Num país onde a eleição se celebra como expressão da vontade coletiva, uma conta silenciosa revela que cerca de 16 milhões de brasileiros em idade de votar simplesmente não aparecem no cadastro eleitoral, o que equivale a 10% dessa população. O cientista político Antonio C. Alkmim chama o fenômeno de marginalidade eleitoral, termo que ecoa estudos de 1978, e mostra que a exclusão quase dobrou em uma década, depois de ter recuado no início do século. Antes de discutir quem se abstém ou anula o voto, a análise pergunta quem sequer chega ao título, e a resposta revela desigualdades antigas de esc
Marginalidade eleitoral quase dobra em uma década e atinge cerca de 16 milhões de brasileiros
Um problema invisível que quase dobrou em dez anos
O artigo fala em 16 milhões de brasileiros fora do cadastro. De onde sai esse número?
De uma comparação: o total de eleitores do TSE contra a estimativa do IBGE para a população em idade de votar em 2020. A diferença dá cerca de 10%.
Ressalto que é uma estimativa indireta. O próprio autor diz que não é tão simples e defende pesquisas diretas para medir isso.
Que fatores mexem na conta?
Voto facultativo para 16 e 17 anos, maiores de 70 e analfabetos; proibição para estrangeiros, presos e militares da ativa; e falecidos que ficam no cadastro até serem removidos.
Ou seja, o número pode variar para cima ou para baixo. O texto diz que fica próximo de 16 milhões, mas não que seja exato.
E a evolução ao longo do tempo?
6,8% em 1991, 2,6% em 2000, 5,5% em 2010 e 10,1% em 2020. O eleitorado cresceu 9,3% na década, a população de 16 anos ou mais, 14,8%.
O texto levanta a diferença como pergunta e não oferece uma explicação fechada. Também aponta que os dados de escolaridade do TSE não batem com a PNAD, o que pede cautela.
Quem fica mais de fora?
Homens, jovens até 20 anos e, sobretudo, analfabetos: cerca de 5 milhões sem título, apesar de o voto ser facultativo.
The Pulse
- Um número que pesa: 16 milhões de pessoas em idade de votar ficam fora do cadastro eleitoral, quase o dobro da taxa de dez anos atrás.
- A conta gera tensão porque TSE e IBGE não batem: há mais eleitores com ensino médio incompleto do que o IBGE encontra na população com essa escolaridade.
- Jovens até 20 anos, analfabetos e pessoas de baixa renda aparecem como os mais afastados das urnas, desenhando uma exclusão com rosto social.
- O caminho proposto é trocar estimativas indiretas por pesquisas sociais diretas sobre participação política, buscando medir o fenômeno com precisão.
- A trajetória ainda está em aberto: a taxa oscilou de 6,8% em 1991 a 2,6% em 2000 e voltou a subir, sem explicação consolidada.
Num país onde a eleição se celebra como expressão da vontade coletiva, uma conta silenciosa revela que cerca de 16 milhões de brasileiros em idade de votar simplesmente não aparecem no cadastro eleitoral, o que equivale a 10% dessa população. O cientista político Antonio C. Alkmim chama o fenômeno de marginalidade eleitoral, termo que ecoa estudos de 1978, e mostra que a exclusão quase dobrou em uma década, depois de ter recuado no início do século. Antes de discutir quem se abstém ou anula o voto, a análise pergunta quem sequer chega ao título, e a resposta revela desigualdades antigas de escolaridade, renda e idade.
Nas eleições municipais de 2020, mais de 45 milhões de eleitores ficaram de fora da escolha no primeiro turno, somando abstenções, votos brancos e nulos. Para o cientista político Antonio C. Alkmim, professor da PUC-Rio, esse número ainda não conta a história inteira, porque antes de se abster é preciso ter título, e milhões de brasileiros nunca chegam a ele.
Ao cruzar os dados do TSE com as estimativas do IBGE, Alkmim encontrou cerca de 16 milhões de pessoas em idade de votar fora do cadastro. Ele chama esse fenômeno de marginalidade eleitoral, termo que Bolivar Lamounier usou em 1978. A conta, porém, exige cuidado: voto facultativo para jovens e idosos, proibição para estrangeiros e militares, e registros de falecidos ou cancelados mudam o total.
O dado mais inquietante é a trajetória. A taxa caiu de 6,8% em 1991 para 2,6% em 2000, mas voltou a subir até 10,1% em 2020, enquanto a população cresceu mais do que o eleitorado. Na visão da literatura, a exclusão se liga à escolaridade e à renda, mas também ao desinteresse pela política e às dificuldades de transferir o título ao mudar de cidade.
Em 2020, os mais afastados são os jovens até 20 anos e os analfabetos. Alkmim vê incoerências nos números de escolaridade, mas considera que os cerca de 5 milhões de analfabetos sem título são a marca mais clara da exclusão. Por isso defende pesquisas sociais diretas, para que a democracia não reflita, sem que se perceba, um espelho socialmente distorcido.
No primeiro turno das eleições municipais de 2020, somando abstenções, votos brancos e votos nulos, mais de 45 milhões de eleitores ficaram de fora da escolha, o equivalente a um terço do eleitorado. Mas esse número, lembra o cientista político Antonio C. Alkmim, professor da PUC-Rio, não esgota a questão da não participação. Antes de se abster ou anular o voto, a pessoa precisa ter o título, e milhões de brasileiros nem chegam a esse ponto.
Alkmim cruzou o número de eleitores divulgado pelo TSE com a estimativa do IBGE para a população em idade de votar em 2020. O resultado sugere que cerca de 16 milhões de pessoas estejam fora do cadastro, ou seja, 10% da população em idade de voto. Ele chama esse fenômeno de marginalidade eleitoral, conceito que Bolivar Lamounier usou em 1978 ao estudar a eleição de 1974 em Presidente Prudente, em São Paulo.
O autor adverte que a conta não é simples. A Constituição torna o voto facultativo entre 16 e 17 anos, acima dos 70 e para analfabetos, e o proíbe a estrangeiros, presos e militares da ativa. Há ainda falecidos que permanecem provisoriamente no cadastro, removidos a cada três pleitos seguidos, e registros cancelados. Ajustes assim podem aproximar o total dos 16 milhões, ou até elevá-lo, conforme a entrada e a saída de quem tem voto facultativo.
O que mais chama atenção é a trajetória. A taxa era de 6,8% em 1991, caiu para 2,6% em 2000, subiu para 5,5% em 2010 e chegou a 10,1% em 2020. Na última década, o eleitorado cresceu 9,3%, enquanto a população de 16 anos ou mais cresceu 14,8%. Alkmim pergunta como explicar a diferença e observa que o tema segue na sombra da literatura científica brasileira. Wanderley Guilherme dos Santos e Olavo Brasil Lima Junior se concentraram em abstenções, brancos e nulos, que chamaram de alienação eleitoral; Julia Stedler retomou a linha de Lamounier.
Para a literatura, a exclusão se liga a escolaridade e renda, sem se reduzir a elas, além de desinteresse ou rejeição à política e problemas na transferência do domicílio eleitoral, como em mudanças de cidade ou estado. A PNAD de 1988 apontou taxa de 10% entre quem tinha voto obrigatório, mais alta entre mulheres, jovens, idosos, pobres, menos instruídos, desempregados, negros e pardos.
Em 2020 o quadro mudou em parte. A taxa é menor entre as mulheres, que são 52,5% do eleitorado, e maior entre os homens. Por idade, é mais alta entre os até 20 anos, que são 10,9% da população e só 5,2% dos eleitores. Entre 21 e 34 anos, fica perto da média de 10%, com 32,5% da população e 29% do eleitorado. De 35 a 69 anos (58,7% da população e 56,6% do eleitorado) a taxa cai, e entre os de 70 anos ou mais população e eleitorado coincidem em 9,1%.
Entre 2010 e 2020, os eleitores de até 34 anos perderam peso na distribuição, enquanto os de 35 anos ou mais ganharam. Segundo o autor, isso não se explica só pelo envelhecimento da população. Na escolaridade, ele aponta incoerência: o TSE registra 22,4 milhões de eleitores com ensino médio incompleto, contra cerca de 13 milhões de pessoas de 16 anos ou mais nessa condição pela PNAD 2019, o que chama de impossibilidade. Já os analfabetos são coerentes: 6 milhões de eleitores para 11 milhões de pessoas que não sabem ler e escrever, ou 5 milhões sem título, mesmo com voto facultativo. Seria, para ele, a principal marca da exclusão.
Alkmim defende que, em vez de estimativas indiretas, o país meça o fenômeno com pesquisas sociais sobre participação política, para que a democracia não seja um espelho socialmente distorcido sem que se perceba.
Notable Quotes
A democracia brasileira não deve ser um espelho socialmente distorcido, sem que nos demos conta; é preciso medir a exclusão com pesquisas sociais, não só estimativas indiretas.— Antonio C. Alkmim, cientista político e professor da PUC-Rio (paráfrase)