Há espaço para negócio, se Washington estiver disposto a conversar
No limiar de um novo ano, Nicolás Maduro estendeu a mão a Donald Trump com promessas de petróleo e cooperação antinarcóticos, numa tentativa de transformar a linguagem da confrontação em negócio. A oferta surge enquanto forças norte-americanas intensificam operações militares nas Caraíbas — incluindo o primeiro ataque aéreo da CIA em solo venezuelano — e Washington mantém uma recompensa de 50 milhões de dólares pela captura do presidente venezuelano. É o gesto clássico de quem sente a pressão crescer: oferecer o suficiente para que o adversário prefira a mesa de negociações ao campo de batalha.
- A CIA realizou o primeiro ataque aéreo em território venezuelano, destruindo instalações portuárias alegadamente usadas pelo Tren de Aragua — uma escalada que redefine os limites do confronto entre os dois países.
- Nos últimos cinco meses, operações militares norte-americanas nas Caraíbas destruíram 35 embarcações e mataram pelo menos 100 pessoas, classificadas pela ONU como execuções extrajudiciais.
- Maduro, numa entrevista de Ano Novo, rejeitou as acusações de narcotráfico e comparou-as às falsas alegações de armas de destruição maciça que antecederam a invasão do Iraque.
- O presidente venezuelano ofereceu acesso imediato das empresas norte-americanas ao petróleo da Venezuela — incluindo a Chevron — e propôs negociações formais sobre combate ao narcotráfico.
- A oferta de diálogo é também um sinal de fragilidade: o regime sente a pressão das operações americanas e aposta que Trump pode preferir lucros petrolíferos à continuação do confronto militar.
Na noite de Ano Novo, Nicolás Maduro concedeu uma entrevista televisiva ao jornalista espanhol Ignacio Ramonet, aparentemente a bordo de um carro a percorrer Caracas, e fez uma aposta arriscada: seduzir Donald Trump com promessas de petróleo e cooperação antinarcóticos, mesmo enquanto acusava Washington de orquestrar uma guerra disfarçada de combate ao tráfico de drogas.
Maduro rejeitou categoricamente qualquer ligação ao crime organizado, mas reconheceu que a administração Trump o acusa de liderar o Cartel de Los Soles — acusação que Trump monetizou com uma recompensa de 50 milhões de dólares pela sua captura. O presidente venezuelano comparou estas alegações às falsas justificações usadas para invadir o Iraque, argumentando que os Estados Unidos fabricam pretextos para o que realmente desejam: acesso ao petróleo, ouro e terras raras venezuelanas.
Em vez de confrontação direta, Maduro estendeu a mão. Disse-se pronto para negociações sérias sobre narcotráfico, desde que houvesse racionalidade e diplomacia, e ofereceu acesso imediato das empresas norte-americanas ao petróleo venezuelano — mencionando especificamente a Chevron. Confirmou que a última conversa com Trump ocorrera a 21 de Novembro, por telefone.
O timing foi delicado. Dias antes, o New York Times revelara que a CIA realizara a primeira operação aérea em território venezuelano, usando drones para destruir instalações portuárias alegadamente usadas pelo Tren de Aragua. Questionado sobre o ataque, Maduro limitou-se a afirmar que as suas forças garantiam a integridade territorial do país.
O contexto é de escalada sem precedentes: nos últimos cinco meses, os EUA destruíram 35 embarcações e mataram pelo menos 100 pessoas em operações nas Caraíbas que a ONU classificou como execuções extrajudiciais. No dia 1 de Janeiro, Washington anunciou o ataque a mais duas embarcações e a morte de cinco pessoas descritas como narcoterroristas — sem apresentar provas concretas.
A estratégia de Maduro é transparente: oferecer o suficiente para que Trump considere a negociação mais lucrativa do que a confrontação, enquanto rejeita as acusações que fundamentam a presença militar americana na região. É o gesto de quem sente a pressão crescer — e aposta que o adversário pode preferir negócios a batalhas. O que Trump fará com esta oferta permanece em aberto.
Na noite de Ano Novo, Nicolás Maduro sentou-se numa entrevista televisiva com o jornalista espanhol Ignacio Ramonet, aparentemente ao volante de um carro que percorria as ruas de Caracas, e fez uma aposta arriscada: tentar seduzir Donald Trump com promessas de petróleo e cooperação contra o tráfico de drogas, mesmo enquanto acusava os Estados Unidos de orquestrar uma guerra disfarçada de combate ao narcotráfico.
O presidente venezuelano rejeitou categoricamente qualquer envolvimento com o crime organizado, mas reconheceu que Washington o acusa de liderar o Cartel de Los Soles — uma acusação que Trump já monetizou com uma recompensa de 50 milhões de dólares pela sua captura. Maduro comparou estas acusações às falsas alegações de armas de destruição maciça que justificaram a invasão do Iraque, argumentando que os Estados Unidos simplesmente inventaram um pretexto porque não conseguem encontrar outras justificações legais para o que realmente querem: acesso ao petróleo, ouro e terras raras venezuelanas. A estratégia, segundo Maduro, é de intimidação pura, disfarçada de operações de segurança.
Mas em vez de confrontação direta, Maduro estendeu a mão. Disse-se pronto para negociações sérias sobre um acordo de combate ao narcotráfico, desde que houvesse "racionalidade e diplomacia". Ofereceu também acesso imediato das empresas norte-americanas ao petróleo venezuelano — mencionando especificamente a Chevron — em qualquer condição que Trump desejasse. Confirmou que a última conversa com o presidente americano tinha ocorrido a 21 de Novembro, por telefone. A mensagem era clara: há espaço para negócio, se Washington estiver disposto a conversar.
O timing da entrevista, porém, foi delicado. Dias antes, o New York Times havia revelado que a CIA tinha realizado a primeira operação aérea dos EUA dentro do território venezuelano, usando drones para destruir instalações portuárias que alegadamente o Tren de Aragua usava para armazenar e expedir drogas. Maduro não respondeu diretamente sobre este ataque quando questionado, limitando-se a afirmar que as suas forças de defesa garantiam a integridade territorial e a paz no país.
Esta oferta de diálogo surge num contexto de escalada militar sem precedentes. Nos últimos cinco meses, os Estados Unidos destruíram 35 embarcações e mataram pelo menos 100 pessoas em operações nas Caraíbas que a ONU classificou como execuções extrajudiciais. No dia 1 de Janeiro, os EUA anunciaram o ataque a mais duas embarcações e a morte de cinco pessoas que descreveram como "narcoterroristas". A administração Trump justificou este maior destacamento de navios de guerra e militares para as Caraíbas como necessário para eliminar alegados traficantes de droga, embora nunca tenha apresentado provas concretas de que as pessoas mortas fossem efetivamente traficantes.
Maduro argumentou que a Venezuela tem "um modelo exemplar e muito eficaz" de combate ao narcotráfico, e que tudo o resto é narrativa que nem os próprios Estados Unidos acreditam. Apelou também à comunidade internacional para encontrar respostas que travem o que considera uma violação do direito internacional. A sua estratégia parece ser a de oferecer suficiente para que Trump considere a negociação mais lucrativa do que a confrontação, enquanto simultaneamente rejeita as acusações que fundamentam a presença militar americana na região.
O que fica claro é que Maduro está numa posição defensiva, apesar da retórica agressiva. As operações americanas intensificaram-se, incluindo agora ataques diretos em solo venezuelano. A oferta de petróleo e cooperação é um sinal de que o regime sente a pressão. Mas também é um cálculo: se conseguir convencer Trump de que há mais a ganhar com negócios do que com confrontação, talvez consiga ganhar tempo e espaço para manobra política. O que Trump fará com esta oferta permanece em aberto.
Notable Quotes
Se quiserem petróleo da Venezuela, a Venezuela está pronta para investimentos americanos, como com a Chevron, quando quiserem, onde quiserem e como quiserem— Nicolás Maduro
É preciso começar a conversar a sério, com dados concretos. Se quiserem conversar seriamente sobre um acordo de combate ao narcotráfico, estamos prontos— Nicolás Maduro
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que Maduro escolheu este momento, precisamente agora, para fazer estas ofertas a Trump?
Porque a situação está a deteriorar-se rapidamente. Os ataques americanos escalaram de operações no mar para drones dentro do seu próprio território. Maduro está a tentar mudar o jogo antes que se torne irreversível.
Mas ele nega qualquer ligação ao narcotráfico. Como é que oferece uma parceria contra o tráfico se diz que não tem nada a ver com isso?
Exatamente. É uma contradição intencional. Ele está a dizer: "Vocês sabem que isto é falso, eu sei que é falso, mas vamos fingir que é verdade e fazer negócio de qualquer forma."
E Trump vai aceitar?
Depende se Trump vê mais valor em petróleo barato do que em confrontação. Maduro está a apostar que sim. Mas a CIA já entrou em território venezuelano. Isso muda as regras.
O que significa que a diplomacia pode estar já morta?
Ou significa que Maduro está desesperado o suficiente para tentar ressuscitá-la. A entrevista é um último apelo antes que as coisas se tornem irreversíveis.
E as 100 pessoas mortas nos últimos cinco meses?
Desaparecem da narrativa. Para Maduro, são danos colaterais de uma guerra que ele nega estar a acontecer. Para Trump, são narcoterroristas. Ninguém está a contar histórias sobre quem realmente eram.