Lula reafirma que Ucrânia compartilha responsabilidade pela guerra com Rússia

A decisão da guerra foi tomada por dois países
Lula reafirma sua posição de que Rússia e Ucrânia compartilham responsabilidade pelo conflito.

Ao encerrar uma viagem pela Ásia e pelos Emirados Árabes, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva reafirmou, em abril de 2023, sua visão de que Rússia e Ucrânia compartilham responsabilidade pela guerra em curso — posição que sustenta desde antes de assumir o cargo. Mais do que repetir um argumento, Lula propôs uma arquitetura diplomática inédita: um grupo de nações neutras capaz de mediar o conflito, à semelhança do G20 criado na crise de 2008. O gesto revela a ambição brasileira de ocupar um espaço de protagonismo num mundo que, segundo Lula, carece de uma governança global mais justa e representativa.

  • Lula reitera pela terceira vez em pouco mais de um ano que Kiev e Moscou dividem a culpa pela guerra, ignorando o fato de que foram bombas russas que iniciaram o conflito em 24 de fevereiro de 2022.
  • A declaração provoca tensão com aliados ocidentais, pois o presidente acusa diretamente EUA e União Europeia de incentivarem a continuidade da guerra com suas ações.
  • Para sair do impasse, Lula propõe criar um novo G20 de países neutros dedicado exclusivamente a mediar negociações de paz entre Moscou e Kiev.
  • Em paralelo, o presidente defende uma reforma profunda do Conselho de Segurança da ONU, pedindo mais assentos para América Latina, África, mundo árabe e Alemanha.
  • A viagem também rendeu acordos práticos: memorandos de entendimento com os Emirados Árabes nas áreas de comércio, esportes e inteligência artificial foram assinados em Abu Dhabi.

Ao deixar Abu Dhabi no encerramento de uma viagem que havia começado na China, Lula reafirmou diante de jornalistas que tanto a Rússia quanto a Ucrânia carregam responsabilidade pela guerra. "A decisão da guerra foi tomada por dois países", disse o presidente. Não era a primeira vez: em janeiro, ao receber o chanceler alemão Olaf Scholz em Brasília, já havia sugerido culpa mútua com a frase "quando um não quer, dois não brigam"; e em maio de 2022 chegara a dizer que Zelenski seria "tão culpado quanto o Putin". Os registros históricos, porém, apontam outra direção — o conflito teve início quando forças russas atacaram cidades ucranianas nas primeiras horas de 24 de fevereiro de 2022, por ordem de Vladimir Putin.

Mas a passagem por Abu Dhabi não se resumiu a reiterar posições. Lula apresentou uma proposta concreta: a criação de um grupo de países sem envolvimento direto no conflito, dispostos a mediar negociações de paz. A inspiração declarada foi o G20 econômico, convocado às pressas durante a crise de 2008. Na mesma linha, o presidente defendeu uma reforma do Conselho de Segurança da ONU para incluir mais vozes do Sul Global, e negou estar articulando um bloco alternativo ao G7, embora tenha reforçado a importância do G20 como fórum mais representativo.

Nos Emirados, Lula se reuniu com o presidente Mohammed bin Zayed Al Nahyan, e as delegações dos dois países assinaram memorandos de entendimento em comércio, esportes e inteligência artificial. Questionado sobre o empresário brasileiro Thiago Brennand — acusado de agressão e estupro e refugiado no país —, Lula disse não ter tratado do assunto com o anfitrião, mas foi categórico: "Se no mundo existir 1 milhão de cidadãos como esse, todos merecem ser punidos". Após a entrevista, o presidente embarcou rumo a Lisboa para uma parada técnica, antes de seguir para Brasília.

Luiz Inácio Lula da Silva saiu de Abu Dhabi reafirmando uma posição que vem repetindo há mais de um ano: que tanto Rússia quanto Ucrânia carregam responsabilidade pela guerra entre elas. "A decisão da guerra foi tomada por dois países", disse o presidente brasileiro em entrevista coletiva antes de embarcar de volta ao Brasil, encerrando sua viagem pela Ásia que havia começado na China uma semana antes.

Esta não é a primeira vez que Lula toca no assunto. Em janeiro, quando recebeu o chanceler alemão Olaf Scholz em Brasília, o presidente já havia sinalizado essa visão equilibrada, dizendo que "quando um não quer, dois não brigam" — uma frase que sugere culpa mútua mesmo enquanto reconhecia que a Rússia estava errada em invadir. Meses antes, em maio de 2022, Lula havia sido ainda mais direto, afirmando que o presidente ucraniano Volodmir Zelenski seria "tão culpado quanto o Putin" pelo conflito. Os fatos, porém, apontam para uma narrativa diferente: a guerra começou quando bombas russas caíram sobre alvos militares em Kiev, Kharkiv e outras cidades do centro e leste ucraniano nas primeiras horas de 24 de fevereiro de 2022, após Vladimir Putin autorizar uma operação militar na região.

Mas Lula não estava em Abu Dhabi apenas para reiterar essa posição. O presidente apresentou uma proposta mais ambiciosa: a criação de um novo grupo de países que não tivessem envolvimento direto com a guerra e estivessem dispostos a mediar negociações entre Moscou e Kiev. Ele comparou a ideia com a criação do G20 em 2008, durante a crise econômica global. "Quando houve a crise econômica de 2008, rapidamente criamos o G20 para tentar salvar a economia. Agora é importante criar outro G20 pra acabar com a guerra e estabelecer a paz", afirmou. Nessa visão, tanto os Estados Unidos quanto a União Europeia estariam contribuindo para a continuidade do conflito através de suas ações — uma crítica que Lula havia feito também durante sua passagem pela China.

O presidente brasileiro aproveitou a entrevista para defender também uma reforma mais ampla da governança global. Argumentou que o Conselho de Segurança da ONU deveria incluir mais países, especialmente da América Latina, África, mundo árabe e Alemanha, para criar "uma governança global mais forte". Quando questionado se estaria buscando criar um bloco econômico alternativo ao G7 sem o uso do dólar, Lula negou a intenção, mas reforçou que o G20 é mais importante por reunir maior número de países e oferecer representatividade mais ampla para discutir os problemas contemporâneos.

Durante sua permanência nos Emirados Árabes, Lula se reuniu com o presidente Mohammed bin Zayed Al Nahyan no Palácio Presidencial. Na ocasião, delegações brasileiras e emiradis assinaram memorandos de entendimento que formalizam acordos nas áreas de comércio, esportos e inteligência artificial. Lula destacou o que chamou de "rica" parceria entre os países. Quando perguntado sobre a possível extradição do empresário brasileiro Thiago Brennand, acusado de agressão e estupro, Lula disse não ter discutido o assunto com o presidente emiradense e afirmou desconhecer os detalhes do processo. Ainda assim, foi enfático: "Se no mundo existir 1 milhão de cidadãos como esse, todos merecem ser punidos, porque não é humanamente aceitável que um brutamonte desses seja um agressor de mulheres". Após a entrevista, Lula embarcou para Lisboa, onde faria uma parada técnica de quase duas horas, antes de seguir para Brasília, onde deveria chegar por volta das 21h.

Quando houve a crise econômica de 2008, rapidamente criamos o G20 para tentar salvar a economia. Agora é importante criar outro G20 pra acabar com a guerra e estabelecer a paz
— Presidente Lula
Se no mundo existir 1 milhão de cidadãos como esse, todos merecem ser punidos, porque não é humanamente aceitável que um brutamonte desses seja um agressor de mulheres
— Presidente Lula, sobre o empresário Thiago Brennand
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o presidente insiste em dizer que os dois lados compartilham culpa quando a invasão começou com bombas russas?

Model

Porque para Lula, a responsabilidade não é apenas sobre quem disparou primeiro. É sobre as escolhas que levaram àquele momento — as decisões políticas, as alianças, as provocações que ele vê dos dois lados.

Inventor

Mas isso não apaga o fato de que um país invadiu o outro?

Model

Não apaga. Mas na visão dele, reconhecer a invasão não significa que o outro lado não tenha também contribuído para a escalada. É uma forma de dizer: ambos poderiam ter feito diferente.

Inventor

E essa proposta de um novo G20 neutro — é realista?

Model

Depende do que você chama de realista. Lula está tentando se posicionar como mediador, como alguém que não está nem com Moscou nem com Washington. Isso tem valor diplomático, mesmo que a chance de sucesso seja pequena.

Inventor

Os EUA e a Europa realmente estão prolongando a guerra, como ele diz?

Model

Lula acredita que sim — que o apoio militar contínuo incentiva a Ucrânia a não negociar. Outros diriam que é exatamente o oposto, que sem esse apoio a Ucrânia seria esmagada. São duas lógicas completamente diferentes.

Inventor

O que Lula quer ganhar com tudo isso?

Model

Influência. Quer que o Brasil seja visto como uma potência que pode conversar com todos, que tem voz na resolução de conflitos globais. É sobre reposicionar o país na geopolítica.

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