Entre alianças formalizadas e silêncios eloquentes, Marina Silva anuncia apoio a Fernando Haddad para o governo de São Paulo sem ter recebido uma ligação sequer de Lula desde 2017. O gesto revela a complexidade das relações políticas brasileiras: aproximações que não são reconciliações, pragmatismos que não são afetos, e a persistente distância entre líderes que um dia compartilharam causas. Na grande narrativa da política nacional, o que une não é sempre o que cura.
Marina Silva anuncia apoio a Haddad, mas diz não ter sido procurada por Lula
Estou aberta a dialogar em cima de posições políticas
Por que Marina apoia Haddad mas não Lula? Parecem a mesma coisa.
Não são, segundo ela. Marina diz que está apoiando Haddad porque ele abriu diálogo sobre propostas concretas — Amazônia, saúde, um novo acordo político. Lula não a procurou.
Mas isso é o que ela diz publicamente. A verdade é que ninguém sabe se Lula tentou ou não. Ela pode estar protegendo a própria autonomia.
E quanto àquelas acusações antigas, de Dilma chamá-la de "sustentada por banqueiros"?
Marina nega que isso a afete. Ela insiste que não são mágoas pessoais, mas diferenças políticas reais sobre como o Brasil deveria ser governado.
Novamente, ela nega. Mas o timing é suspeito — ela apoia Haddad, que é enviado de Lula, mas não apoia Lula diretamente. Isso pode ser princípio ou pode ser ressentimento disfarçado.
Ela pode ser vice de Haddad?
Ela não respondeu diretamente. Desviou para falar sobre a necessidade de aliança com o PSB.
Exatamente. Não sabemos se ela quer ser vice, se foi oferecido, ou se está negociando em silêncio. A reportagem não conseguiu esclarecer isso.
O Pulso
- Marina Silva apoiará Haddad em São Paulo, mas o silêncio de Lula — sem contato desde 2017 — paira sobre o anúncio como uma sombra não dita.
- Dentro do PT, cresce a especulação de que ressentimentos históricos, como as acusações de Dilma na campanha de 2014, travam uma reaproximação mais ampla com o ex-presidente.
- Marina rejeita a narrativa dos rancores pessoais e insiste que sua posição é guiada por propostas concretas — Amazônia, saúde, um novo acordo político para o país.
- A Rede formalizará a aliança com Haddad no sábado, apresentando contribuições em meio ambiente e desenvolvimento sustentável, enquanto a possibilidade de Marina ser vice permanece em aberto.
- Um tuíte fixado no perfil de Marina, com as propostas de Haddad, sinaliza alinhamento — mas ela prefere chamá-lo de reconhecimento de boas ideias, não de reconciliação.
Entre alianças formalizadas e silêncios eloquentes, Marina Silva anuncia apoio a Fernando Haddad para o governo de São Paulo sem ter recebido uma ligação sequer de Lula desde 2017. O gesto revela a complexidade das relações políticas brasileiras: aproximações que não são reconciliações, pragmatismos que não são afetos, e a persistente distância entre líderes que um dia compartilharam causas. Na grande narrativa da política nacional, o que une não é sempre o que cura.
Marina Silva estava prestes a formalizar seu apoio a Fernando Haddad na disputa pelo governo de São Paulo quando um detalhe revelador veio à tona: Lula não havia ligado para ela. Em entrevista na sexta-feira, a ex-ministra da Rede deixou claro que, embora se dissesse aberta ao diálogo, a última conversa entre os dois havia ocorrido em 2017 e 2018 — momentos marcados por perdas pessoais, não por política.
O silêncio de Lula alimentava especulações no PT. Haddad, com quem Marina mantinha relação histórica, havia sido apontado como o interlocutor do partido para convencê-la a apoiar o ex-presidente. Petistas atribuíam sua reserva a ressentimentos antigos, especialmente as acusações de Dilma Rousseff durante a campanha de 2014. Marina, porém, rejeitava essa leitura com firmeza: suas posições, dizia, não eram pessoais — eram sobre propostas concretas para o Brasil.
No sábado, em São Paulo, a Rede formalizaria a aliança com Haddad, apresentando contribuições para seu plano de governo em meio ambiente e desenvolvimento sustentável. Sobre a possibilidade de ser vice, Marina desviou com elegância, preferindo falar sobre a urgência de aprofundar o diálogo com o PSB e Márcio França.
O apoio havia sido lido por alguns como sinal de reaproximação com Lula. Marina negava isso categoricamente — ainda que mantivesse fixado no topo de seu perfil um tuíte com as propostas de Haddad sobre prosperidade e inclusão em São Paulo. Era um gesto de alinhamento que ela preferia chamar de outra coisa: o simples reconhecimento de boas ideias.
Marina Silva estava prestes a formalizar seu apoio a Fernando Haddad na disputa pelo governo de São Paulo, mas havia um incômodo não dito pairando sobre o anúncio: o ex-presidente Lula não havia ligado para ela. Em entrevista concedida na sexta-feira, a ex-ministra da Rede deixou isso claro. Embora se descrevesse como aberta ao diálogo, ela não havia recebido qualquer telefonema de Luiz Inácio Lula da Silva. A última vez que os dois conversaram foi em 2017 e 2018, ocasiões marcadas por perdas pessoais — a morte de Marisa, ex-mulher de Lula, e a morte do pai de Marina.
O silêncio de Lula em relação a Marina alimentava especulações dentro do PT. Haddad, que mantinha uma relação histórica com a ex-senadora, havia sido apontado como o "enviado especial" do partido para convencê-la a apoiar o ex-presidente no primeiro turno. Os petistas atribuíam a falta de posicionamento de Marina a ressentimentos acumulados — particularmente a campanha de reeleição de Dilma Rousseff, quando a então presidente a acusou publicamente de ser "sustentada por banqueiros". Mas Marina rejeitava essa narrativa com firmeza.
Ela insistia que suas posições não eram questões pessoais ou subjetivas, como alguns tentavam caracterizá-las. O que ela queria, repetia, era discutir propostas concretas para o Brasil. Falava sobre a Amazônia, sobre saúde, sobre a necessidade de um novo acordo político que reconhecesse os erros que levaram à eleição de Bolsonaro. Seu apoio a Haddad, explicava, havia se baseado na "abertura do diálogo" para explorar ideias e projetos em conjunto. Não era reconciliação com Lula — era pragmatismo político.
No sábado, em São Paulo, a Rede formalizaria essa aliança com Haddad. Marina também apresentaria as contribuições de seu partido para o plano de governo do petista, focando em meio ambiente, desenvolvimento sustentável e geração de emprego. Havia especulação de que ela pudesse ser a vice de Haddad, mas ela desviou da pergunta com elegância, preferindo falar sobre a necessidade urgente de aprofundar o diálogo com o PSB, que mantinha Márcio França como pré-candidato. "O momento que o país está vivendo coloca isso como uma demanda imperativa", disse.
O apoio a Haddad havia sido interpretado por alguns aliados como um sinal de reaproximação com Lula. Marina negava isso categoricamente. Ainda assim, ela havia compartilhado um tuíte do pré-candidato petista sobre suas propostas de governo, deixando a postagem fixada no topo de sua página. A mensagem falava sobre o desafio de um novo ciclo de prosperidade para São Paulo que não deixasse ninguém para trás. Era um gesto de alinhamento, ainda que Marina insistisse que se tratava apenas de reconhecer boas ideias quando as via.
Citações Notáveis
Eu não tive nenhum diálogo em torno dessa questão nacional. A única coisa que tenho insistido é que estou aberta a dialogar em cima de posições políticas, visão de país para o Brasil.— Marina Silva
É fundamental que a gente queira mais do que mudar de governo. Tenho posições políticas sobre o Brasil. Sobre a Amazônia, sobre a saúde e principalmente um novo acordo político.— Marina Silva