Aos cem anos, Margarida Genevois encarna uma verdade que o tempo não desgasta: a luta pela dignidade humana não tem aposentadoria. Pioneira na Comissão de Justiça e Paz durante os anos sombrios da ditadura militar brasileira, ela celebrou o centenário em São Paulo cercada de amigos e aliados históricos — mas sem abrir mão do incômodo que sempre foi sua marca. Sua longevidade não é apenas biológica; é a persistência de uma consciência que recusa o esquecimento como forma de conforto.
Margarida Genevois completa 100 anos como referência na luta pelos direitos humanos
Sem solidariedade, a vida não tem sentido
O que significa para alguém chegar aos cem anos ainda lutando por direitos humanos?
Significa que você não envelheceu de verdade. A causa mantém você vivo, mantém você necessário. Margarida não está descansando — está cobrando.
Ela diz que sem solidariedade a vida não tem sentido. Isso não é uma frase bonita demais para o Brasil de hoje?
Talvez seja. Mas ela não está sendo romântica. Ela passou vinte e dois anos numa fazenda construindo escolas para crianças desnutridas. Ela documentou torturas durante a ditadura. Ela sabe do que está falando.
Por que ela insiste tanto no caso Marielle, cinco anos depois?
Porque esquecimento é consentimento. Se a gente deixa um crime assim virar história antiga, estamos dizendo que está tudo bem não saber quem matou. Ela não vai deixar isso acontecer.
Qual é o conselho dela para quem tem trinta anos e se sente impotente?
Tenha uma causa nobre. Viva com coerência. Não é sobre ser herói — é sobre não trair aquilo em que você acredita. Ela fez isso por cem anos.
E se a pessoa disser que está cansada?
Ela diria que cansaço é luxo. Que as pessoas em situação de rua não têm o luxo de estar cansadas. Que Marielle não teve.
Isso soa duro.
É. Mas ela completou cem anos ainda exigindo justiça. Dureza é o que sobra quando você não desiste.
El Pulso
- Aos cem anos, Genevois alerta que os direitos humanos ainda são sistematicamente desrespeitados no Brasil, e sua voz carrega o peso de décadas de testemunho direto.
- O assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, cinco anos sem solução, é citado por ela como símbolo urgente da impunidade que corrói a democracia brasileira.
- A celebração do centenário reuniu figuras como o padre Júlio Lancelotti e Frei Betto, revelando uma rede de resistência que atravessa gerações e instituições.
- Sua mensagem aos jovens — ter uma causa nobre e viver com coerência — é ao mesmo tempo conselho pessoal e diagnóstico do que falta à sociedade contemporânea.
- O presidente Lula reconheceu publicamente seu legado, mas Genevois deixa claro que homenagens não substituem ações: o Brasil ainda tem uma dívida com a justiça.
Aos cem anos, Margarida Genevois encarna uma verdade que o tempo não desgasta: a luta pela dignidade humana não tem aposentadoria. Pioneira na Comissão de Justiça e Paz durante os anos sombrios da ditadura militar brasileira, ela celebrou o centenário em São Paulo cercada de amigos e aliados históricos — mas sem abrir mão do incômodo que sempre foi sua marca. Sua longevidade não é apenas biológica; é a persistência de uma consciência que recusa o esquecimento como forma de conforto.
Margarida Genevois completou cem anos em março de 2023, e a data foi marcada com uma missa especial em São Paulo, celebrada pelo padre Júlio Lancelotti e abençoada por Frei Betto. Para ela, o centenário é ao mesmo tempo privilégio e responsabilidade — um marco que carrega com seriedade, não com leveza.
Nascida no Rio de Janeiro em 1923, Genevois formou-se em Biblioteconomia e casou-se com o engenheiro francês Lucien. O casal passou vinte e dois anos na Fazenda Rhodia, na zona rural de Campinas, onde construíram um posto de atendimento para crianças desnutridas, uma escola e uma igreja. Foi ali que a militância deixou de ser abstrata e se tornou prática cotidiana.
Em 1972, Dom Paulo Evaristo Arns a convidou para integrar a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Genevois foi a primeira mulher naquele espaço, e a comissão tinha uma missão precisa: documentar e denunciar as violações cometidas durante a ditadura militar. Décadas depois, ela é presidente de honra da Comissão Arns, que leva o nome do arcebispo que a chamou para essa jornada.
Aos cem anos, porém, Genevois não celebra sem cobrar. Ela afirma que os direitos humanos ainda não são respeitados como deveriam no Brasil, que a preocupação com o outro permanece restrita a poucos, e que faltam ações eficientes apesar da visibilidade do tema. Exigiu especialmente a solução do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, crime de cinco anos sem resposta. Não se pode correr o risco de que seja esquecido, alertou.
O presidente Lula enviou uma mensagem dizendo que quem tem uma causa não envelhece — e que ela era a prova viva disso. A frase captura bem o que Genevois representa: não uma figura do passado a ser reverenciada, mas uma presença incômoda no presente, lembrando o Brasil de suas obrigações com a justiça e com os que não têm voz.
Margarida Genevois completou cem anos em março de 2023, e a data não passou despercebida. Uma missa especial em sua homenagem reuniu amigos próximos na cidade de São Paulo, celebrada pelo padre Júlio Lancelotti, conhecido por seu trabalho com pessoas em situação de rua. Frei Betto, amigo de décadas, abençoou a celebração. Para Genevois, o marco foi simultaneamente estranho e pesado — um privilégio, sim, mas também uma responsabilidade que ela carrega com seriedade.
Nascida em 1923 no Rio de Janeiro, Genevois estudou em escolas de método francês e, como sua mãe, dedicou-se desde cedo a causas sociais. Aos vinte e um anos, já formada em Biblioteconomia, casou-se com Lucien, um engenheiro francês. O casal se mudou para uma fazenda na zona rural de Campinas, onde tiveram o primeiro contato real com a militância pelos direitos humanos. Lá construíram um posto de atendimento para crianças desnutridas, uma escola e uma igreja. Passaram vinte e dois anos naquela propriedade, a Fazenda Rhodia, aprendendo na prática o que significava estar ao lado dos mais vulneráveis.
Em 1972, Dom Paulo Evaristo Arns a convidou para integrar a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo. Genevois foi a primeira mulher a ocupar esse espaço. A comissão tinha uma missão clara: documentar e denunciar as violações aos direitos humanos que ocorriam durante a ditadura militar. Ela se tornou referência nacional nessa luta, uma voz que não se calava diante da injustiça. Hoje, aos cem anos, é presidente de honra da Comissão Arns, que leva o nome do arcebispo que a chamou para essa jornada.
Quando perguntada por que vale a pena lutar pelos direitos humanos, sua resposta foi direta: porque se está lutando por justiça e pelo próximo, que é irmão. Sem solidariedade, disse ela, a vida não tem sentido. A democracia e a paz dependem de os direitos humanos serem incorporados à vida das pessoas e das instituições. Para os jovens, seu conselho é simples mas exigente: tenha sempre uma causa nobre a defender, e a vida valerá a pena. Viva com coerência, agindo de acordo com aquilo em que você acredita.
Mas aos cem anos, Genevois não está satisfeita com o estado dos direitos humanos no Brasil. Infelizmente, disse ela, eles não são respeitados como deveriam ser. A preocupação com os outros permanece restrita a alguns grupos, e embora o tema esteja em evidência, faltam ações eficientes. Ela cobrou especialmente a solução do caso Marielle Franco, a vereadora assassinada cinco anos antes, junto com seu motorista Anderson Gomes. A autoria do crime permanecia desconhecida, e Genevois exigiu que as autoridades esclarecessem o caso e punissem os responsáveis. Não se pode correr o risco de que seja esquecido, alertou.
O presidente Lula enviou uma mensagem de aniversário para parabenizá-la, dizendo que quem tem uma causa não envelhece, e que ela era a prova viva disso. A frase captura algo essencial sobre Margarida Genevois: aos cem anos, ela não é uma figura do passado, mas uma presença incômoda no presente, lembrando o Brasil de suas obrigações com a justiça e a solidariedade. Conhecida como a grande dama dos direitos humanos no Brasil, ela segue exigindo que o país honre seus compromissos com aqueles que não têm voz.
Citas Notables
É um privilégio fazer 100 anos, mas também uma grande responsabilidade. A gente muda a cada dia e vai aprendendo sempre.— Margarida Genevois
Tenha sempre uma causa nobre a defender. A vida valerá a pena.— Margarida Genevois