Madeiras brasileiras conquistam mercado global de bebidas premium

O carvalho que se cuide
Reflexão sobre como madeiras nativas brasileiras estão desafiando séculos de hegemonia do carvalho no envelhecimento de bebidas premium.
Mark

Por que agora? A cachaça já usava essas madeiras há tempos. O que mudou?

Mimi

A cachaça abriu o caminho, mas os produtores de uísque, rum e vinho estavam presos à tradição do carvalho. Quando começaram a experimentar, descobriram que essas madeiras brasileiras criam perfis de sabor completamente diferentes — mais especiarias, mais frescor, mais complexidade.

Luke

Mas quanto disso é realmente novo e quanto é marketing? Um uísque com 94,5 pontos é impressionante, mas Jim Murray é uma pessoa. Quantos outros críticos internacionais validaram isso?

Mimi

É verdade que é um crítico, mas a Jim Murray's Whisky Bible é uma referência global. E o fato de que os primeiros 10,1 mil garrafas esgotaram sugere que não é só hype — há demanda real.

Mark

E a sustentabilidade? Essas madeiras vêm de florestas nativas. Não há risco?

Mimi

Há controles. O Documento de Origem Florestal rastreia cada tora desde a floresta até a serraria. Os fornecedores não podem ter pendências com o Ibama.

Luke

Mas o DOF é um documento. Não garante que a floresta não está sendo degradada — apenas que o papel está em ordem. Quantas árvores estão sendo cortadas por ano? Ninguém mencionou números.

Mimi

Justo. O que sabemos é que os tanoeiros trabalham com fornecedores específicos e acompanham pessoalmente o processo. Mas você está certo — não há transparência sobre volume.

Mark

Esses produtores franceses e internacionais que estão usando madeiras brasileiras — eles estão realmente convencidos ou apenas buscando diferenciação?

Mimi

Gaspar Desurmont trabalhou com 15 espécies. Não parece experimentação superficial. E o fato de que restaurantes como o Tuju, triestrelado, colocam esses vinhos na carta sugere que o sabor é real.

Luke

Ou que a história é boa. Uma vinícola que usa madeira nativa brasileira é mais interessante de contar do que uma que usa carvalho francês.

Mimi

Verdade. Mas a Caroline Gonzatti não escolheu isso por marketing — ela tinha um problema de oxidação e a solução funcionou.

Mark

Qual é o próximo passo? Isso vai virar mainstream?

Mimi

Desurmont tem timborana e mandioqueira esperando dois anos para curar. Esses são nomes que ainda ninguém conhece. Se funcionarem, sim, pode virar mainstream.

Luke

Ou pode ficar como nicho premium. Há diferença entre um movimento real e um movimento que funciona bem para um pequeno grupo de produtores sofisticados.

  • Destilaria Lamas (MG) obteve 94,5 pontos na Jim Murray's Whisky Bible 2025-2026 com uísque finalizado em pau-brasil
  • Primeiros 10,1 mil garrafas de edições limitadas esgotaram
  • Tanoeiros da Serra Gaúcha trabalham com 15 espécies nativas de madeira
  • Vinhos da vinícola 6 Mãos estão na carta do restaurante Tuju, triestrelado pelo Guia Michelin
  • Documento de Origem Florestal (DOF) rastreia cada tora desde a floresta até a serraria

Destilarias como Lamas (MG) já obtêm notas 94,5 em guias especializados mundiais com uísques finalizados em madeiras brasileiras. Tanoeiros da Serra Gaúcha trabalham com 15 espécies nativas, atendendo crescente demanda de vinicultores e produtores de destilados.

Produtores brasileiros exploram madeiras nativas como amburana e jequitibá no envelhecimento de uísque, rum, gim e vinho, conquistando reconhecimento internacional e desafiando a hegemonia do carvalho.

Há alguns anos, as madeiras nativas brasileiras eram praticamente exclusividade das barricas de cachaça. Amburana, cabreúva, grápia, jequitibá, pau-brasil — nomes que soavam exóticos fora dos alambiques do interior. Hoje, essas mesmas árvores estão envelhecendo uísque, rum, gim, vinho e até cerveja, conquistando prêmios internacionais e desafiando séculos de hegemonia do carvalho.

Em Minas Gerais, nos arredores de Belo Horizonte, a destilaria Lamas começou a experimentar. Luciana Lamas, à frente da empresa, lançou edições limitadas de single malt finalizados em putumuju, angico, sassafrás e pau-brasil. Os primeiros quatro lotes — 10,1 mil garrafas ao todo — esgotaram. Um deles, o Bicentennial Alliance, passou pelo pau-brasil e recebeu 94,5 pontos na Jim Murray's Whisky Bible 2025-2026, um dos guias mais respeitados do mundo. Com esse sucesso, Lamas lançou duas linhas contínuas, uma em amburana e outra em bálsamo, vendidas a R$ 220 a garrafa no e-commerce da marca. Um single malt com barril misto — carvalho americano combinado com cinco madeiras brasileiras — também recebeu 94,5 pontos e está prestes a chegar ao mercado. Três outros uísques, passados por pau-brasil, putumuju e ipê, ganharão exclusividade nas lojas duty free dos aeroportos de Guarulhos, Confins e Galeão.

Na Serra Gaúcha, em Monte Belo do Sul, os tanoeiros Eugênio e Mauro Mesacaza veem a demanda crescer além dos alambiques. Gaspar Desurmont, produtor francês dos vinhos Vinhética em Santana do Livramento, já trabalhou com 15 espécies nativas. O jequitibá-rosa traz frescor à Sauvignon Blanc; o ipê-amarelo adiciona notas de mel ao corte de Arinto e Alvarinho. Giovanni Ferrari, da vinícola Arte Viva, também aderiu, argumentando que as madeiras brasileiras oferecem uma paleta aromática de especiarias — cravo, canela, cominho, coentro — que dialoga naturalmente com a cozinha do país. Caroline Gonzatti, da vinícola 6 Mãos, entrou quase por acaso. Em 2022, sua primeira safra de espumante rosado apresentou leve oxidação. Em vez de intervir, ela seguiu a sugestão de Mauro Mesacaza e Giovanni Ferrari: passar o vinho por barrica de cabreúva. Funcionou. Hoje, seus rótulos estão na carta do restaurante paulistano Tuju, triestrelado pelo Guia Michelin, e ela trabalha com quatro madeiras brasileiras.

Mauro Mesacaza, terceira geração de tanoeiro, herdou do avó o conhecimento sobre as madeiras das matas nativas da Serra Gaúcha. Os mais velhos ainda resistem a elas, mas entre os jovens a história é outra. Felipe Jannuzzi, que produz o gim Virga desde 2015, usa cachaça envelhecida em dorna de jequitibá-rosa na formulação, criando um gim mais complexo, com notas de fruta. Vicente Bastos Ribeiro, proprietário da Fazenda Soledade em Nova Friburgo, transferiu sua vasta experiência com madeiras nativas no envelhecimento de cachaças para o rum. Evandro Weber, CEO da Weber Haus, consolidou as madeiras brasileiras nas cachaças antes de expandir para rum e gim. Seu Rum 8 Anos passa por seis madeiras, três delas nativas: amburana, bálsamo e sassafrás. O bálsamo traz funcho, anis e erva-doce; o sassafrás, canela e frutas secas. Weber também criou uma cerveja estilo Barley Wine com 12,5% de teor alcoólico que passa 30 dias em barril de amburana já usado em cachaça, adquirindo notas de baunilha e caramelo acentuado.

Em feiras internacionais, Weber observa o mundo se interessando pelos troncos brasileiros. Quando esteve nos Estados Unidos, provou um bourbon finalizado em amburana. Sempre que oferece essas bebidas em degustações, os estrangeiros reagem com surpresa. O mixologista Laércio Zulu vai além das barricas, aproveitando cascas e fragmentos — os chips — para fabricar bitters artesanais. Seu Orange toma as notas de baunilha da amburana; o Aromático incorpora cascas de pau-ferro e cajueiro.

Por trás dessa expansão está uma palavra fundamental: rastreabilidade. Mauro Mesacaza explica que há várias camadas de segurança. Os fornecedores não podem ter qualquer pendência com o Ibama e são obrigados a apresentar o Documento de Origem Florestal (DOF) das toras, comprovando todo o trajeto até a serraria. Quando as toras chegam, o caminhão da tanoaria já está esperando, e a equipe acompanha pessoalmente o processo de serramento.

O movimento parece estar apenas começando. Gaspar Desurmont tem um lote de timborana e outro de mandioqueira no pátio da tanoaria Mesacaza, vindos do Pará. As tábuas precisam passar dois anos sob sol e chuva para curar antes de se tornarem barris. São nomes que ainda soam estranhos, mas em breve podem estampar muitos rótulos. O carvalho, que reinou séculos, agora tem concorrência.

São espaços muito propícios para que as madeiras brasileiras ganhem o mundo
— Luciana Lamas, destilaria Lamas
O cravo, a canela, o cominho e o coentro são aromas ligados à nossa terra
— Giovanni Ferrari, vinícola Arte Viva
Quando estive nos Estados Unidos, provei um bourbon finalizado em amburana. Sempre que ofereço essas bebidas em degustações, os estrangeiros dizem: Wow, what is this?
— Evandro Weber, Weber Haus
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