Em Salvador, o que começou nos anos 1980 como um gesto solitário de uma enfermeira diante de uma travesti sem abrigo tornou-se, ao longo de quatro décadas, uma rede viva de solidariedade comunitária. A instituição fundada por Tia Conca demonstra que o combate ao HIV não se resolve apenas com medicina, mas com escuta, alimentação, pertencimento e a recusa em abandonar quem a sociedade prefere não ver. Sua existência é um lembrete de que o cuidado, quando enraizado na comunidade, pode ser o mais poderoso instrumento de prevenção.
Mais de 40 anos de resistência: rede comunitária transforma vidas na luta contra HIV em Salvador
Antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa
Como uma enfermeira que trabalha em um hospital consegue transformar um gesto individual em uma instituição que funciona há mais de 40 anos?
Tia Conca não começou pensando em instituição. Começou vendo uma pessoa que precisava. O quarto alugado na Rua 28 de Setembro era resposta a uma necessidade imediata. Mas quando outras pessoas começaram a chegar, ela entendeu que precisava fazer mais. A instituição cresceu porque a necessidade era real e contínua.
Mas como ela sustentou isso financeiramente? O texto menciona que conseguiu uma casa em Pernambués depois, mas não fica claro como o trabalho foi financiado nesses primeiros anos ou como é financiado agora.
O que torna o trabalho deles diferente de outras organizações que lidam com HIV?
A abordagem é integral. Não é só tratamento médico. É alimentação, educação, proteção, escuta. Quando fazem as rondas noturnas com profissionais do sexo, não chegam só para entregar comida. Chegam para saber como estão, se estão sofrendo violência, para construir confiança.
Isso é importante, mas o texto não diz quantas pessoas são atendidas nessas rondas, quantas foram encaminhadas para atendimento psicológico ou qual é o alcance real dessa ação. Sabemos que acontecem a cada 15 dias, mas não sabemos o impacto.
A história da jovem que nasceu com HIV é poderosa. Ela representa o que exatamente?
Representa que informação, acompanhamento e acolhimento podem mudar trajetórias. Ela estava em sofrimento profundo, pensava em morrer. Mas quando engravidou, compreendeu por que precisava cuidar de si. Retomou o tratamento e seu filho nasceu sem HIV. É uma história de transformação.
É uma história de transformação, sim, mas é uma história. O texto não diz quantas outras jovens tiveram resultados semelhantes ou diferentes. Essa é uma narrativa poderosa, mas não sabemos se é representativa ou excepcional.
Por que Tia Conca permaneceu naquele trabalho mesmo enfrentando preconceito?
Porque ela viu a pessoa antes de ver o diagnóstico. Quando você conhece alguém, quando você sabe o nome dela, quando você sabe que ela não tem para onde ir, fica muito mais difícil virar as costas. O preconceito da comunidade não apagava a realidade daquelas vidas.
O texto diz que havia preconceito, que muitas pessoas sabiam que o espaço era frequentado por pessoas com HIV, mas não descreve especificamente que tipo de preconceito ou quais foram as consequências concretas que Tia Conca enfrentou. Sabemos que ela permaneceu, mas não sabemos o custo pessoal disso.
Il Polso
- Nos anos 1980, enquanto o pânico em torno da AIDS isolava e estigmatizava, Tia Conca escolheu o caminho oposto: alugar um quarto simples embaixo de um bar para abrigar quem o hospital havia dispensado.
- Décadas depois, a instituição atende 72 crianças vivendo com HIV em uma creche que oferece o que muitas famílias não conseguem garantir em casa — alimentação, educação e proteção diária.
- A cada 15 dias, rondas noturnas levam café e escuta às profissionais do sexo da orla de Salvador, construindo a confiança necessária para que a prevenção de HIV e ISTs deixe de ser discurso e se torne prática real.
- Uma jovem nascida com HIV, que perdeu a mãe para a doença e chegou a pensar em tirar a própria vida, encontrou no acolhimento da instituição razão para retomar o tratamento — e deu à luz um filho sem o vírus.
- O trabalho revela uma equação urgente: sem enfrentar fome, violência, desinformação e preconceito, qualquer estratégia de saúde pública chega incompleta às populações mais vulneráveis.
Em Salvador, o que começou nos anos 1980 como um gesto solitário de uma enfermeira diante de uma travesti sem abrigo tornou-se, ao longo de quatro décadas, uma rede viva de solidariedade comunitária. A instituição fundada por Tia Conca demonstra que o combate ao HIV não se resolve apenas com medicina, mas com escuta, alimentação, pertencimento e a recusa em abandonar quem a sociedade prefere não ver. Sua existência é um lembrete de que o cuidado, quando enraizado na comunidade, pode ser o mais poderoso instrumento de prevenção.
Nos anos 1980, quando a AIDS espalhava pânico pelas ruas de Salvador, a enfermeira Tia Conca conheceu uma travesti que saía do Hospital Roberto Santos sem ter para onde ir. Ela alugou um pequeno quarto na Rua 28 de Setembro — região de prostituição da cidade, embaixo de um bar — e o transformou em abrigo. Era simples, mas para quem não tinha onde dormir ou comer, representava tudo.
A notícia do gesto se espalhou. Tia Conca passou a recolher alimentos descartados pelo hospital para distribuir entre pessoas em extrema vulnerabilidade. Com o tempo, conseguiu uma casa em Pernambués e ampliou a atuação para acolher crianças, jovens e famílias que viviam com HIV — numa comunidade periférica onde o preconceito era constante e as informações chegavam de forma limitada.
Hoje, a creche da instituição atende 72 crianças vivendo com HIV. Para muitas, o espaço é muito mais do que uma creche: é onde encontram a primeira refeição do dia, professores, atividades educativas e uma rede de apoio que se estende às famílias. A cada 15 dias, rondas noturnas chegam até profissionais do sexo da orla de Salvador — mulheres trans, travestis — levando café, alimentos e, sobretudo, escuta. Ali, relatam violências, recebem orientação e são encaminhadas para atendimento quando necessário. A estratégia parte de uma premissa simples: para falar de prevenção, é preciso primeiro construir confiança.
Um dos casos mais marcantes é o de uma jovem nascida com HIV, adquirido da mãe que morreu cedo. Ela chegou à instituição sem querer se tratar, sem querer sobreviver. Mais tarde, engravidou. Durante a gestação, compreendeu a importância de cuidar de si — retomou o tratamento e deu à luz um filho sem o vírus. Sua trajetória condensa o que a instituição representa: informação, acompanhamento e acolhimento podem mudar destinos.
Aos 82 anos, Tia Conca é símbolo de uma convicção que atravessa quatro décadas: combater o HIV significa também enfrentar a fome, a violência, a desinformação e a exclusão. Porque antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa. E cuidar dessa pessoa é também cuidar da vida.
Nos anos 1980, quando a AIDS provocava pânico e desinformação nas ruas de Salvador, uma enfermeira chamada Tia Conca conheceu uma travesti que saía do Hospital Roberto Santos sem ter para onde ir. Aquele encontro casual transformou-se em um gesto que duraria mais de quatro décadas. Tia Conca alugou um pequeno quarto na Rua 28 de Setembro, região onde se concentrava a prostituição na cidade, e o transformou em abrigo. O quarto ficava embaixo de um bar. Era simples, mas para quem não tinha onde dormir ou comer, representava tudo.
A notícia daquele gesto começou a se espalhar. Tia Conca passou a recolher alimentos descartados pelo hospital para distribuir entre pessoas em situação de extrema vulnerabilidade. Aquela iniciativa individual, nascida de uma decisão que ultrapassava os limites da profissão, transformou-se gradualmente em uma rede de solidariedade. Com o tempo, conseguiu uma casa em Pernambués e ampliou a atuação para acolher crianças, jovens e famílias que viviam e conviviam com HIV. Era uma luta diária em uma comunidade periférica onde as informações sobre HIV e AIDS chegavam de forma limitada e o preconceito era realidade constante. Muitas pessoas sabiam que aquele espaço era frequentado por pessoas vivendo com HIV. Tia Conca permaneceu.
O trabalho da instituição não se limita ao acolhimento. A prevenção do HIV e das infecções sexualmente transmissíveis ocupa dimensão fundamental. A cada 15 dias, a instituição realiza rondas noturnas junto a profissionais do sexo de Salvador, incluindo mulheres trans e travestis que trabalham na orla da cidade. Essas ações levam café, leite e alimentos, mas vão muito além da distribuição. Durante as rondas, há espaço para escuta. As profissionais relatam situações de violência, recebem orientação e apoio, e quando necessário, são encaminhadas para atendimento psicológico e médico. As ações incluem informações sobre prevenção do HIV e das ISTs. É uma estratégia que reconhece uma realidade muitas vezes invisibilizada: para falar de prevenção, é preciso primeiro construir confiança.
Hoje, a creche da instituição atende 72 crianças que vivem com HIV. Para muitas delas, o espaço representa muito mais do que uma creche. É lugar de alimentação, educação, convivência e proteção. Há crianças que chegam de famílias sem condições de garantir as primeiras refeições do dia. Na instituição, encontram alimentação diária, professores, atividades educativas e uma rede de apoio. O atendimento não termina na criança. As famílias também são acolhidas, porque viver com HIV envolve dimensões que ultrapassam o tratamento médico: alimentação, educação, informação, renda, vínculos familiares, autoestima e enfrentamento do preconceito.
Um dos exemplos mais marcantes dessa atuação está no trabalho com jovens que vivem e convivem com HIV. O projeto Jovem Aprendiz busca prepará-los não apenas para o mercado de trabalho, mas também para a vida. Uma jovem que nasceu com HIV, adquirido da mãe que posteriormente morreu, passou por profundo sofrimento e chegou a pensar em tirar a própria vida. Não queria se tratar. Não queria sobreviver. Mais tarde, engravidou. Durante a gestação, passou a compreender a importância de cuidar de si e da vida que estava gerando. Retomou o tratamento e conseguiu que seu filho nascesse sem HIV. Sua trajetória revela uma das dimensões mais importantes da luta contra o HIV: informação, tratamento, acompanhamento e acolhimento podem mudar trajetórias e salvar vidas.
A trajetória de Tia Conca e da instituição é, sobretudo, uma história de cuidado comunitário como instrumento de prevenção e transformação social. Mais de quatro décadas depois daquele primeiro gesto em um quarto embaixo de um bar, a mensagem permanece atual: combater o HIV também significa enfrentar a fome, a violência, a desinformação, o preconceito e a exclusão. Porque, antes de qualquer diagnóstico, existe uma pessoa. E cuidar dessa pessoa é também cuidar da vida.
Citazioni salienti
Eu não podia deixar aquela pessoa sair do hospital sem ter para onde ir. Aluguei um quartinho e comecei a cuidar.— Tia Conca, fundadora da instituição
Quando a gente chega na rua, não chega só para entregar um café ou um alimento. A gente chega para saber como elas estão, ouvir o que aconteceu, saber se estão sofrendo violência e orientar.— Tia Conca