Em cidades siberianas da Rússia, cidadãos e membros do Partido Comunista saíram às ruas para contestar uma vitória eleitoral que consideram fabricada — a do Rússia Unida, que teria conquistado uma maioria histórica na Duma em setembro. O protesto em Tyumen é um fragmento de uma tensão mais ampla: a de um povo que questiona se os números oficiais refletem a sua vontade ou a vontade do poder. Num país onde a própria lista de candidatos já chegou às urnas filtrada pelo Estado, a legitimidade do processo torna-se, ela própria, o campo de batalha.
Manifestantes russos exigem recontagem de votos das legislativas
Votos recontados, ou uma ilusão de democracia?
Porque é que o Partido Comunista está tão convencido de que foi prejudicado? Têm provas concretas ou é principalmente uma sensação de que os números não batem certo?
As organizações independentes de monitorização reportaram boletins a mais nas urnas e pressões sobre eleitores — isso não é apenas uma sensação. Mas é verdade que a diferença entre 37 lugares e o que os comunistas acreditam que deveriam ter é uma estimativa deles, não um número verificado.
Exatamente. Sabemos que houve irregularidades reportadas por grupos independentes, isso é facto. Mas não sabemos quantas dessas irregularidades afetaram o resultado final ou se teriam mudado significativamente o número de assentos do Partido Comunista. Essa é a lacuna.
E quanto ao voto eletrónico? Isso é tecnicamente mais fácil de manipular do que o voto em papel?
Teoricamente, sim. E o facto de as eleições e a contagem terem durado três dias também levanta questões sobre supervisão e transparência. Mas o relatório não especifica como é que o voto eletrónico foi implementado ou se havia salvaguardas.
Certo. Sabemos que foi usado, sabemos que há preocupações sobre isso, mas não temos detalhes técnicos sobre como funcionou ou se havia auditorias. É um ponto de contestação legítimo, mas ainda está bastante vago.
O Dmitri Morozov foi detido — isso é um sinal de que o governo está preocupado com estes protestos?
Provavelmente. Deter alguém por planear uma manifestação sugere que as autoridades veem isto como uma ameaça à narrativa oficial.
Ou sugere que há leis que permitem deter pessoas por atividades de protesto. Não sabemos qual foi a acusação formal contra Morozov ou se há um padrão de detenções. Uma detenção isolada pode significar muitas coisas.
Le Pouls
- O Rússia Unida anunciou 349 dos 450 assentos da Duma — um recorde histórico que os opositores recusam aceitar como legítimo.
- Organizações independentes documentaram irregularidades concretas: boletins a mais nas urnas e pressões exercidas sobre eleitores durante os três dias de votação.
- O Partido Comunista, reduzido a apenas 37 lugares, alega que os seus votos foram subtraídos na contagem, e mobiliza protestos em várias cidades siberianas.
- Em Izhevsk, o ativista Dmitri Morozov foi detido antes mesmo de conseguir organizar a sua manifestação — um sinal de que o Estado não pretende tolerar a contestação.
- Apesar das detenções, novos protestos estão planeados para o fim de semana, com alianças a formar-se entre comunistas e grupos de oposição como o Rassvet de Yekaterina Duntsova.
Em cidades siberianas da Rússia, cidadãos e membros do Partido Comunista saíram às ruas para contestar uma vitória eleitoral que consideram fabricada — a do Rússia Unida, que teria conquistado uma maioria histórica na Duma em setembro. O protesto em Tyumen é um fragmento de uma tensão mais ampla: a de um povo que questiona se os números oficiais refletem a sua vontade ou a vontade do poder. Num país onde a própria lista de candidatos já chegou às urnas filtrada pelo Estado, a legitimidade do processo torna-se, ela própria, o campo de batalha.
No início de outubro, cerca de cem pessoas reuniram-se nas ruas de Tyumen, na Sibéria russa, empunhando cartazes que exigiam recontagem de votos e denunciavam fraude nas eleições legislativas de setembro. O protesto, convocado pelo Partido Comunista sob o lema "Por Eleições Justas", era apenas um dos vários que eclodiam simultaneamente em diferentes cidades siberianas.
O alvo da indignação era a magnitude da vitória anunciada pelo Rússia Unida: 349 dos 450 assentos da Duma, um recorde histórico desde 1999. O Partido Comunista, que ficou em segundo lugar com apenas 37 lugares, argumentava que os seus votos tinham sido manipulados na contagem. As suspeitas não eram exclusivas dos ativistas — organizações independentes de monitorização reportaram boletins a mais nas urnas e pressões sobre eleitores, além de levantarem dúvidas sobre o voto eletrónico e o processo de três dias de votação.
O contexto agravava tudo: eram as primeiras legislativas desde o início da invasão da Ucrânia em 2022, e nenhum partido ou candidato abertamente contrário à guerra tinha sido autorizado a concorrer. O espetro político chegou às urnas já filtrado pelo Estado.
Os protestos alargavam-se. Em Tobolsk, comunistas e membros do Rassvet — partido liderado pela ex-candidata presidencial Yekaterina Duntsova — planeavam manifestar-se juntos. Mas a repressão também avançava: em Izhevsk, Dmitri Morozov foi detido enquanto preparava o seu próprio protesto. As ruas russas contavam, assim, uma história diferente dos números oficiais — a de cidadãos que recusavam aceitar em silêncio os resultados de um processo que, para muitos, já nascera comprometido.
Em Tyumen, uma cidade na Sibéria russa, cerca de cem pessoas saíram às ruas no início de outubro para contestar os resultados das eleições legislativas que tinham ocorrido semanas antes. Empunhavam cartazes denunciando fraude e exigiam que os votos fossem recontados do zero. O protesto, organizado pelo Partido Comunista da Rússia sob o lema "Por Eleições Justas", era apenas um dos vários que eclodiam naquele fim de semana em diferentes cidades siberianas.
O que motivava tanta mobilização era a magnitude da vitória anunciada pelo Rússia Unida, o partido que governa desde o Kremlin. Nas eleições de setembro, a formação liderada pelo Presidente Vladimir Putin conquistou 349 dos 450 assentos da câmara baixa do parlamento, a Duma — um recorde histórico para o partido desde 1999. O Partido Comunista, que ficou em segundo lugar, recebeu apenas 37 lugares. Os comunistas argumentavam que tinham recebido muito mais votos do que aqueles que lhes foram atribuídos oficialmente, e que a contagem tinha sido manipulada.
As denúncias de irregularidade não vinham apenas dos ativistas nas ruas. Organizações independentes de monitorização, como a Novaya Gazeta Europa, reportaram problemas graves: boletins de voto colocados a mais nas urnas e pressões exercidas sobre eleitores. Havia também questões sobre o próprio processo — as eleições e a contagem dos votos tinham decorrido ao longo de três dias, e o voto eletrónico tinha sido utilizado, ambos os fatores que os críticos apontavam como fontes potenciais de manipulação.
O contexto político tornava estas eleições particularmente significativas. Eram as primeiras legislativas na Rússia desde o início da invasão militar da Ucrânia em 2022. Nenhum partido ou candidato abertamente contrário à guerra tinha recebido autorização legal para concorrer, o que significava que o espetro político apresentado aos eleitores era já bastante restrito. Ainda assim, o Partido Comunista, que não se opunha publicamente à guerra, sentia-se prejudicado pelos resultados anunciados.
Os protestos estendiam-se para além de Tyumen. Na cidade de Tobolsk, membros do Partido Comunista planeavam unir forças com o Rassvet, um partido de oposição liderado por Yekaterina Duntsova, uma ex-candidata à presidência, para realizar uma manifestação no domingo. Mas nem todos os ativistas conseguiam agir livremente. Na cidade de Izhevsk, na região dos Urais, Dmitri Morozov foi detido pelas autoridades enquanto planeava organizar o seu próprio protesto contra a fraude eleitoral.
Os dados finais divulgados pela comissão eleitoral no dia 25 de setembro mostravam uma Rússia politicamente consolidada sob o controlo do Rússia Unida. Mas as ruas contavam uma história diferente — a de cidadãos que questionavam se aqueles números refletiam realmente a vontade dos eleitores, ou se representavam antes uma manipulação sistemática de um processo que já começava com restrições significativas sobre quem podia concorrer.
Citations marquantes
Os comunistas argumentavam que tinham recebido muito mais votos do que aqueles que lhes foram atribuídos oficialmente— Participantes da manifestação em Tyumen