Você acaba de ganhar 20 anos de vida com qualidade
Em um sistema de saúde que historicamente aguarda a doença para agir, o nefrologista Eduardo Amado propõe uma inversão de lógica: tratar o ser humano antes que os órgãos falem por ele. Sua advertência sobre o uso irresponsável de emagrecedores injetáveis não é apenas clínica — é um retrato de uma sociedade que busca atalhos para o corpo sem compreender o preço cobrado pelo tempo. A sarcopenia que se anuncia como próxima epidemia é, em essência, a consequência de uma cultura que valoriza a aparência imediata mais do que a autonomia futura.
- O mercado de 'canetas emagrecedoras' cresceu sem controle e milhares de pessoas perdem massa muscular sem saber, trocando gordura por fragilidade.
- A sarcopenia silenciosa avança: quedas, fraturas e perda de independência ameaçam uma geração que emagreceu sem acompanhamento médico.
- Hormônios negligenciados e diagnósticos errados deixam mulheres com lipedema anos em sofrimento desnecessário, carregando culpa por uma condição genética.
- A medicina preventiva estruturada em cinco pilares — movimento, alimentação, sono, espiritualidade e vínculos — já demonstra capacidade de reverter pré-diabetes e hipertensão.
- O Brasil investe apenas 1% do orçamento pessoal em prevenção, enquanto países desenvolvidos destinam 20%, revelando um abismo de oportunidade transformadora.
O nefrologista Luiz Eduardo Bersani Amado passou anos recebendo pacientes idosos com rins destruídos por décadas de hipertensão e diabetes ignorados. Aquela repetição o incomodou profundamente — não como falha pessoal, mas como sintoma de um modelo médico que só age quando o estrago já está feito. Foi essa inquietação que o levou à Medicina do Estilo de Vida, estruturada em cinco pilares: atividade física, alimentação, sono, espiritualidade e relacionamentos.
Em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, do Maringá Post, Amado defendeu que intervir cedo transforma vidas de forma concreta. Quando um paciente de 45 anos reverte o pré-diabetes e abandona medicamentos para hipertensão, Amado lhe diz com convicção: você acaba de ganhar 20 anos de vida com qualidade.
Mas há uma ameaça crescendo nesse cenário. As chamadas 'canetas emagrecedoras' são, de fato, uma revolução metabólica — quando usadas com orientação. O problema é que escaparam do consultório. Usadas sem acompanhamento, provocam perda simultânea de gordura e músculo. Quando o paciente para, engorda novamente, recomeça o ciclo e vai, silenciosamente, definhando. Amado alerta: a próxima epidemia será de sarcopenia, com fraturas, perda de autonomia e comorbidades em cascata.
O médico também defendeu o uso clínico criterioso de anabolizantes e reposição hormonal — substâncias estigmatizadas pela associação com academias clandestinas, mas respaldadas pela literatura científica atual. Relatou o caso de um paciente dialítico que recuperou autonomia plena após correção hormonal, e destacou que mulheres na menopausa frequentemente recebem antidepressivos para o que é, na verdade, uma questão hormonal tratável.
O lipedema, doença inflamatória crônica que causa acúmulo doloroso e desproporcional de gordura nos membros inferiores, foi outro tema central. Confundida com obesidade comum, a condição deixa mulheres anos em autoculpabilização. O diagnóstico correto, quando finalmente chega, transforma não só o corpo — transforma a relação da pessoa consigo mesma.
Amado encerrou com um dado revelador: o Brasil investe apenas 1% do orçamento pessoal em prevenção, contra 20% em países desenvolvidos. Dirigindo-se a líderes e empresários, reposicionou o autocuidado como responsabilidade coletiva: estar bem física e psicologicamente não é vaidade — é o que permite a quem decide, decidir bem.
O consultório de um nefrologista tradicional costuma receber um tipo de paciente muito específico: homens e mulheres com mais de 70 anos, cujos rins falharam após décadas de hipertensão e diabetes negligenciados. Para o médico Luiz Eduardo Bersani Amado, fundador da MedInfuse Maringá, essa realidade repetida centenas de vezes ao longo de sua carreira revelava um fracasso sistêmico. Não era fracasso seu — era fracasso de um modelo de medicina que só intervinha quando a doença já havia destruído órgãos, quando pouco restava a fazer além de conter danos. Essa frustração o levou a uma mudança radical de prática. Amado mergulhou no estudo da Medicina do Estilo de Vida, uma abordagem que estrutura o cuidado em torno de cinco pilares: atividade física, alimentação, qualidade do sono, espiritualidade e relacionamentos. A transição não foi teórica — foi nascida de uma inquietação prática.
Em entrevista ao podcast Ponto a Ponto, do jornal Maringá Post, Amado defendeu com clareza que a medicina precisa abandonar seu foco na doença e abraçar a prevenção como ferramenta central. Quando um paciente de 45 ou 50 anos chega obeso e pré-diabético, e consegue emagrecer, reverter o pré-diabetes e reduzir a hipertensão a ponto de deixar de tomar medicamentos, Amado diz ao paciente algo que resume sua filosofia: você acaba de ganhar 20 anos de vida com qualidade. Essa não é uma promessa vaga — é o resultado concreto de uma intervenção precoce, estruturada e contínua.
Mas há uma sombra crescendo sobre esse otimismo preventivo. O mercado de emagrecimento explodiu nos últimos anos com o surgimento das chamadas "canetas emagrecedoras" — medicamentos injetáveis que representam, de fato, uma revolução metabólica. Amado reconhece sua eficácia terapêutica. O problema é que essas substâncias escaparam do consultório. Pessoas as usam sem acompanhamento médico, movidas pela promessa de perda rápida de peso e pela pressão estética das redes sociais. O que elas não veem — porque ninguém as avisa — é que estão perdendo músculo enquanto perdem gordura. Quando param de usar a medicação, ganham peso novamente. Voltam a usar. E assim definem um ciclo que Amado descreve com uma palavra simples e assustadora: definhando.
A próxima epidemia, segundo ele, será de sarcopenia — a perda progressiva de massa muscular. As consequências não são cosméticas. Fraturas por quedas, perda de autonomia, aumento exponencial de comorbidades. Construir músculo leva tempo e esforço; perder gordura é rápido. Mas o corpo não faz essa conta de forma simétrica. O déficit muscular e ósseo cobra seu preço de forma agressiva a médio e longo prazo, e muitos dos que usam essas medicações sem orientação não estarão preparados para pagar.
Amado também abordou um tema que a medicina convencional deixou à margem por décadas: o uso clínico de anabolizantes e reposição hormonal. Porque essas substâncias foram associadas ao uso clandestino em academias, a medicina de faculdade as relegou. Mas a literatura científica atual sustenta indicações precisas. Amado relata o caso de um paciente dialítico que recuperou total autonomia após a correção de um déficit hormonal severo. Para mulheres na menopausa, a reposição de estradiol — quando não há contraindicações — oferece proteção cardiovascular, óssea e cognitiva que vai muito além do controle de sintomas imediatos. Muitas mulheres chegam aos consultórios com dois ou três antidepressivos prescritos para o que era, na verdade, uma questão puramente hormonal.
Há também o lipedema, uma doença inflamatória crônica de origem hormonal e genética que afeta principalmente mulheres. Caracteriza-se pelo acúmulo desproporcional e doloroso de gordura nos membros inferiores e é frequentemente confundida com obesidade comum. O maior obstáculo para essas pacientes não é físico — é psicológico. Muitas passaram a vida inteira culpando-se por uma condição que não podiam controlar. Quando finalmente recebem o diagnóstico correto, o alívio é profundo. O tratamento clínico voltado à desinflamação e ao controle da dor transforma não apenas o corpo, mas a relação da pessoa consigo mesma.
Amado encerrou a conversa com um dado que revela o tamanho do desafio à frente. Países desenvolvidos destinam aproximadamente 20% do orçamento pessoal a investimentos preventivos em saúde. No Brasil, esse índice é de apenas 1%. Direcionando sua mensagem a empresários e líderes, Amado reposicionou o autocuidado: deixou de ser vaidade estética para se tornar responsabilidade de liderança. O novo luxo, disse, é estar bem fisicamente e psicologicamente para tomar decisões. Se você é um tomador de decisão, seu compromisso é social — você precisa estar bem para gerir a comunidade que depende de você. Essa é a medicina que o futuro exige.
Notable Quotes
A próxima epidemia que vai ter é a sarcopenia, a perda de massa muscular. Porque esses indivíduos vão fazer uso dessas canetas sem acompanhamento médico.— Dr. Luiz Eduardo Bersani Amado
O novo luxo é você estar bem fisicamente e psicologicamente para tomar decisões. Se você é um tomador de decisão, seu compromisso é, além de tudo, social.— Dr. Luiz Eduardo Bersani Amado
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o senhor acha que as pessoas abraçam essas "canetas emagrecedoras" sem procurar orientação médica?
Porque a promessa é imediata e visível. Você vê o número na balança cair. Ninguém sente a perda de músculo acontecendo — é silenciosa. E as redes sociais amplificam a ilusão de que rápido é melhor.
Mas se o medicamento funciona, qual é exatamente o perigo?
O medicamento funciona para uma coisa: reduzir peso. Mas saúde não é só peso. É força, densidade óssea, autonomia. Quando você perde músculo, você está perdendo a capacidade de viver bem nos próximos 20, 30 anos.
O senhor mencionou que construir músculo é muito mais difícil que perder gordura. Por quê?
Porque o corpo é eficiente em destruir. Queimar gordura é rápido. Mas ganhar músculo exige estímulo consistente, nutrição adequada, tempo de recuperação. Leva meses para consolidar o que se perde em semanas.
E quanto aos anabolizantes? Ainda há muito preconceito em torno deles.
Há, porque foram marginalizados. Mas a ciência já pacificou isso. Quando indicados corretamente, em doses clínicas, com monitoramento, eles resgatam idosos e enfermos debilitados. Fazem os velhinhos andarem de novo.
Isso soa como uma mudança radical na forma como a medicina vê essas substâncias.
É. A medicina de faculdade deixou isso de lado porque era muito associado ao uso ilícito. Mas quando você vê um paciente dialítico recuperar autonomia total, você entende que havia um preconceito injustificado.
Como o senhor resumiria a mensagem central para alguém que está pensando em usar um desses medicamentos?
Procure um médico. Não porque o medicamento seja ruim — é revolucionário. Mas porque seu corpo merece mais do que uma balança que desce. Merece força, ossos fortes, vida longa com qualidade.