Médico questiona programa dos EUA de rastreamento e reposição de testosterona em militares

Potencial exposição de militares jovens a tratamentos desnecessários com risco de infertilidade e complicações cardiovasculares graves.
Muitos correm o risco de ganhar um diagnóstico baseado só numa dosagem
Endocrinologista alerta que programa pode levar a sobretratamento desnecessário de militares.
Mark

Por que exatamente um número isolado de testosterona não é suficiente para decidir se alguém precisa de tratamento?

Mimi

Porque o corpo humano não funciona como um medidor simples. Dois homens podem ter o mesmo nível de testosterona, mas um pode estar perfeitamente bem e o outro pode estar sofrendo de sintomas reais — disfunção sexual, fadiga, perda de libido. O diagnóstico precisa considerar como a pessoa se sente e funciona, não apenas um número.

Mark

E se o governo estabelecer um limite muito alto para o que consideram "normal"?

Mimi

Então você transforma homens saudáveis em pacientes. Se disserem que 500 nanogramas é o mínimo aceitável, quando a maioria dos padrões internacionais usa 264 ou 350, você está medicalizando uma população inteira que nunca pediu por isso.

Mark

Qual é o risco específico para militares jovens?

Mimi

Infertilidade. Testosterona suprime a produção de espermatozoides. Um soldado de 25 anos que recebe reposição desnecessária pode descobrir anos depois que não consegue ter filhos. É um efeito colateral que muda vidas.

Mark

Os números do estudo parecem muito graves.

Mimi

São. Risco 90% maior de morte por qualquer causa quando você toma testosterona sem precisar dela. Infarto, derrame — esses não são efeitos colaterais menores. São eventos que matam pessoas.

Mark

Então como se deveria fazer isso corretamente?

Mimi

Você avalia a pessoa inteira. Sintomas, história clínica, exame físico, depois sim um exame de sangue. E mesmo assim, em homens jovens, você pensa duas vezes antes de medicar. Às vezes existem outras estratégias. Mas rastreamento em massa? Isso é medicina de massa, não medicina de pessoas.

  • Não existe nível 'ideal' universal de testosterona; critérios variam entre 264 e 350 nanogramas por decilitro conforme a instituição médica
  • Reposição hormonal sem indicação clínica aumenta risco de infarto em 51% e morte por qualquer causa em 90%
  • Homens jovens que usam testosterona desnecessariamente correm risco de infertilidade por redução da produção de espermatozoides
  • Estudo analisou mais de 350 mil homens acompanhados por até dez anos

Não existe nível 'ideal' universal de testosterona; critérios variam entre entidades médicas e podem levar a sobretratamento. Reposição hormonal sem indicação clínica aumenta risco de infarto, AVC e morte em 51% e 90%, respectivamente.

Médicos questionam programa dos EUA de rastreamento e reposição de testosterona em militares, alertando para risco de diagnósticos desnecessários e efeitos adversos graves, incluindo infertilidade e problemas cardiovasculares.

Na quarta-feira, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, anunciou um programa que fará com que militares passem por exames para medir seus níveis de testosterona. Em um vídeo publicado no X, ele descreveu a iniciativa como uma forma de garantir que as tropas mantivessem "níveis adequados" do hormônio para alcançar "o melhor desempenho possível" — uma mensagem acompanhada pela expressão "High-T Department", ou Departamento de Alta Testosterona.

Mas a decisão está gerando preocupação entre médicos. Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, alertou que o programa pode identificar variações nos níveis hormonais que não necessariamente exigem tratamento, levando a reposições desnecessárias com efeitos adversos potencialmente graves, incluindo redução da fertilidade.

O problema começa com uma questão fundamental: não existe um número ideal de testosterona que sirva para todos os homens. Os níveis considerados normais variam conforme a instituição médica, o método de laboratório e as evidências científicas que se adota. A Sociedade de Endocrinologia dos Estados Unidos considera hipogonadismo — a condição em que o corpo produz menos testosterona do que o esperado — quando os níveis caem abaixo de 264 nanogramas por decilitro. Já as diretrizes europeias costumam usar limites entre 300 e 350 nanogramas por decilitro. Essa discrepância importa porque quanto mais alto for o limite escolhido para definir testosterona "baixa", mais homens serão classificados como tendo deficiência hormonal.

Segundo Hohl, se o governo americano decidir que 350, 400 ou até 500 nanogramas por decilitro é insuficiente, o número de militares recebendo reposição hormonal pode ser "avassalador". Muitos correriam o risco de receber um diagnóstico baseado apenas em uma dosagem isolada, sem considerar outros aspectos de sua saúde — abrindo a porta para o abuso de testosterona e seus efeitos adversos, especialmente em uma população jovem.

A prática médica estabelecida é clara: uma dosagem de testosterona por si só não é suficiente para indicar reposição hormonal. Os médicos devem considerar não apenas o nível hormonal, mas também a presença de sintomas de hipogonadismo — disfunção erétil, queda de libido, diminuição de ereções espontâneas, problemas de desempenho sexual. O diagnóstico depende da combinação entre sinais clínicos e exames laboratoriais. Apenas depois dessa avaliação completa a reposição é considerada. A idade também é crucial: em homens jovens sem indicação clara de reposição, o uso de testosterona pode reduzir a produção de espermatozoides e causar infertilidade — um mecanismo semelhante ao observado em pessoas que usam o hormônio para fins estéticos ou ganho de desempenho, prática proibida em competições esportivas.

Os riscos de usar testosterona sem indicação médica apropriada são substanciais. Um estudo publicado esta semana na revista eBioMedicine analisou dados de mais de 350 mil homens. Os pesquisadores compararam homens que iniciaram terapia com testosterona sem evidência de hipogonadismo com aqueles que tinham a condição, acompanhando ambos os grupos por até dez anos. Os resultados foram alarmantes: homens que receberam testosterona sem indicação de deficiência hormonal apresentaram risco 51% maior de eventos cardiovasculares graves — infarto, acidente vascular cerebral e outros eventos importantes. A taxa de ocorrência foi de 16,53% no grupo sem indicação, contra 11,83% entre aqueles com diagnóstico confirmado. O estudo também encontrou risco 90% maior de morte por qualquer causa entre os homens que usaram testosterona sem evidência de hipogonadismo, além de riscos aumentados de acidente vascular cerebral isquêmico (23% maior), parada cardíaca (41% maior) e insuficiência cardíaca (32% maior).

Os efeitos adversos do uso inadequado vão além dos riscos cardiovasculares. Acne, aumento da oleosidade da pele, queda de cabelo, aumento das mamas em homens, alterações no humor, aumento da produção de glóbulos vermelhos — o que pode favorecer coágulos —, alterações no colesterol e problemas no fígado também podem ocorrer. Para militares jovens, a ameaça à fertilidade é particularmente preocupante. O programa anunciado por Hegseth oferecerá reposição hormonal para militares com níveis considerados "baixos", enquanto a participação nos exames será voluntária apenas para aqueles com menos de 30 anos. A questão que permanece é se esse rastreamento em massa levará a diagnósticos e tratamentos que, embora bem-intencionados, podem expor uma população jovem e saudável a riscos desnecessários.

Se o governo americano definir que 350, 400 ou 500 nanogramas por decilitro é pouco, a quantidade de homens recebendo testosterona vai ser avassaladora
— Alexandre Hohl, diretor da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica
O diagnóstico depende da combinação entre sinais clínicos e exames laboratoriais, e não apenas de um valor isolado de testosterona
— Prática médica estabelecida
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