Pesquisa da Unicamp revela que 81% das inserções de DIU causam dor moderada ou intensa

Milhares de mulheres enfrentam dor severa durante inserção de DIU sem acesso a anestésicos ou medicações, afetando principalmente usuárias do SUS que dependem de serviços públicos.
81% das inserções causaram dor moderada ou intensa, 16 vezes acima do estimado
Estudo da Unicamp com mais de 7 mil procedimentos contradiz diretrizes oficiais do Ministério da Saúde sobre frequência de dor na inserção de DIU.

81% das inserções de DIU causaram dor moderada ou intensa, com 54% relatando dor severa, contradizendo diretrizes oficiais que estimam menos de 5% dos casos. Apenas 6% das pacientes receberam medicação prévia para controle da dor; DIU hormonal não é oferecido no SUS e anestésicos locais não são rotina nas UBSs.

  • 81% das inserções de DIU causaram dor moderada ou intensa; 54% relataram dor severa
  • Ministério da Saúde estima menos de 5% dos casos com dor moderada ou intensa
  • Apenas 6% das pacientes receberam medicação prévia para controle da dor
  • DIU hormonal não é oferecido no SUS; apenas DIU de cobre está disponível
  • Apenas 20% das UBSs oferecem colocação de DIU; agendamentos podem levar meses

Estudo da Unicamp com 7.259 procedimentos encontrou dor moderada ou intensa em 81% das inserções de DIU, 16 vezes acima do estimado pelo Ministério da Saúde. Pesquisadores defendem atualização de diretrizes nacionais e ampliação de estratégias de manejo da dor.

Uma pesquisa realizada na Universidade Estadual de Campinas analisou mais de sete mil inserções de dispositivo intrauterino e chegou a um número que desafia as orientações oficiais do país: 81% das mulheres relataram dor moderada ou intensa durante o procedimento. Desse total, 54% descreveram a dor como severa. O contraste é gritante. O manual técnico do Ministério da Saúde, publicado em 2018, afirma que menos de 5% das pacientes experimentam esse nível de desconforto — uma estimativa mais de 16 vezes menor do que o que o estudo encontrou.

O trabalho, publicado na revista International Journal of Gynecology & Obstetrics, examinou procedimentos realizados entre 2022 e 2024 em um serviço de referência em Campinas. Os pesquisadores mediram a dor imediatamente após a inserção usando uma escala visual que vai de zero a dez pontos. Apenas 3% das mulheres relataram nenhuma dor. Outros 15% sentiram dor leve. Os números crescem a partir daí: 27% experimentaram dor moderada, e 54% sofreram com dor severa. Mulheres mais jovens e aquelas sem partos anteriores tenderam a relatar mais desconforto. Mulheres que passaram por cesariana agendada também sentiram dor mais intensa — possivelmente porque cicatrizes do procedimento podem estreitar o canal vaginal.

Apesar da frequência alarmante da dor, apenas 6% das pacientes no estudo receberam algum tipo de medicação antes da inserção. Quando usados, os medicamentos incluíram antiespasmódicos, anti-inflamatórios não esteroides e analgésicos. Opioides foram praticamente inexistentes. O serviço analisado não tinha um protocolo padronizado para controle da dor; a decisão de prescrever medicamentos era feita individualmente pelos profissionais, geralmente entre 15 e 60 minutos antes do procedimento. A realidade na rede pública é ainda mais restritiva: apenas 20% das Unidades Básicas de Saúde oferecem a colocação do DIU, e o uso de anestésicos locais não é rotina. Centros de referência como a Unicamp oferecem anestesia em alguns casos, mas a prática é muito mais comum na rede privada.

O Brasil oferece apenas o DIU de cobre na rede pública. O DIU hormonal, que tem eficácia ligeiramente superior, não está disponível no SUS. Os agendamentos para o procedimento podem levar meses, e quando a sedação é necessária — um cenário raro — exige internação em centro cirúrgico, o que aumenta drasticamente os custos. Luis Bahamondes, co-orientador do estudo, rejeita a sedação em larga escala. A Unicamp realiza mais de quatro mil inserções de DIU por ano; internar essa quantidade de pessoas seria economicamente inviável e transformaria um procedimento ambulatorial simples em uma operação de centro cirúrgico. Na instituição, apenas cerca de quatro mulheres por ano são levadas ao centro cirúrgico — aquelas com o colo muito fechado.

Os pesquisadores observam que profissionais de saúde podem subestimar a intensidade da dor relatada pelas pacientes, influenciando tanto o aconselhamento quanto a oferta de medidas para reduzir o desconforto. Apesar da dor frequente, as taxas de aceitação do DIU permanecem altas quando o método é oferecido sem custo. Isso ocorre principalmente porque o DIU é de longa duração — o de cobre dura 12 anos — e tem eficácia superior a 99% na prevenção da gravidez. Mas a adesão ao método no Brasil ainda está entre as mais baixas do país: apenas 4% a 5% das mulheres usam DIU, enquanto 40% usam pílula e 25% recorrem à laqueadura.

A autora do estudo, Ana Luiza Savi, enfatiza que a dor não é o único obstáculo. A baixa utilização do DIU resulta de uma combinação de fatores: dificuldades de acesso, falta de profissionais treinados, ausência do DIU hormonal na rede pública, alto custo em serviços privados, desinformação e mitos sobre quem pode usar o método. Savi destaca também que o DIU pode ser usado como contracepção de emergência até cinco dias após relação sexual desprotegida — informação pouco conhecida — e que o dispositivo é pouco usado no pós-parto imediato. A adoção do método na rede pública ainda é inicial; a portaria que estabeleceu o DIU de cobre na oferta do SUS foi publicada apenas no final de 2017, e os serviços de planejamento familiar foram severamente impactados pela pandemia de COVID-19.

Bahamondes defende que o DIU hormonal seja oferecido em maior quantidade de unidades de referência pelo país, sem necessidade de agendamento prévio. Ele argumenta que uma única unidade por região nas capitais já tornaria o processo menos demorado. Para isso, mais profissionais precisariam ser treinados, incluindo enfermeiros. Ele critica a posição do Conselho Federal de Medicina, que se opõe à inserção por enfermeiros, atribuindo isso a uma reserva de mercado. Na Suécia, Chile, Peru e em países africanos, enfermeiros colocam DIU com segurança equivalente à de médicos. Bahamondes também defende a distribuição de cartilhas informando sobre anti-inflamatórios antes do procedimento e anestésicos em gel e spray. Na prática, muitas mulheres acabam optando por outros métodos devido à demora ou engravidam antes do agendamento chegar — que pode levar cerca de quatro meses. No Brasil, aproximadamente 55% das gestações não são planejadas.

Organizações internacionais começaram a reconhecer a realidade da dor. Em 2025, o Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas publicou orientações recomendando que médicos considerem estratégias para minimizar a dor durante procedimentos ginecológicos em consultório, incluindo inserção de DIU. A Organização Mundial de Saúde também atualizou suas recomendações para incluir a oferta rotineira de medicamentos que facilitem o procedimento. No Brasil, porém, o manual do Ministério da Saúde continua afirmando que nenhuma intervenção demonstrou reduzir de forma comprovada a dor da inserção. Os pesquisadores da Unicamp argumentam que atualizar as diretrizes nacionais, oferecer informações mais realistas sobre o procedimento e ampliar as opções de manejo da dor podem melhorar a experiência das pacientes e reduzir barreiras ao uso do método contraceptivo.

Enfermeiro pode colocar DIU, mas o Conselho Federal de Medicina é contra por uma reserva de mercado. Muitos estudos mostram que a colocação por enfermeiros e médicos tem taxas de segurança iguais.
— Luis Bahamondes, co-orientador do estudo
A dor durante a inserção não deve ser vista como o único motivo para a baixa utilização do método no Brasil. A adesão ao DIU é influenciada por uma combinação de fatores.
— Ana Luiza Savi, autora do estudo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que essa discrepância entre o que o Ministério da Saúde diz e o que o estudo encontrou é tão importante?

Model

Porque afeta diretamente como as mulheres são preparadas para o procedimento. Se você é informada de que menos de 5% das pessoas sentem dor intensa, e depois sente, você se sente enganada. Além disso, essa subestimação justifica a falta de investimento em anestésicos e medicações.

Inventor

E por que apenas 6% das mulheres receberam medicação antes da inserção?

Model

Não havia protocolo padronizado. A decisão era individual, feita pelos profissionais minutos antes do procedimento. Sem diretrizes claras dizendo que a dor é frequente e deve ser prevenida, muitos profissionais simplesmente não prescrevem nada.

Inventor

Mas se a dor é tão intensa, por que as mulheres continuam aceitando o DIU?

Model

Porque funciona. O DIU dura 12 anos e é mais de 99% eficaz. Uma mulher que sente dor severa por alguns minutos, mas sabe que não precisa pensar em contracepção pelos próximos 12 anos, faz as contas e aceita. A dor é curta; a proteção é longa.

Inventor

Por que o Brasil não oferece o DIU hormonal no SUS?

Model

Não está claro no estudo, mas a realidade é que o DIU de cobre foi adicionado ao SUS apenas em 2017. O hormonal é mais caro e mais recente nas políticas públicas. Há também questões de orçamento e prioridades.

Inventor

E a questão dos enfermeiros — por que não podem colocar DIU?

Model

Tecnicamente podem, e fazem em vários países com segurança comprovada. Mas no Brasil, o Conselho Federal de Medicina se opõe. Bahamondes é direto: é reserva de mercado. Treinar enfermeiros aumentaria o acesso, reduziria filas, mas diminuiria a demanda por médicos.

Inventor

Então o que precisa mudar?

Model

Tudo junto: atualizar as diretrizes para reconhecer a dor, oferecer anestésicos rotineiramente, treinar mais profissionais incluindo enfermeiros, disponibilizar o DIU hormonal, e eliminar a necessidade de agendamento. Sozinho, nenhum desses passos resolve. Juntos, transformam o acesso.

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