Símbolos abrem portas. Políticas públicas as mantêm abertas.
Em um país onde a fé e a política há muito caminham lado a lado, o presidente Lula assinou, em setembro de 2024, a lei que institui o Dia Nacional da Pastora e Pastor Evangélico, celebrado no segundo domingo de junho. O gesto transforma em lei algo que já vivia nas igrejas e municípios brasileiros, ao mesmo tempo em que revela a profundidade da disputa simbólica por um eleitorado que representa cerca de 31% da população. Mais do que um calendário, a sanção é um espelho da tensão permanente entre governar para todos e conquistar os que ainda desconfiam.
- A aprovação de Lula entre evangélicos despencou — a reprovação saltou de 38% para 43% entre dezembro de 2023 e março de 2024, acendendo um sinal de alerta no Palácio do Planalto.
- Em resposta, o PT lançou uma cartilha orientando militantes a dialogar com evangélicos sem tratá-los como um bloco fundamentalista monolítico — um reconhecimento de que erros de abordagem custaram votos.
- A sanção da lei, acompanhada de dois outros projetos que valorizam expressões cristãs como patrimônio cultural, sinaliza uma ofensiva legislativa e simbólica para reconquistar terreno perdido.
- Críticos enxergam nas três sanções uma concessão calculada a um segmento que foi base eleitoral de Bolsonaro, enquanto o governo as apresenta como respeito genuíno à diversidade religiosa do país.
- O resultado imediato é a formalização de uma data que já existia na prática — mas o verdadeiro placar, o da confiança evangélica no PT, ainda está longe de ser definido.
Na segunda-feira, 16 de setembro de 2024, o presidente Lula assinou a lei que institui o Dia Nacional da Pastora Evangélica e do Pastor Evangélico, a ser celebrado todo ano no segundo domingo de junho. O texto foi publicado no Diário Oficial da União no mesmo dia, formalizando uma data que já era reconhecida informalmente em igrejas e em alguns municípios do país. O projeto nasceu de iniciativa do ex-deputado federal João Campos, de Goiás, e foi aprovado pela Comissão de Educação e Cultura do Senado em agosto, com parecer do senador Zequinha Marinho.
A sanção chega em momento sensível. Pesquisa do Datafolha aponta que os evangélicos já representam 31% dos brasileiros — um eleitorado vasto e politicamente decisivo. Mas a relação do governo com esse segmento se deteriorou: a reprovação de Lula entre evangélicos subiu de 38% para 43% entre dezembro de 2023 e março de 2024, com apenas 35% avaliando a gestão como ótima ou boa. Diante desse quadro, o PT intensificou sua estratégia de aproximação, lançando em agosto uma cartilha produzida pela Fundação Perseu Abramo com orientações para militantes sobre como dialogar com esse público sem reduzi-lo a estereótipos.
No mesmo dia, Lula assinou outros dois projetos ligados ao universo cristão: um que reconhece expressões artísticas e influências do cristianismo como manifestação cultural nacional, e outro que homenageia o Círio de Nazaré de São Luís, no Maranhão — celebração que reúne mais de 100 mil fiéis e movimenta a cidade durante todo o mês de outubro.
As três sanções compõem uma estratégia deliberada de usar instrumentos simbólicos e legislativos para aproximar o governo de um eleitorado historicamente ligado a Jair Bolsonaro. Para o Planalto, trata-se de reconhecimento e inclusão. Para os críticos, é política pura. O que permanece evidente é que a disputa pela lealdade evangélica segue sendo um dos eixos centrais da política brasileira.
Na segunda-feira, 16 de setembro, o presidente Lula assinou a lei que institui o Dia Nacional da Pastora Evangélica e do Pastor Evangélico. A data será celebrada todos os anos no segundo domingo de junho — um reconhecimento formal de algo que já acontecia nas igrejas e em alguns municípios brasileiros de forma informal.
O texto foi publicado no Diário Oficial da União naquele mesmo dia. Segundo a comunicação do Palácio do Planalto, a intenção da lei é reconhecer e valorizar o trabalho e a contribuição que as lideranças religiosas evangélicas têm dado ao Brasil. O projeto original foi apresentado pelo ex-deputado federal João Campos, de Goiás, e recebeu parecer do senador Zequinha Marinho, do Podemos do Pará. A Comissão de Educação e Cultura do Senado aprovou a matéria em 13 de agosto.
A sanção chega em um momento delicado para o governo junto a esse segmento. Dados do Censo de 2010 mostravam que pouco mais de 22% dos brasileiros se declaravam evangélicos. Uma pesquisa do Datafolha de 2020 apontava esse número em 31% — uma população significativa e politicamente relevante. Mas a aprovação de Lula entre evangélicos tem caído. Em março de 2024, a reprovação do governo chegou a 43%, subindo de 38% em dezembro do ano anterior. No mesmo período, apenas 35% avaliavam a gestão como ótima ou boa, enquanto 30% a consideravam regular.
Essa queda de popularidade levou o PT a intensificar esforços de aproximação. Em agosto, o partido lançou a "Cartilha Evangélica: Diálogo nas Eleições", produzida pela Fundação Perseu Abramo, seu centro de estudos. O documento oferece orientações para militantes e candidatos sobre como se relacionar com evangélicos, incluindo a recomendação de não tratá-los como um bloco monolítico fundamentalista. Lula, durante sua campanha, havia distribuído uma carta dirigida especificamente a esse eleitorado, tentando estabelecer um diálogo direto.
No mesmo dia, Lula sancionou outros dois projetos relacionados. Um reconhece expressões artísticas, aspectos religiosos e influências do cristianismo como manifestação cultural nacional — uma tentativa de inscrever o cristianismo no patrimônio cultural brasileiro. O outro homenageia o Círio de Nazaré de São Luís, no Maranhão, registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do estado. O evento, que ocorre no segundo domingo de outubro, atrai mais de 100 mil fiéis e movimenta a cidade durante todo o mês.
As três sanções refletem uma estratégia mais ampla: reconhecer e valorizar expressões religiosas cristãs como parte da identidade cultural do país. Para o governo, trata-se de um gesto de respeito e inclusão. Para críticos, representa uma concessão política a um segmento que historicamente apoiou Jair Bolsonaro e que mantém reservas em relação ao PT. O que fica claro é que a disputa pela lealdade evangélica continua sendo central na política brasileira, e o governo está disposto a usar ferramentas simbólicas e legislativas para reconquistar terreno perdido.
Notable Quotes
A sanção oferece uma oportunidade oficial para reconhecer e valorizar o trabalho das pastoras e pastores evangélicos, destacando sua contribuição para as comunidades e a sociedade— Palácio do Planalto
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que agora? A lei já era celebrada informalmente em igrejas. O que muda com a sanção presidencial?
Muda tudo e nada ao mesmo tempo. Informalmente, era uma celebração religiosa. Formalmente, é um reconhecimento do Estado de que essas lideranças importam para a nação. É simbólico, mas símbolos têm peso político.
E o timing? Lula está perdendo apoio entre evangélicos. Isso é uma tentativa de recuperação?
Claramente. A reprovação subiu de 38% para 43% em poucos meses. O governo sente a pressão. Mas há algo mais: o PT está tentando dizer que não é inimigo da religião, que respeita a fé cristã.
A cartilha evangélica que o partido lançou em agosto — ela funciona?
Depende do que você chama de funcionar. Se é mudar voto, provavelmente não. Se é abrir diálogo, talvez. A cartilha diz para não tratar evangélicos como fundamentalistas. É um começo.
Mas nem todos os evangélicos são iguais, certo?
Exatamente. Há evangélicos progressistas, conservadores, pentecostais, protestantes históricos. A cartilha tenta reconhecer essa diversidade. O problema é que a extrema direita cristã capturou muita da narrativa evangélica nos últimos anos.
Então essa lei resolve o problema?
Não. É um gesto. Importante, talvez, mas um gesto. O que vai resolver é se o governo conseguir mostrar que suas políticas beneficiam as comunidades evangélicas — educação, saúde, emprego. Símbolos abrem portas. Políticas públicas as mantêm abertas.