do Supremo pudesse levar a uma anulação colegiada de todas as demais apurações sobre os esquemas de Vorcaro, destruindo meses de trabalho investigativo. Internamente, policiais avaliaram a decisão como uma tentativa de conduzir a investigação, que por lei cabe à corporação, não a um ministro individual.
O procurador-geral da República concordou com essa avaliação. Na noite de terça-feira, 1º de setembro, Gonet pediu a nulidade da decisão de Mendonça, argumentando que o ministro não pode se valer "da polícia judiciária como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas" e que a ordem foi feita "sem pedido do Ministério Público e sem iniciativa da autoridade policial". Gonet tinha razão adicional para se preocupar: ele próprio era citado na análise que Mendonça havia requisitado. Em diálogos com Vorcaro, um advogado havia encaminhado mensagens atribuídas ao procurador-geral da República.
O padrão de comportamento de Mendonça nas investigações sob sua supervisão já havia gerado tensões anteriores. O ministro se queixava de demora na apuração de desdobramentos do caso do INSS e via uma tentativa de impedir que as investigações avançassem sobre aliados e familiares do presidente Lula, candidato à reeleição em 2026. A cúpula da Polícia Federal, por sua vez, interpretava suas ações como intromissões na autonomia da corporação. No mês anterior, Mendonça havia determinado que todos os atos da investigação do INSS fossem imediatamente anexados ao processo em seu gabinete, uma decisão que incomodou a liderança da PF. Ele também exigiu que qualquer mudança na equipe de investigadores lhe fosse comunicada antecipadamente.
Havia precedentes que alimentavam a desconfiança. Em fevereiro, a Polícia Federal havia entregue ao presidente da corte um relatório mostrando uma troca de mensagens entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, em que ambos discutem pagamentos para a empresa Maridt, que contava o ministro Dias Toffoli entre seus sócios. O documento levou Toffoli a deixar a relatoria do caso Master, que foi então sorteada para Mendonça, mas acabou sendo arquivado pelo presidente do STF, Edson Fachin. Integrantes da polícia também apontavam que a própria corte não havia levado à frente suspeitas anteriores no caso Master que envolveram um ministro do tribunal.
Mendonça não se manifestou quando procurado pela reportagem. O material elaborado pela PF, que teve o sigilo retirado na terça-feira, mostrou uma série de trocas de mensagens entre o ministro e Vorcaro, inclusive uma na qual o ex-banqueiro questiona se deveria deixar o país dois dias antes de ser preso ao tentar viajar para o exterior. A ordem de Mendonça havia criado uma situação delicada: a análise que ele requisitou estava sendo cumprida, mas sua legitimidade estava sendo contestada simultaneamente pelas estruturas que deveriam executá-la e pelas que deveriam supervisioná-la. O que viria a seguir dependeria de como o Supremo resolveria o conflito entre a autoridade de um ministro individual e os limites constitucionais de seu poder.
Citações Notáveis
O ministro não pode se valer da polícia judiciária como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas— Paulo Gonet, procurador-geral da República