Lecanemabe, primeiro remédio para Alzheimer inicial, começa a ser vendido no Brasil

Pacientes com Alzheimer em estágio inicial ganham acesso a tratamento que desacelera a progressão da doença, mas apenas aqueles com recursos financeiros ou cobertura privada podem acessá-lo.
O medicamento desacelera, mas não reverte ou alivia os sintomas
O lecanemabe oferece ganho modesto: reduz em 27% a velocidade de progressão da doença em estágios iniciais.

Pela primeira vez na história da medicina brasileira, um medicamento capaz de retardar a progressão do Alzheimer em estágio inicial chegou ao mercado — o lecanemabe, comercializado como Leqembi, aprovado pela Anvisa em dezembro de 2025 e disponível desde 25 de junho de 2026. Desenvolvido pelas farmacêuticas Eisai e Biogen, o anticorpo monoclonal representa um avanço científico genuíno, ainda que modesto, numa doença que afeta milhões e permanece sem cura. Mas a chegada desse marco traz consigo uma tensão antiga: o progresso médico que chega primeiro àqueles que podem pagar por ele.

  • O lecanemabe reduz em 27% a velocidade de progressão do Alzheimer inicial — um resultado que especialistas consideram significativo, mas longe de ser uma cura ou reversão dos sintomas.
  • O custo mensal de até R$ 11 mil com impostos e a exigência de infusões quinzenais em centros hospitalares especializados tornam o tratamento inacessível para a grande maioria dos brasileiros.
  • Nem o SUS nem a ANS cobrem o medicamento, e as fabricantes ainda não submeteram pedido formal de incorporação à Conitec, deixando o acesso público sem prazo ou garantia.
  • O Brasil se junta a mais de 53 países que já registraram o lecanemabe, mas a chegada tardia ao mercado expõe a distância entre aprovação regulatória e acesso real à população.

O lecanemabe chegou ao Brasil em 25 de junho, trazendo consigo uma promessa inédita: ser o primeiro medicamento capaz de retardar a progressão do Alzheimer em seus estágios iniciais. Comercializado como Leqembi pelas farmacêuticas Eisai e Biogen, o anticorpo monoclonal age sobre a beta-amiloide — proteína que se acumula no cérebro anos antes dos primeiros sintomas — dissolvendo placas já formadas e tentando frear o surgimento de novos depósitos.

O acesso, porém, é restrito e controlado. O tratamento exige avaliação médica especializada, critérios clínicos rigorosos e infusões quinzenais em ambiente hospitalar, com monitoramento contínuo de efeitos adversos. O custo mensal parte de R$ 8.108,94 e pode ultrapassar R$ 11 mil com impostos, valores definidos pela Cmed em abril — sem os quais o medicamento, aprovado pela Anvisa em dezembro de 2025, não poderia ser comercializado.

Por ora, o lecanemabe está fora do alcance da maioria. Não integra o SUS nem o rol da ANS, e as fabricantes ainda não submeteram pedido formal de incorporação à Conitec, sem previsão divulgada. Em estudos de fase 3, o medicamento reduziu em 27% a velocidade de progressão da doença em 18 meses — um efeito descrito pelos especialistas como modesto, que desacelera o avanço sem reverter sintomas já presentes.

O Alzheimer responde por cerca de 70% dos casos de demência no mundo e ainda não tem cura. O lecanemabe já é registrado em mais de 53 países. Sua chegada ao Brasil é um marco científico real — mas também um espelho da pergunta que persiste: a quem, de fato, pertence o acesso a esse avanço?

O lecanemabe chegou ao Brasil nesta quinta-feira, 25 de junho, marcando a entrada do primeiro medicamento capaz de retardar a progressão do Alzheimer em seus estágios iniciais. As farmacêuticas Eisai e Biogen, responsáveis pelo desenvolvimento, começaram a comercializar o produto sob o nome Leqembi — um anticorpo monoclonal que atua sobre a beta-amiloide, a proteína que se acumula silenciosamente no cérebro dos pacientes anos antes dos primeiros sintomas aparecerem.

Mas este não é um remédio que se compra em qualquer farmácia. O acesso é restrito e controlado. Pacientes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve precisam primeiro passar por avaliação médica especializada, atender a uma série de critérios clínicos rigorosos e então ser encaminhados para centros especializados onde receberão as infusões. O tratamento acontece a cada 15 dias, sempre em ambiente hospitalar, com monitoramento contínuo devido aos riscos de efeitos adversos. A dose é calculada pelo peso: 10 miligramas por quilo.

O custo é substancial. Para um paciente de peso médio — 70 quilos — um mês de tratamento sai por R$ 8.108,94 sem impostos. Com a alíquota de 18% que incide na maioria dos estados, o valor sobe para R$ 11.075,62. Esses preços foram definidos em abril pela Cmed, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos. A Anvisa havia aprovado o medicamento em dezembro de 2025, mas ele só pôde chegar ao mercado após essa definição de preço.

Por enquanto, o lecanemabe permanece inacessível para a maioria dos brasileiros. Não foi incorporado ao SUS — o Sistema Único de Saúde não cobre o tratamento — e também não consta no rol da ANS, a agência que regula os planos de saúde suplementar. Isso significa que apenas pacientes com recursos privados ou aqueles cobertos por planos de saúde que decidam incluir o medicamento conseguem acessá-lo. As fabricantes informaram que pretendem solicitar a incorporação ao SUS por meio da Conitec, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias, mas o pedido ainda não foi submetido e nenhuma previsão foi divulgada.

O medicamento funciona em duas frentes: dissolve as placas de beta-amiloide já formadas no cérebro e tenta frear o surgimento de novos depósitos que contribuem para a morte dos neurônios. Em estudos de fase 3, pacientes em estágio inicial tratados por 18 meses apresentaram queda média de 27% na velocidade de progressão da doença quando comparados com quem recebeu placebo — um efeito que especialistas descrevem como modesto. Importante notar: o medicamento desacelera o avanço, mas não reverte ou alivia os sintomas já presentes.

A doença de Alzheimer responde por cerca de 70% dos casos de demência no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. É progressiva e ainda não tem cura. O lecanemabe já recebeu registro em mais de 53 países — Japão, Estados Unidos, China e Coreia do Sul entre eles — mas sua chegada ao Brasil coloca em evidência uma questão que permanece em aberto: quem terá acesso a este tratamento que, embora modesto em seus ganhos, representa a primeira opção farmacológica capaz de desacelerar a doença em seus estágios iniciais.

O remédio funciona em duas frentes: dissolve placas já formadas e tenta frear o surgimento de novos depósitos que mantêm a morte dos neurônios
— Eisai e Biogen
As farmacêuticas pretendem solicitar a incorporação do medicamento ao SUS, mas o pedido ainda não foi submetido
— Biogen e Eisai (em nota)
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o lecanemabe é considerado um avanço se reduz apenas 27% a velocidade de progressão?

Model

Porque durante décadas não havia nada. O Alzheimer avançava inexoravelmente. Agora há uma ferramenta que, mesmo modesta, oferece tempo — alguns meses a mais de cognição preservada. Para quem vive com a doença, isso importa.

Inventor

E quanto ao acesso? Por que não está no SUS?

Model

O custo é alto e o SUS já está sobrecarregado. As farmacêuticas precisam apresentar dados de custo-efetividade à Conitec. Mas ainda não fizeram o pedido. Enquanto isso, apenas quem tem dinheiro ou plano privado consegue o medicamento.

Inventor

Qual é o risco de deixar isso apenas para o setor privado?

Model

Cria-se uma medicina de duas velocidades. Pacientes ricos ganham meses a mais de cognição preservada. Os pobres continuam vendo a doença avançar sem qualquer intervenção farmacológica. É uma questão de justiça.

Inventor

As farmacêuticas disseram quando vão pedir a incorporação ao SUS?

Model

Não. Apenas informaram que pretendem solicitar. Sem prazo, sem compromisso. Isso deixa tudo em suspenso — pacientes, médicos, gestores públicos.

Inventor

O medicamento é seguro?

Model

Exige monitoramento rigoroso por causa dos efeitos adversos. Por isso só pode ser aplicado em centros especializados, a cada 15 dias, com acompanhamento contínuo. Não é um comprimido que você toma em casa.

Inventor

Então o grande desafio agora é a incorporação ao SUS?

Model

Exatamente. Sem ela, o lecanemabe permanece um remédio para poucos — importante para quem consegue acessá-lo, mas que não muda a realidade da maioria dos pacientes com Alzheimer no Brasil.

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