Em cada ciclo eleitoral, a política brasileira revela o quanto a atenção humana é um recurso escasso e disputado. Nas eleições de 2026, candidatos como Macarrão, Plínio Trump e o sósia de Bolsonaro seguem uma tradição que remonta a Enéas e Tiririca: transformar o absurdo em estratégia, o riso em voto, e a estranheza em visibilidade. O que parece piada pode ser, na verdade, um cálculo preciso sobre como sobreviver num oceano de estímulos onde cinco segundos decidem destinos políticos.
Macarrão, Tadala e Trump: nomes excêntricos marcam disputa por vagas no Legislativo
O riso virou voto, e desta vez pode estar sendo calculado.
Por que tantos candidatos estão usando nomes assim agora? Isso é novo?
Não é novo, mas está mais intenso. Enéas fez isso nos anos 1990 e ganhou 4 milhões de votos. Tiririca em 2010 ganhou 1,3 milhão. O que mudou é que agora temos redes sociais, e a disputa pela atenção é muito mais feroz.
Mas espera — Enéas e Tiririca realmente ganharam porque eram engraçados, ou porque as pessoas votavam neles como protesto? Porque são coisas diferentes.
Boa pergunta. Emerson Cervi, da UFPR, chama isso de "voto de protesto" — não é necessariamente apoio ao candidato, é uma crítica ao sistema.
Então essas candidaturas funcionam porque as pessoas estão descontentes?
Ou porque estão entediadas. A professora da FGV fala em "economia da atenção" — num mundo com infinitos estímulos, qualquer coisa que emocione as pessoas funciona.
Exatamente. Raiva, nojo, alegria — qualquer emoção forte num mar de informações.
E quanto aos que usam nomes de políticos famosos? Como o "Lula do Bem"?
Aí fica mais cinzento. O "Lula do Bem" recebeu R$ 600 mil do PL e teve uma impugnação pedida porque poderia gerar falsa associação. Não sabemos se as pessoas votariam nele se ele não tivesse esse nome.
Mas o "Lula de Alagoas" recebeu apenas R$ 39 mil e quase desistiu. Então nem sempre funciona da mesma forma.
O que os especialistas acham que vai acontecer?
Ninguém sabe. Cervi diz que esses votos se intensificam em momentos de descontentamento econômico, mas não há garantia de que vão ganhar. Enéas ganhou em 2002, mas nem sempre o humor esdrúxulo vira voto.
A diferença agora é que pode estar sendo calculado desde o início, não apenas acidental.
El Pulso
- A disputa por atenção nas redes sociais ficou tão feroz que candidatos recorrem ao absurdo como única forma de emergir do ruído digital.
- Nomes como 'Dr. Célio, o Lula do Bem' já geraram pedidos de impugnação, enquanto slogans como 'Cansado de tomar no botão? Vote no Macarrão' provocam reações que vão do riso ao escândalo.
- A estratégia não é nova — Enéas foi ridicularizado e depois elegeu-se o deputado mais votado da história com 4 milhões de votos; Tiririca repetiu o feito em 2010 e segue na Câmara até hoje.
- Especialistas alertam que esse fenômeno cresce em momentos de descontentamento: o voto no candidato excêntrico é, muitas vezes, um voto de protesto contra o sistema, não de adesão a uma causa.
- O humor esdrúxulo deixou de ser acidente e passou a ser ferramenta calculada — o riso, desta vez, pode estar sendo planejado desde o primeiro segundo de campanha.
Em cada ciclo eleitoral, a política brasileira revela o quanto a atenção humana é um recurso escasso e disputado. Nas eleições de 2026, candidatos como Macarrão, Plínio Trump e o sósia de Bolsonaro seguem uma tradição que remonta a Enéas e Tiririca: transformar o absurdo em estratégia, o riso em voto, e a estranheza em visibilidade. O que parece piada pode ser, na verdade, um cálculo preciso sobre como sobreviver num oceano de estímulos onde cinco segundos decidem destinos políticos.
Cinco segundos. É o tempo que Du Venturini acredita ter para convencer alguém a votar nele. Sua solução foi convocar um comediante vestido de rosa, com peruca loira e umbigo à mostra, para gritar seu nome nas ruas de São Paulo. A cena resume o espírito de uma eleição em que o absurdo virou estratégia.
Em 2026, o Brasil assiste à proliferação de candidatos que apostam em nomes e slogans que beiram o inacreditável. Um taxista pernambucano que se apresenta como Samurai. Um médico paulistano que adotou 'Dr. Célio, o Lula do Bem' como nome de urna pelo PL — candidatura que recebeu R$ 600 mil do partido e gerou pedido de impugnação por suposta falsa associação com o presidente. Em Minas Gerais, Plínio Trump concorre a deputado federal com uma montagem que mistura bandeira brasileira, Estátua da Liberdade e o Capitólio. No Distrito Federal, um motorista de aplicativo sósia de Bolsonaro tenta uma vaga legislativa.
A raiz dessa tradição está em Enéas Carneiro, que nos anos 1990 e 2000 virou piada nacional com sua barba, seus óculos e seu bordão 'meu nome é Enéas 56' — e depois se tornou o deputado mais votado da história, com mais de 4 milhões de votos em 2002. O New York Times, que o havia chamado de 'nanico e excêntrico', reconheceu que ele 'riu por último'. Em 2010, o palhaço Tiririca repetiu o feito com mais de 1,3 milhão de votos e permanece na Câmara até hoje.
O que mudou desde então é a intensidade da disputa. Anna Bentes, da FGV, descreve o fenômeno como 'economia da atenção': num ambiente de rolagem infinita, qualquer coisa que provoque emoção — riso, raiva, nojo — tem vantagem de sobrevivência. Para Emerson Cervi, da UFPR, essas candidaturas capturam um voto específico: o voto de protesto, destinado a criticar o sistema político, não a apoiar um projeto. Em tempos de descontentamento, esse voto tende a crescer. A diferença entre Enéas e Macarrão é que, desta vez, o riso pode estar sendo calculado desde o início.
Cinco segundos. É o tempo que Du Venturini, candidato a deputado estadual em São Paulo, acredita ter para convencer alguém a votar nele. Sua solução foi chamar um comediante vestido de rosa, com peruca loira e umbigo à mostra, para gritar "Vai votar no Du!" ao lado dele. A equipe do candidato nega que seja um trocadilho — diz que é apenas uma expressão. Mas essa é apenas uma das dezenas de candidatos que, nas eleições de 2026, apostam em nomes e slogans que beiram o absurdo para se destacar numa disputa cada vez mais feroz pela atenção dos eleitores.
O taxista de Pernambuco que se chama Samurai. O médico de São Paulo que se apresenta como "Dr. Célio, o Lula do Bem". Um candidato do PT que pede votos com o slogan "Cansado de tomar no botão? Vote no Macarrão". Em Minas Gerais, Plínio Trump concorre como deputado federal, sua campanha exibindo uma montagem com a bandeira brasileira, a Estátua da Liberdade e o Capitólio americano. No Distrito Federal, um motorista de aplicativo que é sósia de Jair Bolsonaro tenta uma vaga como deputado distrital. Esses nomes excêntricos não são novidade na política brasileira, mas sua proliferação em 2026 revela algo mais profundo sobre como os candidatos entendem a disputa eleitoral na era das redes sociais.
A estratégia tem raízes fundas. Enéas Carneiro, morto em 2007, foi o pioneiro dessa abordagem. Nos anos 1990 e 2000, suas propagandas eleitorais — com sua barba negra, óculos fundo de garrafa e voz gutural — viralizavam num mundo ainda analógico. O bordão "meu nome é Enéas 56" se tornou tão famoso quanto qualquer piada da "Praça é Nossa". Por muito tempo, ele foi motivo de riso. Mas o riso virou voto. Em 2002, Enéas se tornou o deputado mais votado da história até então, com mais de 4 milhões de votos. O New York Times, que o havia descrito como "nanico e excêntrico", escreveu que ele "riu por último". Em 2006, o costureiro Clodovil Hernandes, que fazia trocadilhos sobre sua própria sexualidade em suas propagandas, foi o terceiro deputado federal mais votado do país. Quatro anos depois, o palhaço Tiririca, com seu "Sou eu, o abestado. Vote 2222", conquistou mais de 1,3 milhão de votos e se tornou o deputado federal mais votado de 2010. Ele segue na Câmara desde então e concorre à reeleição este ano.
Mas o que mudou entre Enéas e Macarrão não é apenas o tempo passado. É a natureza da competição pela atenção. Anna Bentes, professora da Escola de Comunicação da FGV, aponta que vivemos numa época de "economia da atenção" — um conceito que explica por que candidatos precisam fazer barulho cada vez mais alto num mar de estímulos infinitos. Nas redes sociais, onde a rolagem é contínua e a concorrência pela visibilidade é acirrada como nunca, qualquer coisa que mobilize emocionalmente as pessoas — raiva, nojo, tristeza ou alegria — pode funcionar. O humor esdrúxulo virou ferramenta de sobrevivência política.
Alguns candidatos tentam capitalizar sobre figuras políticas já conhecidas. Dois concorrem com nomes ligados ao presidente Lula: Daniel Vieira da Silva, comerciante de Alagoas, concorre como deputado estadual com o nome de urna "Lula de Alagoas" pelo PT. Ele havia anunciado que desistiria por falta de repasses do fundo eleitoral, mas mudou de ideia após receber R$ 39 mil do partido. Célio Morais, médico de São Paulo, adotou "Dr. Célio, o Lula do Bem" como nome de urna pelo PL, o que motivou um pedido de impugnação da candidatura — a Procuradoria Eleitoral alegou que poderia gerar falsa associação com o presidente. Sua candidatura recebeu R$ 600 mil do Diretório Nacional do PL. Em Pernambuco, o Sargento Bigode tenta uma vaga como deputado estadual pelo Missão; ele ganhou notoriedade após ser punido pela PM em janeiro por usar um bigode que ultrapassava a linha do lábio inferior, em desacordo com as normas da corporação.
Para Emerson Cervi, professor titular do Departamento de Ciência Política da UFPR, essas candidaturas atraem um tipo específico de voto: o voto de protesto. Não é necessariamente um sinal de desconfiança nas instituições, mas um voto destinado a uma crítica ao sistema, não necessariamente de apoio a um candidato ou partido. Esse tipo de voto tende a se intensificar em momentos de descontentamento econômico ou desgaste institucional. A visibilidade negativa gerada pela cobertura política negativa é, segundo Cervi, o principal motivador. O que antes era motivo de riso — um candidato com um nome absurdo — agora pode ser uma estratégia deliberada para capturar eleitores que querem expressar insatisfação com o sistema político tradicional. A diferença é que, desta vez, o riso pode estar sendo calculado desde o início.
Citas Notables
Numa época marcada pelo excesso de estímulos, quem precisa fisgar a atenção do público vai se valer de tudo que mobiliza emocionalmente as pessoas, seja com raiva, seja com nojo, seja com tristeza ou alegria— Anna Bentes, professora da Escola de Comunicação da FGV
O voto de protesto é destinado a uma crítica ao sistema, não necessariamente de apoio a um candidato ou partido, e pode se intensificar em momentos de descontentamento com a economia ou desgaste institucional— Emerson Cervi, professor titular do Departamento de Ciência Política da UFPR