Christian Nègre, funcionário público de alto escalão, é acusado de administrar diuréticos em bebidas de candidatas a emprego, causando descontrole urinário em locais públicos. A polícia descobriu uma planilha intitulada 'Experimentos P' no computador de Nègre registrando horários, tipos de roupa íntima e reações das vítimas aos supostos 'testes'.
Mais de 200 mulheres acusam ex-funcionário francês de drogá-las em entrevistas
Eu não preciso me esconder — sou uma vítima
Como uma pessoa consegue fazer isso a quase 250 mulheres sem ser descoberta por tanto tempo?
Porque ninguém suspeitava. Eram entrevistas de emprego em um ministério — um lugar que deveria ser seguro. As mulheres não pensavam que haviam sido drogadas. Pensavam que algo estava errado com elas. Levou anos, uma planilha encontrada pela polícia, para que percebessem que havia um padrão.
A planilha é o detalhe mais perturbador. O que ela registrava exatamente?
Tudo. Nomes, horários de chegada, quando o diurético era administrado, quanto tempo levava até que urinassem, que tipo de roupa íntima estavam usando. Ele estava documentando seus experimentos como se fossem dados científicos. Chamou de "Experimentos P".
Por que diuréticos? Por que não drogas mais convencionais?
Porque era invisível. Um diurético é um medicamento legítimo para pressão alta. Não deixa rastros óbvios. E o efeito é específico — força o corpo a fazer algo que a pessoa não consegue controlar em público. É humilhação pura.
Essas mulheres procuraram ajuda na época?
Algumas tentaram. Mas como você prova que foi drogada quando não sabe que foi drogada? Quando você está em um ministério do governo? Anaïs desconsiderou a ideia porque pensou que era impossível. Só em 2019, quando a polícia a contatou, ela entendeu.
E depois que foram contatadas pela polícia?
Esperaram. Anaïs esperou quatro anos entre falar com a polícia em 2019 e receber notícias em 2023. Quatro anos sabendo que era uma vítima mas sem suporte, sem respostas. Marie-Hélène chama isso de revitimização.
O que a França está fazendo agora?
Criou um programa-piloto para análise de drogas sem denúncia formal. Mas tem limitações. As drogas desaparecem do sangue e da urina rapidamente. Podem ficar no cabelo mais tempo, mas fica difícil saber quando foram administradas. E para quase 250 mulheres que foram drogadas anos atrás, é tarde demais para testar.
El Pulso
- Christian Nègre, funcionário público de alto escalão do Ministério da Cultura francês, é investigado por supostamente drogar quase 250 mulheres entre 2009 e 2018
- Polícia encontrou planilha intitulada 'Experimentos P' registrando nomes, horários, tipos de roupa íntima e reações das vítimas
- Nègre usava diuréticos — medicamentos para pressão alta — para forçar descontrole urinário em locais públicos
- Anaïs de Vos esperou quatro anos entre falar com a polícia em 2019 e receber notícias em 2023
- França criou programa-piloto em 2024 para análise de drogas sem denúncia formal, mas com limitações para casos antigos
Christian Nègre, funcionário público de alto escalão, é acusado de administrar diuréticos em bebidas de candidatas a emprego, causando descontrole urinário em locais públicos. A polícia descobriu uma planilha intitulada 'Experimentos P' no computador de Nègre registrando horários, tipos de roupa íntima e reações das vítimas aos supostos 'testes'.
Um ex-funcionário do Ministério da Cultura francês é investigado por supostamente drogar quase 250 mulheres durante entrevistas de emprego entre 2009 e 2018, usando diuréticos para humilhá-las. A polícia encontrou uma planilha detalhando os supostos 'experimentos'.
Em julho de 2011, Anaïs de Vos entrou em uma sala de entrevista no Ministério da Cultura francês esperando discutir uma oportunidade de emprego. O entrevistador, Christian Nègre, um funcionário público de alto escalão, ofereceu-lhe café. Ela aceitou por educação, embora normalmente não bebesse a bebida. O café tinha gosto estranho. Ela bebeu metade.
Minutos depois, enquanto caminhavam pelas ruas de Paris, Anaïs sentiu algo que não conseguia explicar: uma necessidade incontrolável e urgente de urinar. Seu corpo não obedecia. Nègre continuou andando, conduzindo-a em direção ao rio Sena. Quando ela finalmente disse que precisava encontrar um banheiro com urgência, ele a olhou nos olhos e perguntou, com uma satisfação que a perturbou, se ela realmente precisava fazer xixi. Levou-a até a porta de um depósito sob uma ponte e sugeriu que ela usasse aquele espaço. Anaïs entrou em pânico. Continuaram andando até o Louvre, mas não tinha dinheiro para usar o banheiro. Desesperada, com dores intensas, ela finalmente encontrou um café que a deixou entrar. Ao se aproximar do banheiro, perdeu o controle. Tinha 27 anos. Não conseguiu o emprego.
Anaïs é uma entre quase 250 mulheres que acreditam ter sido drogadas por Nègre durante supostas entrevistas de emprego entre 2009 e 2018. A polícia descobriu em seu computador uma planilha intitulada "Experimentos P" que registrava nomes de mulheres, horários de chegada, quando o diurético era administrado, quanto tempo levava até que urinassem e que tipo de roupa íntima estavam usando. Nègre havia usado medicamentos diuréticos — drogas normalmente prescritas para pressão alta — para forçar seus corpos a produzirem quantidades excessivas de urina, submetendo-as a humilhação pública sistemática. A investigação começou em 2018 quando um colega o flagrou fotografando uma mulher por baixo de uma mesa. Ele foi suspenso e depois demitido em 2019. Agora, na casa dos 60 anos, aguarda julgamento por drogagem, invasão de privacidade e agressão sexual.
Marie-Hélène Brice foi entrevistada por Nègre em 2016 em Estrasburgo. Ele disse que ela parecia estressada e sugeriu um passeio para que se acalmasse. Enquanto caminhavam ao longo de um canal, ela sentiu a mesma necessidade incontrolável que Anaïs havia experimentado cinco anos antes. Nègre afirmou conhecer um banheiro público próximo, mas quando chegaram ao local, não havia nada. Marie-Hélène estava em agonia, pálida, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela não teve escolha a não ser urinar em público. Nègre ofereceu-se para cobri-la com seu casaco enquanto isso acontecia, mas não tirava os olhos dela. Durante anos, Marie-Hélène carregou vergonha. Desenvolveu problemas urinários crônicos. Só em 2019, quando a polícia a contatou, ela descobriu que não estava sozinha — que havia um padrão, um método, um documento que registrava tudo.
Muitas das mulheres não suspeitaram que haviam sido drogadas. Anaïs desconsiderou rapidamente a ideia porque estava em uma entrevista no Ministério da Cultura — isso não era possível, pensou. Só quando a polícia entrou em contato, anos depois, ela compreendeu o que havia acontecido. Outras mulheres apareceram depois de ver reportagens na imprensa. Algumas reconheceram a si mesmas nas histórias de outras vítimas e finalmente entenderam por que seus corpos haviam traído aquele dia.
O conceito de submissão química ganhou destaque na França em 2024, quando o marido de Gisèle Pelicot foi condenado por sedá-la e convidar desconhecidos para estuprá-la enquanto ela estava inconsciente. A deputada Sandrine Josso, ela própria vítima quando um senador colocou ecstasy em sua bebida, tornou-se ativista sobre o tema. Este ano, a França criou um programa-piloto permitindo que mulheres levem amostras de sangue, urina ou cabelo a um laboratório para análise sem registrar formalmente uma denúncia na polícia. Mas existem limitações sérias. A menos que o teste seja feito muito pouco tempo depois da administração da droga, as substâncias desaparecem. As drogas podem permanecer no cabelo por mais tempo, mas fica cada vez mais difícil determinar exatamente quando foram administradas. O uso de diuréticos dessa forma é extraordinariamente incomum — um toxicologista com 26 anos de experiência disse nunca ter visto algo parecido.
Anaïs falou com a polícia em 2019, mas não recebeu notícias sobre o caso até 2023, apesar de ter enviado diversos e-mails. Quatro anos esperando. Quatro anos sabendo que era uma vítima mas tendo que lidar sozinha com isso. Marie-Hélène descreve essa espera como revitimização. Como vítima, ela teve que provar o impacto, consultar um psiquiatra, escrever relatos específicos. A demora tornou ainda mais difícil suportar o que aconteceu. "Não sentimos necessariamente que somos levadas completamente a sério", diz ela. A Fondation des Femmes apoia cerca de 30 das mulheres afetadas. Segundo a ONU Mulheres, governos, polícias e sistemas de Justiça precisam fazer muito mais para combater a violência sexual facilitada por drogas. Os atrasos em casos de suposto abuso estão destruindo a vida das mulheres.
Marie-Hélène permaneceu em silêncio durante muito tempo, até deixar de sentir vergonha. "Eu não preciso me esconder — sou uma vítima", diz ela agora. "É importante para mim falar publicamente porque isso permitiu que algumas vítimas se reconhecessem, descobrissem que eram vítimas e, por sua vez, registrassem uma denúncia." Falar é necessário no mundo em que vivemos. É importante falar sobre sexismo e violência sexual. Nègre recusou-se a comentar através de seu advogado. Ele aguarda julgamento.
Citas Notables
Ele olhou no fundo dos meus olhos e disse: 'Ah, você precisa fazer xixi?' Eu me senti como uma criança.— Anaïs de Vos, vítima
Fui atacada, fui intoxicada, fui envenenada, mas, para mim, foi uma agressão sexual, claramente.— Marie-Hélène Brice, vítima