Maioria dos presidenciáveis apoia petróleo e gás; transição energética carece de cronograma

Nenhum plano apresenta um roteiro efetivo para a transição energética
Especialista em política climática critica a falta de cronograma nos programas dos candidatos presidenciais.
Mark

Como assim oito candidatos apoiam petróleo e gás se estamos em 2026 e a crise climática é urgente?

Mimi

Porque a maioria dos candidatos vê o petróleo como fonte de receita para financiar a transição. É a lógica de explorar enquanto há preço alto e usar os lucros para investir em renováveis.

Luke

Mas isso funciona? Os royalties já são pagos há décadas e não geraram uma economia desvinculada dos fósseis.

Mimi

Exatamente. Rosana Santos questiona se dessa vez seria diferente. É um risco real.

Mark

E quanto aos candidatos que defendem energias limpas?

Mimi

Nove dos doze mencionam investimentos em renováveis. Mas aqui está o problema: faltam cronogramas. Nenhum plano detalha como e quando sair dos fósseis.

Luke

Então é possível que um candidato diga que apoia renováveis e ao mesmo tempo abra novos campos de petróleo?

Mimi

Sim. Samara Martins, pela UP, faz exatamente isso. Apoia ampliação de petróleo e transição simultaneamente.

Mark

Qual é a posição mais clara contra os fósseis?

Mimi

Hertz Dias, pelo PSTU. Ele se opõe à exploração na Foz do Amazonas, quer fim dos leilões e rejeita aumento de fósseis na matriz.

Luke

Mas ele é um candidato com chance real de ganhar?

Mimi

Não. Ele é um dos candidatos menores. Os principais — Lula, Flávio, Caiado — todos querem manter ou expandir petróleo e gás.

Mark

Então a transição energética não é prioridade para ninguém?

Mimi

Não é prioridade com cronograma. Especialistas alertam que os planos carecem de detalhamento. Sem prazos, sem metas claras, é fácil prometer tudo.

  • Oito dos doze candidatos à presidência defendem combustíveis fósseis ao mesmo tempo em que nove prometem investir em energias renováveis — uma ambiguidade que especialistas chamam de ausência de estratégia real.
  • Nenhum plano de governo apresenta cronograma efetivo para a transição energética, o que leva pesquisadores a concluir que os candidatos não tratam a pauta climática como prioridade central.
  • A proposta de Lula de usar lucros do petróleo para financiar a descarbonização é questionada por especialistas, que apontam que royalties pagos há décadas não geraram economias independentes dos fósseis.
  • Flávio Bolsonaro vai além e propõe liberar o fracking, técnica considerada altamente degradadora, enquanto Hertz Dias surge como única voz a se opor explicitamente à expansão da exploração de petróleo e gás.
  • O risco apontado por especialistas é a criação de uma armadilha: ao incentivar adaptações industriais ao gás natural sem um plano de saída, o Brasil pode tornar a dependência estrutural e irreversível.

Em um momento em que o clima exige escolhas históricas, a maioria dos candidatos à presidência do Brasil opta por manter ou ampliar a produção de petróleo e gás, enquanto abraça, em paralelo, o discurso das renováveis. O levantamento da Folha revela não uma contradição acidental, mas uma tensão estrutural: a promessa de usar os lucros dos fósseis para financiar a transição, sem que nenhum plano apresente o roteiro concreto de como sair dessa dependência. É a velha aposta de atravessar o rio sem largar a margem.

Doze candidatos disputam a presidência, e oito deles defendem propostas para manter ou expandir a produção de petróleo e gás — ao mesmo tempo em que nove prometem investimentos em fontes renováveis. O levantamento da Folha, baseado nos planos entregues ao TSE e nas respostas das campanhas, revela uma contradição que vai além da retórica: nenhum candidato apresenta um roteiro concreto para a transição energética.

Taciana Stec, do Instituto Talanoa, resume o problema: os planos carecem de cronograma efetivo, o que indica que a pauta climática ainda não é tratada como central. Lula promete substituição progressiva de fósseis por biocombustíveis e participação no debate internacional sobre abandono do petróleo, mas sua campanha reconhece que o país continuará produzindo. Rosana Santos, do Instituto E+ Transição Energética, critica a lógica de explorar até a última gota para financiar a descarbonização: a intenção é boa no papel, mas falta detalhamento. Ela questiona se royalties pagos há décadas realmente geraram economias desvinculadas dos fósseis.

Flávio Bolsonaro propõe um Programa Nacional de Segurança Energética centrado em refino e transporte de combustíveis, sem mencionar redução na produção, e inclui a liberação do fracking — técnica que especialistas consideram ambientalmente arriscada. Augusto Cury apresenta metas mais ousadas: 90% de matriz limpa até 2040 e liderança global em hidrogênio verde até 2035. Ronaldo Caiado chama o petróleo de 'pilar da matriz e motor da transição', enquanto Romeu Zema quer destravar leilões de petróleo e gás ao mesmo tempo que acelera a eletrificação.

O único candidato a se opor explicitamente à expansão dos fósseis é Hertz Dias, do PSTU, que defende o fim dos leilões e é contra a exploração na Foz do Amazonas. O debate central — usar lucros do petróleo para financiar a descarbonização — permanece sem resposta clara: sem garantias de que os royalties gerem uma economia verdadeiramente desvinculada dos combustíveis fósseis, o risco é que o Brasil construa uma dependência do gás natural da qual não consiga mais sair.

Doze candidatos disputam a presidência este ano, e a maioria deles quer manter ou expandir a produção de petróleo e gás natural. É o que revela um levantamento da Folha baseado nos planos de governo entregues ao Tribunal Superior Eleitoral e nas respostas das campanhas. Oito dos doze postulantes apresentam propostas para incentivar os combustíveis fósseis, cuja queima é responsável pelo aquecimento do planeta. Ao mesmo tempo, nove candidatos sugerem políticas para investir em fontes renováveis — eólica, solar, hidrelétrica, hidrogênio verde e biocombustíveis.

O que chama atenção, porém, é a ausência de um cronograma claro. Taciana Stec, especialista em política climática do Instituto Talanoa, observa que nenhum plano apresenta um roteiro efetivo para a transição energética. "É um sinal de que os candidatos não entendem a pauta como algo central", afirma. O presidente Lula, candidato à reeleição pelo PT, promete aumentar a participação de fontes renováveis e a "substituição progressiva de combustíveis fósseis por biocombustíveis e combustíveis de baixa intensidade de carbono". Seu programa também menciona a participação do Brasil no debate internacional sobre o mapa do caminho para abandonar os fósseis, uma posição defendida na COP30. A campanha de Lula esclarece que o país continuará produzindo petróleo e gás, mas afirma que isso não autoriza uma expansão ilimitada — os investimentos devem respeitar o licenciamento ambiental, a viabilidade econômica, as metas climáticas nacionais e o risco de criar infraestruturas incompatíveis com a descarbonização.

Rosana Santos, diretora executiva do Instituto E+ Transição Energética, critica essa abordagem. Ela diz que o plano segue a lógica de explorar até a última gota de petróleo e gás, usando os lucros dos fósseis para financiar a descarbonização. "Esse discurso tem uma boa intenção no papel, mas não tem o detalhamento necessário para que isso aconteça", afirma. Ela questiona se os royalties do petróleo, que já são pagos aos municípios há décadas, realmente geraram uma economia desvinculada dos combustíveis fósseis. Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, aponta as contradições: o plano de Lula fomenta fontes renováveis e tecnologia de baixo carbono, mas continua reconhecendo a importância do petróleo, não aderindo plenamente à eliminação progressiva dos fósseis.

Flávio Bolsonaro, pelo PL, propõe um Programa Nacional de Segurança Energética com foco em refino, processamento e transporte de combustíveis e gás, além de modernizar a rede de transmissão. Seu plano não cita redução na produção de fósseis e sugere "transformar em energia e emprego a nossa riqueza de petróleo e gás". O documento também inclui a liberação do fracking, técnica de extração de gás por injeção de grandes volumes de água e produtos químicos no subsolo. Araújo considera essa escolha equivocada: "Nós temos muitas outras opções para evitar um caminho que é muito degradador e envolve muitos riscos ambientais". Santos alerta para um risco comum nas propostas de Lula e Flávio: podem estimular a indústria a investir em adaptações para o gás natural sem planejar a redução no uso do combustível. "O perigo é a gente não conseguir sair da armadilha de usar o gás, porque incentivamos agora sem um plano de como sair disso lá na frente."

Augusto Cury, pelo Avante, apresenta metas mais ambiciosas: alcançar 90% da matriz energética limpa até 2040 e colocar o país entre os três maiores exportadores de hidrogênio verde até 2035. Seu plano inclui ampliação de investimentos em energia solar, eólica, biomassa e pequenas centrais hidrelétricas, além de um programa de compensação ambiental. A campanha de Cury afirma que o candidato é contrário à abertura de novas frentes de exploração de carvão e defende uma redução progressiva da dependência de fósseis, embora reconheça a importância de explorar o petróleo enquanto os preços estão elevados.

Ronaldo Caiado, pelo PSD, chama o petróleo de "pilar da matriz, motor da transição" e propõe uma estratégia energética com horizonte de 30 anos integrando eletricidade, petróleo, gás e minerais. Romeu Zema, pelo Novo, propõe "destravar investimentos em petróleo e gás" com um calendário regular de leilões, ao mesmo tempo que sugere alavancar a energia limpa e acelerar a eletrificação. Renan Santos, pela Missão, menciona o hidrogênio verde mas também propõe a criação do Polo Industrial de Suape em Pernambuco abastecido com gás natural. Edmilson Costa, pelo PCB, defende reduzir a geração de energia pela queima de fósseis durante a transição, com um fundo financiado pelos lucros do petróleo. Samara Martins, pela UP, apoia a ampliação da capacidade produtiva de petróleo simultaneamente a um programa de transição.

Hertz Dias, pelo PSTU, é o candidato que mais se opõe aos combustíveis fósseis. Ele se manifesta contra a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, defende o fim dos leilões e é contrário ao aumento da participação de fósseis na matriz energética. Os planos de Rui Costa Pimenta, pelo PCO, e Clariana Barão, pela DC, não citam propostas específicas para a transição. Wilson Grassi, pelo Democrata, menciona apenas o uso de fontes renováveis para atrair indústrias. A reportagem procurou essas campanhas, mas não houve respostas até a publicação.

Não consigo enxergar ainda um cronograma efetivo para a transição energética em nenhum plano de governo. É um sinal de que os candidatos não entendem a pauta como algo central.
— Taciana Stec, especialista em política climática do Instituto Talanoa
O perigo é a gente não conseguir sair da armadilha de usar o gás, porque incentivamos agora sem um plano de como sair disso lá na frente.
— Rosana Santos, diretora executiva do Instituto E+ Transição Energética
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