Lula venceu com 60,3 milhões de votos contra 58,2 milhões de Bolsonaro, reduzindo a vantagem de 6,1 milhões no primeiro turno para 2,1 milhões no segundo turno. O presidente eleito enfatizou compromissos com combate à fome, desmatamento zero na Amazônia, recuperação econômica e pacificação política em país profundamente dividido.
Lula vence Bolsonaro por margem apertada e promete priorizar combate à fome
Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo
Por que essa margem tão apertada? Lula não deveria ter vencido com mais folga?
A polarização foi extrema. Bolsonaro manteve uma base muito sólida apesar de tudo. Lula perdeu votos do primeiro para o segundo turno — a vantagem caiu de 6,1 milhões para 2,1 milhões. Isso mostra um país realmente dividido ao meio.
E quanto ao Congresso? Como Lula vai governar com uma câmara hostil?
Vai ser difícil. O PL elegeu 99 deputados, a maior bancada. Direita e Centrão dominam. Lula terá de negociar muito, fazer concessões. Sua campanha não apresentou um plano econômico detalhado, o que deixa margem para desconfiança.
Ele mencionou regulação da mídia durante a campanha. Isso vai ser um ponto de tensão?
Sim. Lula falou em novo marco regulatório contra o que chamou de "espoliação de meia dúzia de famílias" na comunicação. Isso assusta setores. Mas disse que a decisão caberia ao Congresso, não a ele.
A fome é realmente tão urgente quanto ele diz?
Milhões de brasileiros não têm segurança alimentar. Lula colocou isso como compromisso número um. É real, é grave, e ele sabe que precisa entregar nessa frente para ter legitimidade.
Como ele conseguiu apoio de economistas liberais se sua plataforma é vaga?
Muitos votaram nele criticamente, principalmente para derrotar Bolsonaro. Não era entusiasmo pela plataforma de Lula, era rejeição ao governo anterior. Isso deixa espaço para desapontamento.
E a Amazônia? Isso vai ser diferente do governo Bolsonaro?
Completamente. Lula prometeu desmatamento zero. Para líderes estrangeiros, isso era uma preocupação central. Mas implementar isso com um Congresso hostil e com pressões econômicas vai ser complexo.
Il Polso
- Lula venceu com 60,3 milhões de votos (50,9%) contra 58,2 milhões de Bolsonaro (49,1%)
- Margem de vitória caiu de 6,1 milhões no primeiro turno para 2,1 milhões no segundo turno
- Primeira derrota de um presidente em exercício desde a redemocratização
- PL elegeu 99 deputados, maior bancada do Congresso
- Lula assume em 1º de janeiro de 2023 com Geraldo Alckmin como vice
Lula venceu com 60,3 milhões de votos contra 58,2 milhões de Bolsonaro, reduzindo a vantagem de 6,1 milhões no primeiro turno para 2,1 milhões no segundo turno. O presidente eleito enfatizou compromissos com combate à fome, desmatamento zero na Amazônia, recuperação econômica e pacificação política em país profundamente dividido.
Luiz Inácio Lula da Silva foi eleito presidente do Brasil pela terceira vez com 50,9% dos votos contra 49,1% de Jair Bolsonaro, a margem mais estreita desde a redemocratização. Lula prometeu priorizar o combate à fome e a pacificação do país.
No domingo, 30 de outubro de 2022, Luiz Inácio Lula da Silva, aos 77 anos, retornou à presidência da República pela terceira vez. A vitória veio pela margem mais apertada registrada desde o retorno à democracia: 60,3 milhões de votos (50,9%) contra 58,2 milhões de Jair Bolsonaro (49,1%). Foi a primeira vez em três décadas que um presidente em exercício não conseguiu se reeleger.
A diferença entre os candidatos encolheu dramaticamente do primeiro para o segundo turno. Na primeira etapa, Lula havia aberto 6,1 milhões de votos de vantagem. No domingo, essa margem caiu para apenas 2,1 milhões. A abstenção no segundo turno ficou em 20,56%, ligeiramente inferior à do primeiro turno (20,95%), contrariando a tendência histórica de menor comparecimento na segunda etapa. Até o fechamento das apurações, com 99,99% das urnas contabilizadas, Bolsonaro permanecia em silêncio sobre o resultado.
Lula chegará ao Palácio do Planalto acompanhado pelo vice Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo com 69 anos, em cerimônia marcada para 1º de janeiro de 2023. Em seu discurso de vitória, o presidente eleito buscou transcender a polarização que marcou a campanha. "Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação", declarou, dirigindo-se aos 215 milhões de brasileiros, não apenas aos que votaram nele. Pediu o restabelecimento da paz entre famílias e o fim da propagação do ódio que, segundo ele, havia dividido o país.
Entre seus compromissos imediatos, Lula colocou o combate à fome como prioridade número um. "Não podemos aceitar como normal que milhões de homens, mulheres e crianças neste país não tenham o que comer, ou que consumam menos calorias e proteínas do que o necessário", afirmou. Prometeu também enfrentar o racismo e a discriminação, recuperar a credibilidade internacional do Brasil e atrair investimentos estrangeiros. Na agenda ambiental, comprometeu-se com o "desmatamento zero da Amazônia", argumentando que "o Brasil e o planeta precisam de uma Amazônia viva".
O retorno de Lula representa, em suas próprias palavras, um "processo de ressurreição na política brasileira". O ex-presidente havia passado um ano e sete meses preso após condenações na Operação Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro relacionadas ao caso do triplex em Guarujá. Saiu da cela especial da Polícia Federal em Curitiba em novembro de 2019. Em abril de 2021, o Supremo Tribunal Federal derrubou as condenações, abrindo caminho para sua candidatura neste ano.
O desafio que se apresenta é formidável. Lula governará com um Congresso ideologicamente hostil, onde partidos de direita e legendas do Centrão conquistaram a maioria das cadeiras. O PL, partido de Bolsonaro, elegeu a maior bancada, com 99 deputados na Câmara a partir de 2023. A campanha petista não apresentou um plano detalhado de propostas econômicas. Apenas três dias antes do segundo turno, divulgou carta aberta prometendo combinar "política fiscal responsável" com "responsabilidade social e desenvolvimento sustentável" — documento considerado genérico por agentes econômicos.
Apesar disso, Lula conquistou apoio de economistas liberais historicamente ligados ao Plano Real: Pedro Malan, Edmar Bacha, Arminio Fraga e Pérsio Arida declararam voto nele, assim como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Muitos desses apoiadores, porém, fizeram questão de caracterizar seu voto como crítico, unindo-se principalmente para derrotar Bolsonaro. A campanha de Lula revelou um político mais centralizador e desconfiado do que em campanhas anteriores, com decisões triviais passando por sua mesa e sugestões de conselheiros frequentemente descartadas. Mantém ao seu lado os aliados que lhe foram fiéis durante o encarceramento em Curitiba, incluindo a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e sua esposa, Rosângela da Silva, conhecida como Janja, que teve papel de destaque na campanha.
Os próximos 60 dias serão dedicados à transição de governo, regulamentada pela Lei 10.609 de 2002, que permite ao novo presidente convocar até 50 pessoas para ocupar cargos especiais. O Brasil que Lula herdará é muito distinto daquele que deixou 20 anos atrás, quando venceu a eleição de 2002. A tarefa de pacificação e retomada do desenvolvimento social e econômico em um país profundamente dividido será seu primeiro grande teste.
Citazioni salienti
Nosso compromisso mais urgente é acabar outra vez com a fome. Não podemos aceitar como normal que milhões de homens, mulheres e crianças neste país não tenham o que comer.— Luiz Inácio Lula da Silva, em seu discurso de vitória
Vou governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras e não apenas para aqueles que votaram em mim.— Luiz Inácio Lula da Silva