No domingo em que o Brasil convocou 160 milhões de cidadãos às urnas, o país não escolhia apenas um presidente — escolhia uma orientação para si mesmo num mundo em reconfiguração. Lula da Silva, veterano de 80 anos, e Flávio Bolsonaro, herdeiro de uma tradição conservadora, representavam não só projetos domésticos distintos, mas também posicionamentos geopolíticos opostos numa era de tensões entre Washington e a América Latina. Com as sondagens a apontar empate técnico, a decisão final ficou suspensa no ar, à espera de um segundo turno que dirá, em outubro, qual caminho o Brasil escolhe trilha
Lula ultrapassa Bolsonaro nos votos da diáspora em eleições presidenciais brasileiras
Lula lidera com 53% dos votos no exterior enquanto Brasil aguarda segundo turno
Por que essa eleição brasileira importa tanto para fora do Brasil?
Porque o Brasil é a maior economia da América Latina. Se Lula vence, a região segue com um governo de esquerda. Se Bolsonaro vence, o Brasil se alinha com Trump e a onda conservadora que está varrendo o continente.
Mas as sondagens mostram empate técnico — 45% versus 43%. Isso é realmente uma margem que permite prever algo?
Não, por isso espera-se um segundo turno em 25 de outubro. Nenhum candidato deve atingir 50% no domingo.
E o que aconteceu com os brasileiros que vivem fora do país?
Lula liderou de forma clara no exterior — 53% dos votos válidos contra 37% de Bolsonaro, quando metade dos votos da diáspora tinha sido apurada.
Mas isso é apenas com metade dos votos contados. Os números podem mudar quando todos forem apurados?
Tecnicamente sim, mas a margem é grande o suficiente que seria preciso uma virada significativa.
Portugal teve alguma coisa especial nessa eleição?
Portugal é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro no exterior. Aumentaram 74% os eleitores inscritos em Lisboa, então expandiram os locais de votação para evitar filas.
Isso significa que mais pessoas votaram, ou apenas que mais pessoas se inscreveram?
Mais pessoas se inscreveram — 79 mil em Lisboa. O embaixador esperava que o comparecimento superasse 50%, mas os números finais ainda não foram divulgados.
O Pulso
- A margem de apenas dois pontos percentuais entre Lula e Bolsonaro transforma esta eleição numa das mais incertas da história recente do Brasil, tornando inevitável uma segunda volta a 25 de outubro.
- A disputa vai além das fronteiras: Lula alerta para pressões de Trump sobre a soberania brasileira, enquanto Flávio Bolsonaro cultiva proximidade com Washington e o mercado de minerais raros.
- Na diáspora, o cenário é mais claro — com 51% dos votos apurados, Lula ultrapassa os 53% no exterior, vencendo em países como China, Austrália e Coreia do Sul, enquanto Bolsonaro conquista Japão e Emirados.
- Em Portugal, o segundo maior colégio eleitoral brasileiro no mundo, o número de inscritos cresceu 74%, atingindo 79 mil eleitores em Lisboa, num sinal de que a comunidade emigrante quer fazer-se ouvir.
- Os resultados definitivos do TSE, esperados a partir das 17h em Brasília, não encerrarão o debate — apenas abrirão o capítulo final de uma eleição que moldará a maior economia da América Latina.
No domingo em que o Brasil convocou 160 milhões de cidadãos às urnas, o país não escolhia apenas um presidente — escolhia uma orientação para si mesmo num mundo em reconfiguração. Lula da Silva, veterano de 80 anos, e Flávio Bolsonaro, herdeiro de uma tradição conservadora, representavam não só projetos domésticos distintos, mas também posicionamentos geopolíticos opostos numa era de tensões entre Washington e a América Latina. Com as sondagens a apontar empate técnico, a decisão final ficou suspensa no ar, à espera de um segundo turno que dirá, em outubro, qual caminho o Brasil escolhe trilhar.
O Brasil viveu domingo um dos seus dias eleitorais mais tensos das últimas décadas. Cerca de 160 milhões de eleitores foram chamados a escolher entre Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, que buscava um quarto mandato aos 80 anos, e Flávio Bolsonaro, senador de 45 anos em estreia presidencial, herdeiro político do pai Jair Bolsonaro. As sondagens colocavam os dois candidatos separados por apenas dois pontos — 45% contra 43% —, tornando praticamente certa a necessidade de uma segunda volta a 25 de outubro.
Além da presidência, os brasileiros elegiam governadores, deputados e senadores, num processo de voto obrigatório que mobilizou o país de norte a sul. Bolsonaro votou no Rio de Janeiro logo pela manhã; Lula fez o mesmo em São Paulo, cidade onde forjou a sua carreira, mostrando-se confiante no legado dos últimos quatro anos. O pano de fundo geopolítico era incontornável: Lula denunciava pressões de Donald Trump sobre a soberania brasileira, enquanto o candidato conservador cultivava laços com Washington, nomeadamente em torno do mercado de minerais raros.
No exterior, a narrativa tomou contornos distintos. Quase 918 mil brasileiros espalhados pelo mundo votavam apenas para presidente. Com metade dos votos da diáspora apurados, Lula liderava com mais de 53%, contra 37% de Bolsonaro. Portugal destacou-se como segundo maior colégio eleitoral brasileiro no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Em Lisboa, o número de inscritos cresceu 74%, chegando a 79 mil eleitores, num reflexo do crescimento da comunidade brasileira e do esforço das autoridades para ampliar o acesso ao voto — as secções foram transferidas para espaços maiores, na Reitoria e na Faculdade de Letras.
Os resultados definitivos seriam divulgados pelo TSE a partir das 17h em Brasília. Mas qualquer que fosse o número, a eleição de domingo já havia deixado claro que o Brasil está dividido — e que a palavra final sobre o seu futuro chegará apenas no final de outubro.
O Brasil escolheu domingo entre dois caminhos políticos radicalmente diferentes. Cerca de 160 milhões de eleitores foram às urnas para decidir se o país manteria um governo de esquerda ou abraçaria a onda conservadora que varre o continente. As cédulas fecharam às 17h em Brasília, deixando em aberto uma disputa que as sondagens descrevem como praticamente empatada.
Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, buscava um quarto mandato aos 80 anos, alertando que a soberania brasileira estava sob pressão de Donald Trump. Seu adversário era Flávio Bolsonaro, senador de 45 anos que estreava em uma corrida presidencial, tentando herdar a base eleitoral do pai, Jair Bolsonaro, que governou entre 2019 e 2022 e mantinha proximidade com Washington. As pesquisas mostravam Lula com 45% das intenções de voto contra 43% de Bolsonaro — uma margem tão estreita que nenhum dos dois deveria ultrapassar os 50% necessários para vencer na primeira volta. Isso significava que os brasileiros voltariam às urnas em 25 de outubro para um segundo turno.
O Tribunal Superior Eleitoral registrou 158.745.463 eleitores aptos a votar. Além da presidência, os brasileiros elegiam 27 governadores estaduais, todos os 513 deputados federais e 54 dos 81 senadores. O voto era obrigatório; quem não comparecesse precisaria justificar a ausência. Bolsonaro votou no Rio de Janeiro logo que as seções abriram. Lula votou uma hora depois em São Paulo, a cidade onde iniciou sua carreira política, mostrando-se confiante no trabalho dos últimos quatro anos.
No exterior, a história tomava contornos diferentes. Quase 918 mil brasileiros espalhados pelo mundo votavam apenas para presidente e vice-presidente. Quando 51% dos votos da diáspora haviam sido apurados, Lula ultrapassava a marca de 53% dos votos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro ficava com 37,22%. O petista vencia em Malásia, Singapura, China, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Bolsonaro conquistava Filipinas, Japão e Emirados Árabes Unidos. Portugal, que fechou as urnas às 17h, era o segundo maior colégio eleitoral brasileiro no exterior, atrás apenas dos Estados Unidos.
Em Lisboa, o embaixador brasileiro expressou satisfação com a organização do processo. A capital portuguesa havia expandido significativamente os locais de votação, movendo as seções da Faculdade de Direito para a Reitoria e Faculdade de Letras, buscando reduzir filas e aumentar o conforto dos eleitores. O cônsul Alessandro Candeas apontou que o número de inscritos em Lisboa havia crescido 74%, atingindo 79 mil eleitores. Mais de 134 mil brasileiros estavam registrados para votar em três cidades portuguesas: Lisboa, Porto e Faro. O embaixador esperava que o comparecimento superasse os 50% registrados quatro anos antes, refletindo o esforço de ampliar a acessibilidade ao voto.
Os resultados definitivos seriam divulgados pelo TSE a partir das 17h em Brasília — 21h em Lisboa. A eleição de domingo definiria não apenas quem governaria a maior economia da América Latina nos próximos quatro anos, mas também qual direção geopolítica o Brasil seguiria: mantendo laços com a esquerda latino-americana ou aproximando-se da administração Trump e suas prioridades, particularmente no mercado de minerais raros.
Citações Notáveis
Avalio com a melhor nota que se pode dar— Embaixador do Brasil em Lisboa, sobre a organização das eleições em Portugal
O que nós fizemos foi ampliar os espaços para que as pessoas não sofram nas filas— Embaixador brasileiro, explicando a expansão dos locais de votação