De agora em diante, não sou o candidato de um partido, mas sim o presidente de todas e todos
Na noite de 24 de abril de 2022, diante da Torre Eiffel, Emmanuel Macron foi confirmado presidente da França por mais cinco anos, reunindo 58,55% dos votos contra 41,45% de Marine Le Pen. Pela segunda vez consecutiva, a democracia francesa ergueu uma barreira contra a ascensão da ultradireita ao poder — mas a margem encolheu, e a raiva social que alimentou a candidatura de Le Pen não desapareceu com a derrota. O resultado convida à reflexão sobre o que significa vencer quando quase metade do país escolheu um caminho diferente.
- A ultradireita francesa registrou seu melhor desempenho histórico, com 41,45% dos votos, sinalizando que o descontentamento com inflação e custo de vida corroeu profundamente o apoio a Macron.
- A abstenção de 28,01% — a segunda maior da Quinta República — revelou uma parcela significativa da população que recusou ambos os candidatos.
- Mélenchon, com quase 22% no primeiro turno, tornou-se árbitro silencioso do segundo: seus eleitores se dividiram, e ele já anunciou as legislativas de junho como o verdadeiro 'terceiro turno'.
- Macron reconheceu publicamente que muitos votaram nele apenas para bloquear Le Pen, e interrompeu seu próprio discurso de vitória para defender a rival de vaias da multidão.
- O presidente reeleito prometeu um mandato de mudanças — não de continuidade — com foco em valores sociais, ambientais e elevação da idade de aposentadoria de 62 para 65 anos.
Emmanuel Macron estava diante da Torre Eiffel quando os números finais confirmaram sua reeleição: 58,55% dos votos contra 41,45% de Marine Le Pen. Ele se tornava o quarto presidente reeleito na Quinta República francesa — feito que não ocorria desde 2002, quando Jacques Chirac derrotou Jean-Marie Le Pen, pai de Marine.
A margem era confortável, mas menor do que em 2017, quando Macron vencera por 66,1% a 33,9%. Desta vez, Le Pen alcançou o melhor resultado da história para um candidato da ultradireita francesa. A insatisfação com a inflação — que chegou a 5,1% ao ano em março — havia aproximado os números. Ela percorreu o interior do país prometendo reduzir impostos sobre eletricidade e combustíveis.
No Campo de Marte, Macron fez um discurso incomum para uma noite de vitória. Reconheceu a raiva que moveu os eleitores de sua rival e agradeceu explicitamente àqueles que votaram nele apenas para barrar a ultradireita. Quando a multidão começou a vaiar Le Pen, ele interrompeu o discurso para pedir respeito. 'De agora em diante, não sou o candidato de um partido, mas o presidente de todas e todos', declarou.
A campanha havia sido marcada pela Guerra da Ucrânia: Macron confirmou sua candidatura apenas um dia antes do prazo, em 3 de março, absorvido pelas negociações diplomáticas. No primeiro turno, o ultraesquerdista Jean-Luc Mélenchon surpreendeu com 21,95%, especialmente entre os jovens. Sem apoiar Macron abertamente, pediu que seus eleitores não dessem 'um único voto' a Le Pen — e já anunciou as eleições legislativas de junho como o 'terceiro turno', buscando o cargo de primeiro-ministro.
Líderes europeus celebraram imediatamente. Macron seguiria à frente da segunda maior economia da União Europeia e de um dos cinco assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU. A posse estava prevista para até 13 de maio.
Emmanuel Macron estava em frente à Torre Eiffel quando os números finais chegaram pouco depois da meia-noite. Com todas as urnas apuradas, ele tinha 58,55% dos votos. Marine Le Pen, aos 53 anos, ficou com 41,45%. O presidente francês de 44 anos havia sido reeleito para mais cinco anos no cargo.
A margem era confortável, mas não esmagadora. As projeções divulgadas logo após o fechamento das urnas, às 20h no horário local, já apontavam praticamente os mesmos números: 58,2% para Macron e 41,8% para Le Pen. Quinze minutos depois, Le Pen admitiu a derrota diante de seus apoiadores, já pensando na eleição legislativa de junho. Macron se tornou o quarto presidente reeleito na Quinta República — o período que começou em 1958. O feito não acontecia havia 20 anos, quando Jacques Chirac venceu Jean-Marie Le Pen, pai de Marine.
No campo de Marte, em Paris, Macron agradeceu a vitória com um discurso que reconhecia as fraturas do país. Ele falou sobre a raiva que havia movido os eleitores de sua rival e mencionou explicitamente aqueles que votaram nele não porque apoiavam suas ideias, mas para bloquear a ultradireita. Quando o público começou a vaiar Le Pen e sugeriu que ela se mudasse para Moscou — uma referência às suas ligações históricas com Vladimir Putin — Macron interrompeu o discurso para pedir que ela não fosse apupada. "De agora em diante, não sou o candidato de um partido, mas sim o presidente de todas e todos", disse. Prometeu que seu segundo mandato não seria de continuidade, mas de mudanças. Afirmou que trabalharia por uma França mais comprometida com valores sociais e ambientais, e que elevaria a idade de aposentadoria de 62 para 65 anos.
A disputa de 2022 foi uma repetição do segundo turno de 2017, mas com uma diferença bem menor entre os candidatos. Cinco anos antes, Macron havia vencido por 66,1% a 33,9%. Desta vez, o resultado de Le Pen era o melhor da história para um candidato da ultradireita, que tenta chegar ao poder desde 1974. A insatisfação com o aumento do custo de vida havia aproximado os números. A inflação anual em março era de 5,1%, comparada a 1,6% um ano antes. Le Pen havia feito campanha prometendo reduzir impostos sobre eletricidade e combustíveis, de 20% para 5,5%, e havia percorrido o interior do país e as periferias urbanas.
Macron, por sua vez, havia dedicado menos tempo à campanha inicial. Envolvido nas tratativas diplomáticas sobre a Guerra da Ucrânia, confirmou sua candidatura apenas um dia antes do prazo final, em 3 de março, uma semana após o início do conflito. No primeiro turno, ele terminou com 27,85% dos votos, enquanto Le Pen ficou em segundo com 23,15%. A surpresa foi o ultraesquerdista Jean-Luc Mélenchon, que atraiu 21,95% dos eleitores, especialmente entre os mais jovens.
Na véspera do segundo turno, aqueles que haviam votado em Mélenchon se dividiam: 41% anunciavam voto em Macron, 21% em Le Pen, e 38% não se manifestavam. O próprio Mélenchon não apoiou claramente Macron, mas recomendou aos seus partidários que não dessem "um único voto" a Le Pen. Após a divulgação das projeções, repetiu o pedido para que os franceses o elegessem primeiro-ministro nas eleições legislativas de junho, que chamou de "terceiro turno".
A abstenção foi de 28,01%, abaixo apenas do recorde de 1969. Líderes europeus como Charles Michel, Ursula von der Leyen, Mark Rutte e Alexander de Croo cumprimentaram Macron imediatamente. Olaf Scholz, da Alemanha, e Boris Johnson, do Reino Unido, enviaram mensagens. O primeiro telefonema após as projeções foi com o premiê alemão. Macron continuaria como chefe de Estado da sétima maior economia do mundo e segunda da União Europeia, um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. A posse para o novo mandato deveria acontecer até 13 de maio.
Notable Quotes
Ninguém vai ser deixado para trás— Emmanuel Macron, em seu discurso de vitória
Não devem ser anos tranquilos, mas serão históricos— Emmanuel Macron, sobre seu segundo mandato
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Le Pen conseguiu chegar tão perto desta vez, quando em 2017 Macron venceu por 32 pontos?
A inflação. Em março de 2021 era 1,6%. Um ano depois, 5,1%. As pessoas sentiam isso na eletricidade, nos combustíveis, na comida. Le Pen saiu do Palácio do Eliseu e foi para as periferias, para o interior. Macron estava em Kyiv negociando a paz.
Mas ele ainda venceu confortavelmente.
Sim, mas o conforto esconde algo. Ele mesmo disse no discurso: muita gente votou nele não porque gostava dele, mas porque tinha medo de Le Pen. A França saiu dividida.
E agora? Ele tem cinco anos pela frente.
Tem, mas em junho vêm as legislativas. Mélenchon, que tirou 22% no primeiro turno, está pedindo aos seus eleitores que votem maciçamente no partido dele. Se a esquerda ganhar força no parlamento, Macron vai ter dificuldade em aprovar a reforma da aposentadoria que prometeu.
Qual é o risco real?
Que ele governe um país rachado. A ultradireita cresceu. A esquerda cresceu. O centro, que era a sua força, está mais frágil. E ele prometeu mudanças, não continuidade. Isso é fácil de dizer em frente à Torre Eiffel à meia-noite. É mais difícil fazer.
Ele mencionou valores sociais e ambientais. Isso vai acalmar a esquerda?
Talvez. Mas a idade de aposentadoria vai para 65 anos. Isso é o oposto de valores sociais para quem trabalha desde os 16. Ele vai enfrentar resistência real.