Marrocos expulsa jornalistas espanhóis que cobriam crise migratória em Ceuta

Quase 300 migrantes foram detidos ao tentar entrar irregularmente em Ceuta; pelo menos 96 pessoas morreram durante travessias anteriores.
Obstáculo extremamente grave à liberdade de imprensa
Condenação do presidente da RTVE à expulsão de jornalistas espanhóis de Fnideq durante cobertura de operação migratória.
Mark

Por que é que Marrocos expulsou especificamente estes jornalistas naquele momento?

Mimi

Estavam a documentar uma operação policial contra migrantes em tempo real. Marrocos pode ter querido controlar a narrativa sobre como estava a lidar com a situação.

Mark

Mas não havia jornalistas marroquinos no local?

Mimi

Havia. Arantxa Marculeta mencionou que estavam a trabalhar com a imprensa marroquina. O que sugere que a ordem foi seletiva — contra os espanhóis especificamente.

Mark

Qual é o padrão aqui? Isto é isolado ou faz parte de algo maior?

Mimi

Isto acontece duas semanas depois de 72 mil migrantes terem entrado em Ceuta. Marrocos está sob pressão internacional, e controlar quem documenta o que se passa na fronteira é uma forma de controlar a conversa.

Mark

As ameaças de confisco de equipamento — isso é comum?

Mimi

Não é comum em democracias. É uma tática de intimidação. Diz aos jornalistas: não só vos expulsamos, como podemos tomar-vos o que vos pertence.

Mark

E a resposta das agências espanholas?

Mimi

Forte. Ambas invocaram sessenta anos de presença em Marrocos e direitos fundamentais. Mas a questão é: conseguem voltar? E em que condições?

Mark

O que isto diz sobre a liberdade de imprensa na região?

Mimi

Que é frágil. Quando há crise, é frequentemente a primeira coisa a ser sacrificada, mesmo que seja exatamente quando mais importa que haja cobertura independente.

  • Autoridades marroquinas expulsaram equipas da EFE e da TVE no momento exato em que cobriam a dispersão de migrantes com gás lacrimogéneo, sem qualquer justificação oficial.
  • As ameaças foram concretas: confisco de credenciais, apreensão de equipamentos e pressão sobre os próprios hotéis para que retirassem os jornalistas das instalações.
  • As organizações de comunicação reagiram com dureza — a EFE invocou sessenta anos de presença em Marrocos e a RTVE exigiu garantias plenas para o exercício do jornalismo na região fronteiriça.
  • O episódio ocorre numa fronteira sob pressão extrema: mais de 72 mil pessoas entraram em Ceuta duas semanas antes, 96 morreram nas travessias, e Madrid reforçou a segurança com mais de 1.600 agentes no terreno.
  • Redes sociais anunciavam que a fronteira estaria 'aberta' a 15 de agosto, alimentando um novo fluxo que as autoridades de ambos os países correram a conter — longe dos olhos da imprensa.

Numa manhã de agosto em Fnideq, junto à fronteira que separa Marrocos de Ceuta, as autoridades marroquinas silenciaram as câmeras antes que pudessem registar o que acontecia aos que tentavam atravessá-la. A expulsão de jornalistas espanhóis da EFE e da TVE — sob ameaça de confisco de equipamentos e credenciais — não é apenas um incidente diplomático, mas um sinal de como as crises migratórias tendem a encolher o espaço onde a verdade pode ser contada. Quando quase 300 pessoas são detidas num único dia e pelo menos 96 morreram em travessias recentes, o que fica por documentar pesa tanto quanto o que é mostrado.

Na manhã de sábado, em Fnideq, um representante do Ministério do Interior marroquino ordenou a saída imediata das equipas da EFE e da TVE. Os jornalistas cobriam uma operação em que a polícia de choque dispersava centenas de migrantes com gás lacrimogéneo junto à fronteira de Ceuta. A correspondente da TVE em Rabat, Arantxa Marculeta, explicou que não foi possível registar a intervenção porque as autoridades pediram que abandonassem a zona. O correspondente da EFE recebeu ordens idênticas, sem qualquer explicação. Youssef Hajji, do Ministério do Interior, limitou-se a dizer que cumpria ordens.

As ameaças foram diretas: credenciais e equipamentos poderiam ser confiscados se os jornalistas não saíssem de imediato. Os hotéis onde estavam hospedados receberam também instruções para os expulsar. A EFE tentou obter esclarecimentos junto do ministério, sem resposta.

A reação institucional foi imediata. Miguel Ángel Oliver, presidente da EFE, defendeu o direito à informação e recordou os sessenta anos de presença da agência em Marrocos. José Pablo López, da RTVE, classificou a expulsão como um obstáculo extremamente grave à liberdade de imprensa e exigiu garantias plenas para que os jornalistas possam trabalhar livremente na região.

O momento não podia ser mais tenso. Nesse mesmo sábado, quase 300 pessoas foram detidas ao tentar entrar irregularmente em Ceuta. Duas semanas antes, mais de 72 mil pessoas tinham atravessado a fronteira a pé ou a nado — quase todas expulsas de imediato, com pelo menos 96 mortes registadas durante as travessias. Em resposta, Madrid instalou uma barreira marítima e elevou para mais de 1.600 o número de agentes em Ceuta. A expulsão dos jornalistas acontece precisamente quando menos se pode perder de vista o que se passa naquela fronteira.

No sábado de manhã, em Fnideq, junto à fronteira de Ceuta, as autoridades marroquinas ordenaram a saída imediata dos jornalistas espanhóis que ali se encontravam. Um representante do Ministério do Interior marroquino comunicou a expulsão às equipas da agência de notícias EFE e da televisão pública TVE, que naquele momento cobriam uma operação policial em curso.

Os jornalistas estavam a documentar o momento em que a polícia de choque marroquina dispersava centenas de migrantes que tentavam alcançar a fronteira com gás lacrimogéneo. Arantxa Marculeta, correspondente da TVE em Rabat, explicou depois que não conseguiram gravar a intervenção porque as autoridades locais, que se identificaram como ligadas ao Ministério do Interior, pediram-lhes para abandonar a zona. O correspondente da EFE recebeu ordens semelhantes para sair imediatamente da cidade, sem qualquer justificação apresentada. Youssef Hajji, representante do Ministério marroquino do Interior, limitou-se a dizer que estava apenas a cumprir ordens.

As ameaças foram diretas. Às equipas foi comunicado que as suas credenciais de imprensa e equipamentos poderiam ser confiscados se não deixassem Castillejos de imediato. Os hotéis onde os jornalistas estavam hospedados também receberam ordens das autoridades locais para os expulsarem das instalações. A EFE contactou o Ministério marroquino do Interior a solicitar esclarecimentos, mas não obteve resposta.

A reação das organizações de comunicação foi imediata e contundente. Miguel Ángel Oliver, presidente da agência EFE, defendeu o direito à liberdade de informação, sublinhando que a prática responsável e rigorosa do jornalismo é a característica definidora da agência, tanto em Espanha como em todo o mundo, e particularmente em Marrocos, onde a EFE mantém uma importante delegação há sessenta anos. A RTVE condenou a decisão, com José Pablo López, presidente da organização, a considerar a expulsão um obstáculo extremamente grave à liberdade de imprensa e ao direito à informação. López exigiu que as autoridades marroquinas fornecessem totais garantias e máximo respeito para que os jornalistas pudessem exercer livremente a sua profissão em qualquer ponto da região fronteiriça.

O contexto desta ação revela-se crucial. No sábado, quase 300 pessoas foram detidas quando tentavam entrar irregularmente em Ceuta a partir de Fnideq. Na quarta-feira anterior, as autoridades marroquinas tinham anunciado medidas para conter um possível novo fluxo migratório, após publicações nas redes sociais anunciarem que a fronteira estaria "aberta" a 15 de agosto, dia de feriado em Espanha. Duas semanas antes, mais de 72 mil pessoas tinham entrado em Ceuta a pé ou a nado, sendo quase todas expulsas de imediato segundo as autoridades espanholas, com 70 mil delas deportadas. Pelo menos 96 pessoas morreram durante aquelas travessias.

Em resposta àquele fluxo massivo, Madrid instalou uma barreira marítima e mobilizou mais de 500 polícias adicionais da Espanha continental, elevando o total de agentes em Ceuta para mais de 1.600. A expulsão dos jornalistas ocorre num momento de tensão extrema na fronteira, quando ambos os países tentam gerir uma crise migratória de proporções sem precedentes.

A prática responsável e rigorosa do jornalismo é a nossa característica definidora, e defendemo-la tanto em Espanha como em todo o mundo, e sem dúvida em Marrocos, onde uma importante delegação da EFE presta os seus serviços há sessenta anos
— Miguel Ángel Oliver, presidente da agência EFE
A expulsão dos nossos profissionais de Castillejos representa um obstáculo extremamente grave à liberdade de imprensa e ao direito à informação
— José Pablo López, presidente da RTVE
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