O Peru está praticamente partido ao meio
Com 100% das urnas apuradas, Fujimori tem maioria irreversível de votos, separada do concorrente por apenas 49.641 votos em eleição altamente polarizada. Órgão eleitoral máximo peruano (JNE) deve oficializar resultado até 3 de julho; candidato de esquerda Roberto Sánchez rejeita resultado e promete recorrer à Corte Interamericana.
- Keiko Fujimori venceu com 50,135% dos votos, separada do concorrente por apenas 49.641 votos
- JNE deve oficializar resultado até 3 de julho de 2026
- Peru teve oito presidentes em oito anos, incluindo destituições por corrupção
- Roberto Sánchez anunciou recursos legais na Corte Interamericana de Direitos Humanos
Keiko Fujimori é declarada virtual presidente eleita do Peru com 50,135% dos votos. Marco Rubio parabeniza candidata e oferece cooperação em segurança, enquanto adversário anuncia recursos legais.
A contagem de votos terminou na terça-feira com um resultado que divide o Peru quase ao meio. Keiko Fujimori, candidata de direita, conquistou 50,135% dos votos — 9.223.396 eleitores — contra 49,865% para seu concorrente de esquerda, Roberto Sánchez, que recebeu 9.137.755 votos. A margem que a separa da derrota é de apenas 49.641 votos. Com cem por cento das urnas apuradas, ela é agora a virtual presidente eleita do Peru, aguardando apenas a oficialização formal do Jurado Nacional Eleitoral (JNE), o órgão máximo das eleições no país, que prometeu ratificar o resultado até o dia 3 de julho.
Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, não esperou pela formalidade. Na terça-feira, enviou uma mensagem de parabéns à candidata vencedora, oferecendo ao futuro governo peruano uma parceria mais profunda em segurança, investimentos e comércio. A rapidez da resposta americana sinaliza o alinhamento ideológico entre Washington e a candidata de direita, bem como a importância estratégica que o Peru mantém para a administração Trump.
Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, fez seu discurso de vitória sem reivindicar formalmente o título — uma cautela que reflete a tensão do momento. Ela reconheceu que o país está "praticamente partido ao meio" e prometeu trabalhar pela reunificação nacional. Em sua postagem na rede social X, disse esperar a proclamação oficial "com muita humildade, prudência e responsabilidade", palavras que soam como um apelo à aceitação em um ambiente profundamente polarizado.
Seu adversário, porém, não está disposto a aceitar o resultado. Sánchez anunciou que recorrerá à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) caso o JNE proclame a vitória de Fujimori. Ele alega irregularidades administrativas e problemas na gestão das cédulas de votação pelo órgão eleitoral, particularmente nas votações realizadas no exterior. Advogados especializados em direito eleitoral, consultados pelo jornal peruano El Comercio, descartam o fundamento jurídico dessas alegações, sugerindo que o objetivo é simplesmente atrasar a proclamação oficial.
Fujimori herdará um país em crise institucional severa. O Peru viveu na última década um dos piores períodos de instabilidade política de sua história. Nos últimos oito anos, o país teve oito presidentes. Seu antecessor imediato, José María Balcázar Zelada, assumiu o cargo de forma interina há apenas quatro meses. Antes dele, José Jeri ocupou a presidência por apenas quatro meses antes de ser destituído pelo Congresso por má conduta — havia participado de reuniões não divulgadas com empresários chineses. Sua antecessora, Dina Boluarte, também foi removida do cargo envolvida em escândalos de corrupção. E antes de Boluarte estava Pedro Castillo, que foi preso após dissolver o Congresso e declarar estado de exceção na tentativa de escapar de um processo de impeachment.
Este é o cenário que aguarda Fujimori quando assumir: um país profundamente dividido, uma oposição que não reconhece sua vitória, e uma história recente de presidentes que chegaram ao poder apenas para ser derrubados por crises políticas e escândalos. A oficialização do resultado pelo JNE, esperada para a próxima sexta-feira, será apenas o primeiro passo de um governo que nascerá sob tensão.
Notable Quotes
Estamos cientes de que o Peru está dividido, de que está praticamente partido ao meio— Keiko Fujimori
O governo Trump espera aprofundar a colaboração com o governo Fujimori para impulsionar a cooperação em segurança— Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que uma margem de apenas 49 mil votos em um país de milhões é considerada irreversível?
Porque todas as urnas já foram contadas. Não há mais votos para apurar. O resultado é matematicamente final — o que falta agora é apenas o carimbo oficial do tribunal eleitoral.
E por que Sánchez acha que consegue reverter isso na Corte Interamericana?
Ele não acha, provavelmente. Mas recorrer compra tempo e mantém viva a narrativa de que algo foi irregular. Os advogados dizem que não há fundamento, mas a estratégia não é jurídica — é política.
Fujimori é filha de um ditador. Como ela consegue vencer em uma eleição democrática?
O Peru está cansado. Cansado de instabilidade, de presidentes que duram meses, de corrupção. Fujimori representa ordem, mesmo que seu pai tenha sido um ditador. Para muitos eleitores, isso pesa mais do que a história.
Então ela vai conseguir governar?
Isso é a verdadeira pergunta. Ela tem uma margem minúscula, uma oposição que não a reconhece, e herda um país que já derrubou oito presidentes em oito anos. A oficialização é apenas o começo.
Por que os EUA se movem tão rápido para apoiá-la?
Porque ela é de direita, porque promete estabilidade, e porque os EUA querem parceiros confiáveis na região. Rubio não está esperando pela formalidade — está sinalizando que Washington já escolheu seu lado.