Quando um médico de renome público afirma que, em Portugal, eram os maridos quem autorizavam cirurgias das mulheres, está a reescrever a história de um país que, paradoxalmente, foi pioneiro no direito ao consentimento do paciente. A memória colectiva é frágil, e as narrativas plausíveis preenchem facilmente o espaço que os documentos deveriam ocupar. O que este episódio revela não é apenas um erro factual, mas a tensão permanente entre autoridade pública e rigor histórico — e o peso que as palavras de quem tem tribuna carregam sobre a compreensão que uma sociedade tem de si mesma.