Mais de 200 mil barris radioativos no Atlântico: cientistas descobrem vida nos resíduos

Encontraram vida agarrada aos próprios barris radioativos
Décadas depois de o fundo do mar ser escolhido como depósito porque se acreditava ser um deserto sem vida.
Mark

Como é que ninguém sabia onde estavam estes barris durante tanto tempo?

Mimi

Porque quando foram deitados ao mar, entre 1949 e 1982, não havia tecnologia para os rastrear. Simplesmente afundavam a milhares de metros e ficavam lá. Ninguém tinha registos precisos.

Luke

Mas espera — sete países europeus fizeram isto deliberadamente. Tem de haver documentação, relatórios oficiais.

Mimi

Há, mas estavam dispersos, incompletos, e muitos governos não tinham pressa em divulgar o que tinham feito. Era uma prática que ninguém queria reivindicar.

Mark

E agora encontraram 3.355 barris em apenas um mês. Isso significa que há muito mais lá em baixo?

Mimi

Provavelmente. Aquele número é apenas o que conseguiram mapear numa primeira passagem com um veículo autónomo. Há certamente mais.

Luke

Mas a questão real é: quanto material radioativo saiu dos barris? Porque detectaram cobalto-60, nióbio-94, césio-137...

Mimi

Sim, detectaram. Mas os níveis não foram perigosos para os cientistas que trabalharam com as amostras. A água do oceano dilui muito.

Mark

E a vida que está a viver nos barris? Está contaminada?

Mimi

Essa é a pergunta que estão a tentar responder agora. Recolheram organismos que vivem directamente nos barris para analisar.

Luke

Mas ainda não têm resposta?

Mimi

Não. As análises estão em curso. É por isso que isto é investigação — ainda há muito que não sabemos.

  • Mais de 200 mil barris radioativos repousam no fundo do Atlântico, alguns fortemente corroídos e com conteúdo disperso nos sedimentos circundantes — confirmando que a radioatividade não ficou contida.
  • Investigadores detetaram cobalto-60, nióbio-94, césio-137 e amerício-241 em níveis superiores ao esperado, sinais inequívocos de que os resíduos submersos estão a contaminar o ambiente ao seu redor.
  • O que perturbou mais os cientistas não foi a degradação dos barris, mas a descoberta de anémonas, esponjas, peixes e crustáceos a viver diretamente sobre eles — transformando lixo nuclear em habitat das profundezas.
  • O projeto NODSSUM mobilizou física nuclear, oceanografia e biologia marinha, com submersíveis tripulados a descer a 4.700 metros para recolher amostras de água, sedimentos e organismos vivos junto aos barris.
  • A questão urgente agora é se os radionuclídeos estão a ser absorvidos pela vida que colonizou os barris e a propagar-se pelas cadeias alimentares oceânicas — uma resposta que as análises em curso ainda não conseguiram dar.

A quase cinco quilómetros de profundidade no Atlântico Nordeste, mais de 200 mil barris de resíduos radioativos depositados por sete países europeus entre 1949 e 1982 aguardavam, em silêncio, que a ciência os encontrasse. Uma equipa internacional regressou agora a esses sítios e descobriu recipientes corroídos, radioatividade que escapou para os sedimentos — e, paradoxalmente, vida marinha que colonizou os próprios barris. O que foi concebido como um desaparecimento definitivo revelou-se, décadas depois, um problema vivo e em evolução, cujas consequências para as cadeias alimentares oceânicas ainda estão por medir.

A quase cinco quilómetros de profundidade no Atlântico Nordeste, sete países europeus — entre eles o Reino Unido, a França e a Alemanha — depositaram deliberadamente mais de 200 mil barris de resíduos radioativos entre 1949 e 1982. A lógica da época era simples: as planícies abissais eram consideradas desertos sem vida, suficientemente remotos para diluir qualquer ameaça num oceano infinito. Os resíduos, de baixa atividade e acondicionados em metal com cimento ou betume, foram lançados ao mar com a expectativa de que simplesmente desaparecessem.

Décadas depois, em 2025, uma equipa internacional liderada por investigadores franceses lançou o projeto NODSSUM, reunindo física nuclear, oceanografia, geologia e biologia marinha. A bordo do navio L'Atalante, com o auxílio de um veículo submarino autónomo, localizaram e cartografaram 3.355 barris em apenas um mês, recolhendo milhares de litros de água e centenas de amostras de sedimentos e organismos.

Em 2026, o submersível tripulado Nautile desceu diretamente aos barris, a mais de 4.700 metros de profundidade. O que os cientistas encontraram foi perturbador: recipientes fortemente corroídos, conteúdo disperso nos sedimentos e sinais significativos de cobalto-60, nióbio-94, césio-137 e amerício-241 — confirmando que a radioatividade escapou dos recipientes. Mas a descoberta mais desconcertante foi outra: anémonas, esponjas, peixes, crustáceos e pepinos-do-mar tinham colonizado os próprios barris, transformando lixo nuclear abandonado em habitat das profundezas.

Esta ironia ecológica criou a pergunta mais urgente da investigação: estará a radioatividade a entrar nesses organismos e a propagar-se pelas cadeias alimentares oceânicas? Os resultados conhecidos exigem cautela — os níveis detetados não representaram risco radiológico imediato para os cientistas, e a capacidade de diluição do oceano é enorme. Ainda assim, mais de quatro décadas após o fim de uma das práticas ambientais mais controversas da era nuclear, a ciência está finalmente a tentar perceber o que aconteceu ao que a Europa decidiu fazer desaparecer.

A quase cinco quilómetros de profundidade, no fundo do Atlântico Nordeste, encontra-se um arquivo subaquático de decisões que a Europa preferiu esquecer. Mais de 200 mil barris de resíduos radioativos repousam ali, depositados deliberadamente entre 1949 e 1982 por sete países europeus — Reino Unido, Bélgica, França, Alemanha, Países Baixos, Suíça e outros — numa época em que as planícies abissais pareciam o esconderijo perfeito para o que ninguém queria guardar em terra. Os cientistas acreditavam que aquelas zonas remotas, a milhares de metros de profundidade, eram desertos praticamente sem vida, suficientemente isoladas para diluir qualquer ameaça num oceano infinito.

A história desses barris permaneceu obscura durante décadas. Nem sequer se conhecia com precisão onde muitos deles estavam ou em que estado se encontravam. Os resíduos eram considerados de baixa atividade e acondicionados em recipientes metálicos, geralmente misturados com cimento ou betume, antes de serem lançados ao mar. A expectativa era que os radionuclídeos de vida mais curta decaíssem naturalmente e que o restante material se dispersasse lentamente no volume colossal de água. O conhecimento científico e as regras eram muito diferentes dos atuais. Ninguém questionava seriamente se tudo desapareceria.

Em 2025, uma equipa internacional liderada por investigadores franceses iniciou o NODSSUM — Nuclear Ocean Dump Site Survey Monitoring — um projeto que reunia física nuclear, geologia, oceanografia, biologia e química marinha. A bordo do navio científico L'Atalante, utilizaram o UlyX, um veículo submarino autónomo equipado com sonar e câmaras de alta resolução. Em apenas um mês, localizaram e cartografaram 3.355 barris. Recolheram cerca de 5.000 litros de água, fizeram 345 amostragens dos sedimentos do fundo oceânico e capturaram dezenas de exemplares de peixes e crustáceos para análise. Era apenas o começo.

Em 2026, os cientistas regressaram com o Nautile, um pequeno submersível tripulado capaz de transportar três pessoas e alcançar profundidades de 6.000 metros. Realizaram 20 descidas a mais de 4.700 metros, aproximando-se diretamente dos barris pela primeira vez. O que viram foi perturbador em alguns aspectos. Havia recipientes fortemente corroídos, e em certos casos o conteúdo havia-se espalhado pelos sedimentos circundantes. As medições detectaram sinais significativos de cobalto-60 e nióbio-94, dois radionuclídeos que os investigadores conseguem associar especificamente aos resíduos submersos. Também encontraram césio-137 e amerício-241 em quantidades superiores às que seriam esperadas apenas pelos testes nucleares atmosféricos e acidentes das últimas décadas. A radioatividade tinha efetivamente escapado dos recipientes.

Mas a descoberta mais desconcertante não foi a degradação dos barris. Ao longo das décadas, transformaram-se em superfícies duras num ambiente onde esse tipo de estrutura é relativamente raro. Anémonas e esponjas fixaram-se directamente no metal corroído. Peixes, crustáceos e pepinos-do-mar circulam à volta deles. O que começou como lixo radioativo abandonado no fundo do oceano tornou-se, décadas depois, parte do ecossistema das profundezas. Os barris não estão simplesmente abandonados numa planície de areia sem vida — tornaram-se habitat.

Esta transformação inesperada criou uma pergunta urgente para os cientistas: estará a radioatividade a entrar nesses organismos? Em cinco locais selecionados, o Nautile recolheu sedimentos, água, organismos e comunidades microbianas imediatamente junto aos barris e, em alguns casos, em contacto direto com eles. Também recolheram amostras em habitats rochosos próximos para permitir comparações entre os dois ecossistemas. As análises agora tentam responder à questão mais importante: que impacto tiveram décadas de exposição aos resíduos radioativos sobre a vida que decidiu instalar-se precisamente ali?

Os resultados conhecidos até agora exigem cautela. Detectar radionuclídeos junto dos barris não significa que exista uma contaminação perigosa espalhada por grandes áreas do oceano. A enorme capacidade de diluição da água do mar pode fazer com que concentrações elevadas junto de uma fonte diminuam rapidamente à medida que aumenta a distância. Na própria campanha NODSSUM, apesar dos sinais radioativos detectados, os níveis encontrados não criaram problemas significativos de proteção radiológica para os cientistas que trabalharam com as amostras. O Nautile e os instrumentos utilizados também não apresentaram sinais de contaminação.

Há uma ironia difícil de ignorar nesta história. O fundo do mar foi escolhido em parte porque se acreditava que era um deserto praticamente sem vida. Décadas depois, os cientistas desceram quase cinco quilómetros e encontraram vida agarrada aos próprios barris radioativos. Mais de quatro décadas depois de terminar uma das práticas ambientais mais controversas da era nuclear, a ciência está finalmente a conseguir perceber aquilo que aconteceu aos barris que a Europa decidiu fazer desaparecer no oceano.

O fundo do mar foi escolhido em parte porque se acreditava que era um deserto praticamente sem vida. Décadas depois, os cientistas desceram quase cinco quilómetros e encontraram vida agarrada aos próprios barris radioativos.
— Relatório da investigação NODSSUM
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