Marcos Lisboa defende que ajuste fiscal e programas sociais podem coexistir

Um Estado que “gasta muito e gasta mal”
É assim que Marcos Lisboa resume, em artigo na Folha, a situação das contas públicas brasileiras.
Mark

Qual é a tese central de Lisboa?

Mimi

Que não é preciso escolher entre contas em ordem e programas sociais. Para ele, o problema está nas regras que fazem a despesa crescer sozinha.

Mark

Que regras são essas?

Mimi

Vinculações de saúde e educação à arrecadação, e o reajuste de benefícios ligado ao salário mínimo, que embute inflação e crescimento do PIB.

Luke

Vale lembrar que é um artigo de opinião. Os números, como a alta de mais de dez pontos na dívida em relação ao PIB, são afirmações dele, não apuração independente.

Mark

Ele propõe cortar saúde e educação?

Mimi

Não. Propõe mudar vinculação e indexação para que algumas despesas cresçam menos que a arrecadação.

Luke

Mas o texto não diz quanto seria economizado nem quais seriam os efeitos sobre quem recebe os benefícios. Isso segue em aberto.

Mark

E a crítica às políticas públicas?

Mimi

Ele diz que programas semelhantes são renovados sem avaliação independente, e cita habitação, Desenrola, Zona Franca e indústria naval.

Luke

Citar não é demonstrar. O texto não traz avaliações desses programas, só a alegação de que faltam.

Mark

E sobre os juros?

Mimi

Ele pede cautela com mudar a meta de inflação, usando a era Tombini como exemplo, leitura que é dele.

  • Uma fatia expressiva do orçamento já nasce comprometida, e cada crescimento da economia empurra parte dessa conta para cima sem que ninguém precise decidir.
  • A ideia de cortar saúde, educação ou aposentadorias gera resistência imediata, e Lisboa tenta desarmar a disputa mostrando que o problema está nas regras, não nos beneficiários.
  • O caminho proposto é mudar vinculações e indexações para que certas despesas cresçam em ritmo menor, com avaliação independente de programas que hoje são renovados sem exame.
  • A trajetória aponta para uma transição de governo em que a definição sobre benefícios e subsídios vai testar a capacidade política de sustentar mudanças estruturais.

Num país em que cada real do orçamento parece já ter dono, o economista Marcos Lisboa propõe olhar para a engrenagem antes de olhar para as pessoas que dependem dela. Sua tese, exposta em artigo na Folha de S.Paulo, é que equilibrar as contas públicas e proteger programas sociais não são forças irreconciliáveis, mas efeitos de regras que fazem certas despesas crescerem sozinhas. Com o quarto mandato de Lula se aproximando, em 2027, o debate ganha o peso de uma escolha sobre como o Estado irá gastar, e para quê.

Marcos Lisboa, ex-secretário de Política Econômica do primeiro governo Lula, sustenta que o Brasil se convenceu de um dilema que não deveria existir: ou se equilibram as contas, ou se protege quem depende de programas sociais. Para ele, a escolha é falsa. O problema está em regras que fazem os gastos obrigatórios crescerem automaticamente, somadas a subsídios criados para grupos específicos.

O artigo aponta o que pesa no orçamento: subvenções a combustíveis, renúncias para a indústria química, auxílios a táxis, ônibus e exportadores. Lisboa questiona a vinculação de saúde e educação à arrecadação e a indexação dos benefícios previdenciários ao salário mínimo, que sobe com a inflação e com o crescimento do PIB. Quando a economia cresce, a despesa cresce junto, e sobra menos espaço para investimento e para políticas que funcionem melhor.

A saída que propõe não corta recursos da proteção social. Trata-se de mudar as regras para que certas despesas acompanhem o ritmo da economia com menos automatismo, e de avaliar com rigor programas que hoje são renovados, reformulados ou ampliados sem exame de resultados. Ao resumir o quadro, diz que o Estado gasta muito e gasta mal. Ele reconhece a dificuldade política dessas mudanças, lembrando que a desoneração da folha, criada há cerca de quinze anos, resiste a qualquer revisão.

Lisboa também pede cautela com propostas de mexer na meta de inflação ou de forçar a queda da Selic, lembrando um período no Banco Central em que os juros caíram com a inflação acima da meta, seguido de desaceleração e de mais inflação. Para ele, crédito barato e sustentável depende de confiança nas contas e na trajetória dos preços. Ao mesmo tempo, alerta para sinais de fragilidade nas empresas, com endividamento alto e mais pedidos de recuperação judicial, sobretudo no varejo e no agronegócio.

O ajuste, conclui, não pode ser tarefa da Fazenda isolada. Exige pacto político amplo, debate público e papel central da Presidência. A resposta a essa questão ainda será escrita na formação do próximo governo.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo, o economista Marcos Lisboa sustenta que o Brasil trata como escolha excludente algo que não o é: equilibrar as contas públicas ou proteger quem depende de programas sociais. Para ele, o dilema é falso. O texto chega num momento em que se discute a política econômica do quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que começa em 2027.

Lisboa foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda na gestão de Antonio Palocci, no primeiro governo Lula. Seu argumento parte da composição do orçamento: uma fatia expressiva está comprometida com despesas obrigatórias, protegidas por dispositivos constitucionais e legais, como salários, aposentadorias e transferências a estados e municípios. O problema, diz ele, é a combinação entre o crescimento recorrente desses gastos e a criação de novos benefícios e subsídios para grupos específicos.

O artigo menciona subvenções para combustíveis, renúncias tributárias para a indústria química e auxílios a táxis, ônibus e exportadores. Lisboa questiona também a vinculação dos gastos com saúde e educação à arrecadação e as regras de reajuste de benefícios previdenciários ligados ao salário mínimo. Como o mínimo incorpora a inflação e o crescimento real do PIB, parte da despesa sobe automaticamente quando a economia cresce. Assim, a expansão das receitas é acompanhada pela das obrigações do Estado, e sobra menos margem para investimento e outras políticas. Ele critica ainda os mecanismos que permitem ampliar gastos fora dos limites do arcabouço fiscal e afirma que a relação entre dívida pública e PIB subiu mais de dez pontos percentuais no atual governo.

A saída que propõe não passa por reduzir recursos de saúde, educação ou Previdência, e sim por mudar regras de vinculação e indexação, para que certas despesas cresçam em ritmo inferior ao atual, sem seguir automaticamente a arrecadação. O objetivo seria recuperar a capacidade de planejamento orçamentário e abrir espaço para políticas mais eficazes. Lisboa reconhece a resistência dos grupos beneficiados e cita como exemplo a dificuldade política de alterar a desoneração da folha de pagamentos, criada há cerca de 15 anos.

Outra crítica é a falta de avaliações rigorosas. Segundo o economista, políticas com objetivos parecidos são renovadas, reformuladas ou ampliadas sem exame independente de resultados. Ele lista programas habitacionais, diferentes versões do Desenrola, investimentos em educação, estímulos à indústria naval e incentivos à Zona Franca de Manaus. Resume o quadro dizendo que o Estado “gasta muito e gasta mal”, e propõe fortalecer a avaliação das políticas para preservar a proteção social com mais eficiência.

Sobre juros, Lisboa recomenda cautela diante de propostas de mudar a meta de inflação ou de intervir para acelerar a queda da Selic. Lembra a gestão de Alexandre Tombini no Banco Central, quando a Selic caiu com a inflação acima do centro da meta, e diz que o período foi seguido por desaceleração, menos empregos e inflação maior. Uma eventual elevação da meta, avalia, pode aumentar as expectativas de inflação e pressionar os juros. Crédito mais barato de forma sustentável, na visão dele, depende de confiança na trajetória da inflação e das contas públicas.

O economista alerta ainda para sinais de deterioração financeira das empresas: endividamento alto, crédito caro e mais pedidos de recuperação judicial. Setores como varejo e agronegócio podem enfrentar dificuldades maiores em 2027, conforme as decisões tomadas na transição.

Por fim, Lisboa afirma que o ajuste não pode ser tarefa só da Fazenda ou de parte da equipe econômica. Exige agenda política ampla, debate público, negociação com setores e base de apoio para sustentar mudanças estruturais, com papel central da Presidência. A questão fica para a formação do próximo governo.

O Estado brasileiro gasta muito e gasta mal.
— Marcos Lisboa, em artigo na Folha de S.Paulo
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