Mais da metade das brasileiras sente impacto das apostas online, seja jogando ou arcando com consequências do vício de familiares. Mães apostam não para enriquecer, mas para pagar contas básicas como aniversário dos filhos, material escolar e alimentação.
Mães endividadas apostam online em busca de renda extra, revela estudo
Elas apostam para pagar o bolo, para ter uma vida digna
Por que as mães apostam mais que as mulheres sem filhos, se o jogo é teoricamente um lazer?
Porque para elas não é lazer. É uma tentativa de fechar as contas do mês. Quando você tem filhos e não tem dinheiro para o bolo de aniversário, o material escolar, a comida, as apostas aparecem como um atalho rápido. É desesperado, não é recreativo.
E por que as mulheres caem nisso mais facilmente que os homens?
Porque historicamente o jogo era coisa de homem — associado ao provedor, ao risco calculado. Mas quando as mulheres também precisam prover, elas procuram o jogo com a mesma função. A pressão financeira não discrimina por gênero.
O cassino digital é realmente mais perigoso que as apostas esportivas?
Muito mais. Na aposta esportiva você faz a aposta e espera o jogo acontecer — há um intervalo. No cassino online é imediato, contínuo, você pode jogar de novo em segundos. É uma porta de entrada muito mais rápida para o vício.
Quando uma mãe percebe que tem um problema, ela consegue parar?
Mais difícil que uma mulher solteira. Porque para a mãe, o jogo não é só um vício — é uma falha no papel que lhe foi atribuído. Ela se sente falhando como mãe. A vergonha é muito maior, o custo emocional é muito maior.
Então as restrições que o governo está colocando — como o intervalo entre apostas — resolvem?
Atenuam, mas não resolvem. Se ela é hábil, abre outro link, e outro, e outro. Você precisa atacar por que ela está apostando: a pressão financeira, a falta de dinheiro para viver com dignidade.
E qual é a saída?
Investimento na origem do problema. Não é sobre estar num jogo. É sobre dar às mulheres uma vida que não seja apenas sobrevivência. Enquanto isso não acontecer, as apostas vão continuar sendo o atalho que elas procuram.
Le Pouls
- 42% das brasileiras apostam ou já apostaram em plataformas online
- Mães apostam 1,6 vez mais que mulheres sem filhos
- Bianca Araújo perdeu mais de R$ 500 mil entre 2021 e 2023
- Cassinos digitais oferecem retorno imediato, diferente das apostas esportivas
Mais da metade das brasileiras sente impacto das apostas online, seja jogando ou arcando com consequências do vício de familiares. Mães apostam não para enriquecer, mas para pagar contas básicas como aniversário dos filhos, material escolar e alimentação.
Estudo revela que 42% das brasileiras apostam ou já apostaram em plataformas online, com mães tendo 1,6 vez mais probabilidade de jogar que mulheres sem filhos. O fenômeno está ligado à pressão financeira e à busca por renda complementar para sustentar a família.
Mais da metade das mulheres brasileiras já sente o peso das apostas online em suas vidas — seja porque jogam, seja porque arcam com as contas de quem joga. Um estudo divulgado pela Clarice, em parceria com o Instituto Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA, revelou que 42% das brasileiras apostam ou já apostaram em plataformas digitais. Outras 12%, que nunca tocaram em um jogo de azar online, sofrem as consequências do vício de parceiros ou parentes. O levantamento combinou vinte grupos de discussão com sessenta participantes e uma pesquisa nacional com dois mil entrevistados realizada em julho.
O que distingue as mães é a intensidade. Entre as mulheres que apostam, aquelas com filhos jogam aproximadamente 1,6 vez mais do que as sem filhos — um padrão que sugere algo distinto do lazer ou da adrenalina. Para essas mães, as apostas funcionam como uma tentativa desesperada de fechar as contas do mês. Beatriz Della Costa, cofundadora da Clarice e uma das porta-vozes do estudo, é clara sobre isso: as mulheres não apostam para viver como influenciadores milionários conhecidos por contratos publicitários com casas de apostas. Elas apostam para pagar o bolo de aniversário do filho, para comer num restaurante japonês, para pedir um delivery, para comprar material escolar. É como se fosse uma terceira fonte de renda — a promessa de um atalho para uma vida que deixe de ser apenas sobrevivência.
Esse fenômeno não é acidental. O jogo de azar online foi legalizado no Brasil em 2018, ganhou força durante a pandemia de Covid e capturou mais de dez bilhões de reais das famílias brasileiras pela primeira vez em 2021, segundo a consultoria H2 Gambling Capital. Entre 2019 e 2025, quando o mercado funcionava sem regras de publicidade ou prevenção ao vício, influenciadores anunciavam caça-níqueis como fonte de renda extra nas redes sociais, acompanhados de falsas estratégias vencedoras. A camada de mulheres que se tornou mais vulnerável perdeu renda, emprego e estabilidade justamente no momento em que as plataformas ofereciam a promessa de dinheiro rápido. As apostas chegaram como um complemento de renda fácil num momento de desespero.
Bianca Araújo, 38 anos, de Santa Catarina, conheceu as apostas online através do ex-marido e das redes sociais — um cenário comum segundo o relatório. Entre 2021 e 2023, o jogo a custou o casamento, as economias e a moradia. Ela perdeu mais de quinhentos mil reais em dinheiro, pegou empréstimos tanto no CNPJ quanto no CPF, vendeu uma caminhonete Ford Ranger por duzentos e dez mil reais e gastou cento e cinquenta mil em uma semana. Começou com apostas esportivas que pareciam vencedoras, avaliou que poderia ter uma fonte de renda, passou 2021 entre ganhos e perdas enquanto mantinha um negócio paralelo de venda de cursos. Em 2022, o saldo começou a cair. No fim daquele ano, ela e o ex-marido venderam móveis porque não tinham dinheiro nem para voltar à casa da família. Depois de uma recaída em meados de 2023, decidiu parar quando faltou dinheiro para o aluguel. Há três anos mantém-se abstêmia, mas carrega as cicatrizes: crises de pânico, dores no corpo, o coração acelerado pela preocupação.
O psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, responsável pelo ambulatório de tratamento de dependências de comportamentos do Proad na Unifesp, vê nesse crescimento uma mudança no papel social feminino. Historicamente associado aos homens e à ideia de provedor, o jogo passa a ser procurado também por mulheres que enfrentam a pressão de conseguir dinheiro para sustentar a casa ou atender às necessidades dos filhos. À medida que as mulheres entram nesse perfil de provedora, elas também correm atrás do jogo com essa função. Vieira Júnior ressalva, porém, que é preciso diferenciar o aumento do número de pessoas que jogam daquelas que desenvolvem um comportamento problemático ou uma dependência. O uso está crescendo, o uso problemático também está crescendo, mas nem todo uso é um problema.
O custo emocional para as mães é particularmente alto. Segundo o relatório da Clarice, mulheres solteiras têm mais facilidade para reconhecer o problema e abandonar o jogo. As mães relatam menos vergonha ao apostar inicialmente e recorrem mais raramente à sensação de estarem fazendo algo errado — até que o problema se agrava. Quando isso acontece, a vergonha é intensa porque elas estão colocando em risco o papel social que lhes foi atribuído. Elas se sentem falhando como mães. O relatório recomenda restringir primeiro os cassinos digitais, a modalidade mais usada pelas mulheres e a mais viciante justamente por seu retorno imediato. As apostas esportivas têm um processo mais longo — você faz a aposta e espera o jogo acontecer. O cassino online é muito mais rápido, muito mais acessível, e é uma porta de entrada muito mais rápida para o vício.
Viviane, 49 anos, assistente administrativa de São Paulo, viu sua filha de 23 anos cair nessa armadilha. A jovem começou a apostar há cerca de cinco anos após perder o emprego e ser incentivada por colegas. A situação se agravou quando pegou dinheiro com um agiota que conheceu pela internet. Depois de não conseguir quitar a dívida, o homem descobriu os dados e o endereço da família e passou a fazer cobranças. Viviane entrou em desespero, teve que falar com o chefe e pegar dinheiro para pagar o agiota. A mudança começou este ano quando o irmão da jovem descobriu que era possível bloquear o CPF para impedir o acesso às apostas. Ele fez o bloqueio e orientou a irmã a fazer o mesmo. A filha está há cinco ou seis meses sem jogar, mas as consequências financeiras permanecem: a família continua pagando dívidas, com cerca de cinco mil reais ainda restando. Viviane passou muito nervoso, muito, muito, muito. Teve hora de lhe dar desespero.
Para Beatriz Della Costa, qualquer resposta institucional precisa atacar a raiz do problema: a pressão financeira que empurrou essas mulheres para as plataformas. Medidas recentes de restrição, como o intervalo obrigatório entre apostas, atenuam o problema, mas não o resolvem. Se uma mulher é hábil, abre outro link, e outro, e outro. O que os dados revelam é claro: não é para enriquecer, é para ter uma vida digna.
Citations marquantes
Elas apostam para pagar o bolo do aniversário, para ir comer num japonês, para pedir um delivery, para comprar material escolar. É como se fosse a terceira renda.— Beatriz Della Costa, cofundadora da Clarice
É uma doença mesmo, uma loucura. O tamanho do prejuízo foi mais de R$ 500 mil em dinheiro.— Bianca Araújo, vítima de dependência em apostas