Mãe Rainha das Trevas ergue estátua de 11 metros ao Diabo no Ceará

Eu falo o nome demônio com muito amor, pois os demônios são bons
Mãe Rainha das Trevas descreve sua relação com a figura central de sua fé, rejeitando interpretações pejorativas.
Mark

Por que escolher justamente uma estátua de 11 metros? Por que não algo menor, mais discreto?

Mimi

Acho que para ela não se trata de discrição. É uma declaração. Ela já enfrentou preconceito na Casa dos Caixões, já foi criticada. Agora ela tem 800 mil pessoas acompanhando. A estátua é visível, é permanente, é um ato de afirmação.

Mark

E quanto ao dinheiro — R$ 100 mil é bastante. Como ela justifica esse investimento?

Mimi

Ela enfatiza que é dinheiro dela, que ela não pediu a ninguém. É importante para ela deixar claro que não há financiamento externo, que ela não está usando recursos públicos ou de terceiros. É um ato de autonomia religiosa.

Mark

A quimbanda é realmente tão marginalizada quanto parece?

Mimi

Segundo Barok, sim. Ela foi historicamente vista como o lado ruim da Umbanda, como um culto do mal. Mas ele diz que isso é uma história inventada por preconceito. A quimbanda busca evolução espiritual, não o oposto.

Mark

E essa ideia de reencarnação como castigo — como isso funciona na prática?

Mimi

É uma visão bem diferente. Para eles, reencarnar é voltar a sofrer, a sentir dor. O objetivo é evoluir espiritualmente para não precisar voltar. É quase uma fuga, uma libertação.

Mark

Ela realmente acredita que políticos a procuram?

Mimi

Ela diz que sim, que a chamam de Feiticeira dos Políticos. Se é verdade ou não, ela apresenta isso como parte de sua identidade pública. É interessante que ela se posicione dessa forma.

Mark

E se a estátua for vandalizada?

Mimi

Ela disse que não teme. Sua comunidade a respeita, ela diz. Mas é uma resposta que soa mais esperançosa do que realista, dado o preconceito que ela mesma reconhece enfrentar.

  • Uma estátua de 11 metros dedicada ao Diabo surge no litoral do Ceará, e o choque cultural é imediato — nas redes sociais, nos comentários e nas ruas da comunidade.
  • A feiticeira investiu R$ 100 mil do próprio bolso e obteve todas as licenças necessárias, tornando juridicamente impossível contestar a obra por vias legais.
  • A quimbanda, frequentemente reduzida ao papel de 'culto do mal', reivindica raízes bantas e uma teologia própria centrada na evolução espiritual — não na adoração do mal.
  • Mãe Rainha das Trevas já enfrentou preconceito desde a época da Casa dos Caixões em Fortaleza, e a estátua representa a continuidade de uma resistência que dura décadas.
  • A estátua permanece de pé, monumental e visível, enquanto o debate sobre liberdade religiosa e tolerância segue sem resolução clara na sociedade brasileira.

No litoral cearense, uma feiticeira ergueu uma estátua de 11 metros dedicada ao Diabo — não como ato de provocação, mas como expressão de uma fé ancestral que há séculos busca seu lugar entre as religiões reconhecidas. Mãe Rainha das Trevas, com quase 800 mil seguidores e décadas de prática da quimbanda, cumpriu cada exigência legal antes de inaugurar a obra em sua propriedade particular, desafiando a marginalização com concreto, licenças e convicção. O monumento levanta questões que transcendem o escândalo: o que uma sociedade revela sobre si mesma quando decide quais símbolos sagrados merecem respeito?

No litoral do Ceará, numa propriedade na Taíba, uma estátua de 11 metros dedicada ao Diabo foi inaugurada no dia 25 de julho — data que também marcou os 29 anos do Palácio Estrela Negra da Quimbanda. Quem a ergueu é Mãe Rainha das Trevas, feiticeira com quase 800 mil seguidores no Instagram e décadas de prática religiosa.

A obra custou cerca de R$ 100 mil, pagos integralmente pela própria feiticeira, sem contribuições externas. Antes de iniciar a construção, ela obteve licenças da Prefeitura de São Gonçalo do Amarante e autorização do Governo do Estado, já que a área está numa Zona de Proteção Ambiental. A prefeitura confirmou que tudo está em conformidade com as normas urbanísticas e ambientais.

O preconceito não é novidade para ela. Antes de se instalar na Taíba, Mãe Rainha das Trevas mantinha em Fortaleza a Casa dos Caixões, um espaço inteiramente pintado de preto que abrigava quatro caixões. As críticas começaram ali, muito antes da estátua existir. Hoje, o Palácio Estrela Negra abre suas portas uma vez por mês para giras que reúnem entre 200 e 300 pessoas, e ela também realiza doações anuais de carne e brinquedos para crianças.

A quimbanda, que ela pratica e ensina, é um culto ancestral de transmissão oral, sem texto sagrado. Barok, um Tata N'ganga — título de mestre ritualista e sacerdote supremo —, explica que a associação da quimbanda ao mal é uma narrativa construída pelo preconceito. O nome vem dos povos bantos, que chamavam seus curandeiros de kimbanda. Um dos pilares da fé é a reencarnação vista como ciclo de sofrimento a ser superado: evoluir espiritualmente significa não precisar retornar a este mundo.

Mãe Rainha das Trevas fala dos demônios com afeto e diz não temer pela integridade da estátua. Sua comunidade, afirma ela, conhece e respeita sua fé. O monumento permanece de pé — símbolo concreto de uma prática religiosa que continua reivindicando legitimidade numa sociedade que ainda hesita em concedê-la.

No litoral do Ceará, numa propriedade na Taíba, ergue-se agora uma estátua de 11 metros dedicada ao Diabo. Quem a construiu chama-se Mãe Rainha das Trevas, uma feiticeira que comanda o Palácio Estrela Negra da Quimbanda e reúne quase 800 mil seguidores em seu perfil no Instagram, onde documenta seus rituais e ensina os princípios de sua fé. A obra foi inaugurada no dia 25 de julho, mesma data em que o templo completou 29 anos de existência.

A feiticeira investiu cerca de R$ 100 mil do próprio bolso para materializar o projeto. Ela enfatiza que custeou tudo sozinha, sem ajuda de terceiros, e que a construção ocorreu inteiramente em sua propriedade particular. Um engenheiro civil foi responsável pela execução. Antes de erguer a estátua, ela cumpriu todos os trâmites legais: obteve licenças da Prefeitura de São Gonçalo do Amarante e autorização do Governo do Estado, já que a área situa-se numa Zona de Proteção Ambiental. A prefeitura confirmou que o templo está em conformidade com as normas urbanísticas e ambientais.

Esta não é a primeira vez que Mãe Rainha das Trevas enfrenta resistência por suas práticas religiosas. Antes de se estabelecer na Taíba, ela morou durante quatro anos no bairro Montese, em Fortaleza, onde comandava um local conhecido como Casa dos Caixões. A casa era inteiramente pintada de preto e abrigava quatro caixões em seu interior, onde ela reverenciava sua fé. Os comentários preconceituosos começaram naquela época, muito antes da construção da estátua. Ela recorda que as críticas surgiram quando abriu aquele espaço numa comunidade, com aquela aparência inusitada.

O Palácio Estrela Negra abre suas portas ao público uma vez por mês para as giras, rituais religiosos que reúnem entre 200 e 300 pessoas. Além de suas atividades espirituais, Mãe Rainha das Trevas dedica-se à caridade: doa anualmente toneladas de carne das oferendas rituais e promove doações de centenas de brinquedos no Dia das Crianças. Ela apresenta-se também como a Feiticeira dos Políticos, afirmando ser procurada por diversos parlamentares que buscam sua intercessão para vencer eleições. Sua idade permanece um mistério, conforme ela própria declara.

A quimbanda, prática que ela segue e ensina, é descrita como um culto ancestral que busca a evolução espiritual. Diferentemente de religiões que possuem textos sagrados como a Bíblia ou o Alcorão, a quimbanda transmite seus fundamentos oralmente, sem um livro específico que rege suas normas. Barok, um Tata N'ganga de Quimbanda brasileira (título que designa um mestre ritualista e sacerdote supremo), explica que o culto é frequentemente marginalizado. Muitas pessoas o veem como um culto do mal, uma percepção que Barok considera equivocada.

Historicamente, a quimbanda era interpretada como o lado negativo da Umbanda, o eixo do mal. Barok afirma que essa narrativa foi inventada por pessoas com preconceito. Na verdade, a quimbanda é um culto ancestral voltado para a evolução espiritual. O nome foi tomado emprestado dos povos bantos, que chamavam seus curandeiros de kimbanda — aqueles que praticavam a magia para curar nas aldeias e tribos.

Um dos pilares centrais da quimbanda é a crença na reencarnação, mas com uma interpretação distinta de outras religiões. Na quimbanda, reencarnar é visto como um castigo espiritual, uma maldição — um ciclo em que se morre, desencarna e retorna à terra para viver novamente com todas as dores, emoções e sofrimentos que a vida traz. O objetivo dos praticantes é evoluir espiritualmente dentro da religião para não precisar retornar a este mundo, aspirando tornar-se exus e pomba-giras, seres agraciados no mundo espiritual.

Mãe Rainha das Trevas fala do demônio com amor, afirmando que os demônios são bons e ajudam. Apesar dos ataques virtuais que recebe, ela não teme pela integridade da estátua. Sua comunidade conhece sua fé e a respeita, diz ela ao G1, e ali mantêm a situação do respeito. A estátua permanece de pé, monumental e visível, um símbolo concreto de uma prática religiosa que continua buscando legitimidade e compreensão numa sociedade que frequentemente a marginaliza.

A verba foi toda tirada do meu próprio bolso. Eu fiz ela toda com dinheiro próprio, num local próprio, que é meu
— Mãe Rainha das Trevas
A quimbanda é um culto ancestral no qual a gente busca evolução espiritual
— Barok, Tata N'ganga de Quimbanda brasileira
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