Sua popularidade não é da sua conta
Entre aliados que um dia se reconheceram como irmãos ideológicos, a distância agora se mede em palavras trocadas publicamente e viagens canceladas. A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e o presidente americano Donald Trump protagonizaram, às margens da cúpula do G7, uma ruptura que revela como as alianças populistas do Ocidente são frágeis quando os interesses nacionais divergem — e quando a popularidade doméstica de cada líder exige narrativas distintas. O que começou como uma disputa sobre uma foto tornou-se um espelho das tensões mais profundas entre a Europa e os Estados Unidos em tempos de guerra e inflação.
- Trump acusou Meloni de ter implorado por uma foto com ele e culpou sua suposta baixa popularidade pela recusa italiana em ceder bases militares para a guerra contra o Irã.
- Meloni respondeu publicamente no Instagram com sarcasmo e irritação, desmentindo as acusações e sugerindo que Trump se preocupasse com seus próprios números — que haviam caído a 35% de aprovação.
- O chanceler italiano Antonio Tajani cancelou uma visita aos EUA em protesto, chamando as palavras de Trump de 'graves e ofensivas' para toda a Itália.
- Aliados próximos de Meloni foram a público criticar Trump por tornar os Estados Unidos impopulares em toda a Europa, ampliando o alcance do conflito diplomático.
- Analistas avaliam que Meloni está usando o distanciamento de Trump estrategicamente para recuperar terreno junto ao eleitorado italiano, onde a impopularidade do presidente americano cresce.
A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni respondeu com provocação às acusações de Donald Trump, aprofundando uma ruptura entre dois políticos que antes se apresentavam como aliados. Trump havia declarado, em sua rede social e em entrevistas, que Meloni havia implorado por uma foto com ele durante o G7 na França — e atribuiu sua suposta baixa popularidade à recusa italiana em permitir o uso de bases militares na guerra americana contra o Irã.
Meloni desmentiu as acusações categoricamente e respondeu no Instagram com sarcasmo: 'Presidente Trump, esses ataques constantes e não provocados são sem sentido.' Ela argumentou que sua popularidade não depende da relação com Washington e sugeriu que ele olhasse para seus próprios números — à época, sua aprovação havia caído a 35%, pressionada pelos custos da guerra e pela inflação global.
O distanciamento entre os dois não nasceu nesse episódio. Em abril, Meloni já havia criticado Trump por chamar o papa Leão XIV de 'fraco' ao condenar a guerra no Irã. Trump respondeu dizendo estar 'chocado' com ela e questionando sua coragem. A tensão mais recente escalou quando o chanceler Antonio Tajani cancelou uma viagem aos EUA, condenando as falas de Trump como ofensivas a toda a Itália. Aliados de Meloni foram além, acusando Trump de ter tornado os Estados Unidos impopulares em todo o continente europeu.
Analistas do New York Times avaliam que Meloni está aproveitando o momento para sinalizar ao público interno um afastamento estratégico do presidente americano. O episódio marca um ponto de não retorno em uma relação já comprometida, com consequências que vão além das palavras — e que revelam a fragilidade das alianças populistas quando os interesses nacionais e eleitorais divergem.
A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni respondeu com provocação às acusações de Donald Trump, aprofundando uma ruptura que já vinha se desenhando entre dois políticos que antes se consideravam aliados. Trump havia afirmado, em declarações a uma emissora italiana e depois em sua rede social Truth Social, que Meloni havia implorado por uma foto com ele durante a cúpula do G7 na França — e que sua baixa popularidade na Itália era a razão por trás do pedido.
Meloni desmentiu categoricamente as acusações e respondeu publicamente no Instagram com um tom que misturava irritação e sarcasmo. "Presidente Trump, esses ataques constantes e não provocados são sem sentido", escreveu. Ela argumentou que sua popularidade não depende da relação com o presidente americano e sugeriu que ele se concentrasse em seus próprios números. No momento em que a troca acontecia, a taxa de aprovação de Trump havia caído para 35%, pressionada pelos altos custos da guerra contra o Irã e pela inflação nos Estados Unidos causada pela crise econômica global ligada ao conflito.
Trump havia sido ainda mais contundente em seu post original. Ele afirmou que o nível de popularidade de Meloni estava em baixa na Itália, provavelmente porque ela havia rejeitado os Estados Unidos quando se tratava de impedir que o Irã desenvolvesse armas nucleares. Reclamou também que o governo italiano não havia permitido que as bases militares italianas fossem usadas pela guerra americana contra o Irã, o que gerou, segundo ele, um grande inconveniente logístico. Trump ressaltou que os EUA contribuem com centenas de bilhões de dólares anualmente para proteger a Itália e outros aliados da OTAN, e sugeriu que Meloni agora queria voltar a ser amiga apenas para melhorar seus números políticos.
O distanciamento entre os dois políticos não começou com essa troca recente. Em abril, Meloni havia criticado Trump depois que ele chamou o papa Leão XIV de "fraco" por condenar a guerra no Irã. Ela respondeu que considerava inaceitáveis as palavras do presidente em relação ao Santo Padre. Trump retrucou em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, dizendo estar "chocado" com a postura de Meloni e questionando sua coragem, afirmando que "ela não é mais a mesma pessoa, e a Itália nunca mais será o mesmo país".
Analistas ouvidos pelo jornal The New York Times avaliam que Meloni aproveitou esse momento de tensão para sinalizar ao público interno um afastamento do presidente americano. Pesquisas indicam aumento da impopularidade de ambos entre eleitores italianos, e o distanciamento pode servir aos interesses políticos domésticos da premiê. Vídeos do evento do G7 mostraram Meloni e Trump em conversa profunda, sentados lado a lado em um pequeno sofá — Trump posteriormente sugeriu que havia apenas querido agradá-la ao conversar.
A tensão diplomática escalou quando o chanceler italiano Antonio Tajani anunciou que cancelaria uma viagem aos Estados Unidos prevista para a semana seguinte, onde se encontraria com o secretário de Estado Marco Rubio. Tajani condenou as palavras de Trump como "graves e ofensivas" e disse que elas ofendiam toda a Itália. Giovanbattista Fazzolari, subsecretário do gabinete de Meloni e um de seus aliados políticos mais próximos, também se pronunciou, criticando Trump por seus "rompantes inadequados" e argumentando que ele conseguiu tornar os Estados Unidos impopulares em todo o continente europeu.
Meloni, por sua vez, rebateu as críticas afirmando que precisa "defender o interesse nacional da Itália" e que a "Itália continua sendo uma nação soberana". Ela garantiu que as falas de Trump eram "completamente inventadas". O episódio marca um ponto de não retorno em uma relação que já estava comprometida, com consequências que vão além das trocas de palavras — cancelamentos de viagens diplomáticas, declarações públicas de condenação e uma crescente distância entre dois líderes que antes se apresentavam como parceiros políticos.
Notable Quotes
Esses ataques constantes e não provocados são sem sentido. De qualquer forma, minha popularidade não é da sua conta.— Giorgia Meloni, em resposta a Trump no Instagram
As palavras graves e ofensivas do presidente Trump em relação à primeira-ministra Giorgia Meloni ofendem toda a Itália— Antonio Tajani, chanceler italiano
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Meloni respondeu de forma tão provocativa, em vez de simplesmente ignorar Trump?
Porque ignorar teria deixado a narrativa nas mãos dele. Ela precisava estabelecer que não seria intimidada e que sua soberania política não depende da aprovação americana. Havia também um público interno a considerar.
Você acha que isso é realmente sobre uma foto, ou há algo mais profundo acontecendo?
A foto é apenas o pretexto. O real conflito é sobre as bases militares italianas e a recusa de Meloni em apoiar a guerra contra o Irã. Trump esperava lealdade; Meloni colocou os interesses italianos em primeiro lugar.
E quanto ao timing? Por que agora?
Porque ambos estão impopulares. Meloni viu uma oportunidade de se distanciar de Trump perante o eleitorado italiano, que não apoia a guerra. É política doméstica disfarçada de diplomacia.
O cancelamento da viagem do chanceler é um gesto simbólico ou tem peso real?
Tem peso. Cancela uma reunião com o secretário de Estado americano é uma mensagem clara de que a Itália não vai simplesmente aceitar desrespeito. É uma linha na areia.
Como isso afeta a OTAN e a aliança transatlântica?
Enfraquece a coesão. Se a Itália — um membro importante — está se distanciando, outros aliados podem questionar se vale a pena manter essa relação. Trump já está impopular na Europa; isso piora ainda mais.