Em um momento em que as instituições brasileiras enfrentam questionamentos sobre sua legitimidade, o presidente Lula propôs, em entrevista no Palácio da Alvorada, a criação de um conselho para mediar as indicações ao Supremo Tribunal Federal — reconhecendo, ele próprio, que o poder concentrado em uma única pessoa é vulnerável demais. Ao mesmo tempo, a Polícia Federal apura se pessoas próximas ao presidente, incluindo seu filho Lulinha e seu ex-chefe de gabinete Marcola, participaram de esquemas de tráfico de influência e corrupção envolvendo ministérios federais. A tensão entre o discurso refo
Lula propõe conselho para indicações ao STF e defende filho em investigações
Quando o cara coloca a toga, ele vira Deus
O presidente está propondo mudar como o Brasil escolhe ministros do STF. Isso é uma resposta direta às investigações envolvendo seu filho, ou é uma proposta genuína de reforma?
Lula apresenta como uma questão de princípio — ele diz que o sistema atual é vulnerável e concentra poder demais. Mas o timing é notável: ele faz essa declaração enquanto seu filho está sendo investigado por tráfico de influência.
Espera. Precisamos separar duas coisas aqui. A proposta de conselho para indicações é uma ideia que pode ter mérito independente. Mas quando o presidente defende a inocência de seu filho na mesma entrevista, enquanto a PF tem mensagens de malas com dinheiro vivo, fica difícil não ver uma conexão.
Então o que a Polícia Federal realmente encontrou? Qual é a evidência concreta?
Mensagens de Roberta Luchsinger — a lobista — mostrando que ela mantinha malas com centenas de milhares de reais em dinheiro vivo. Ela ordenou pagamentos a servidores do Ministério do Desenvolvimento Social. Parte do dinheiro foi para Fernando Bittar, que era sócio de Lulinha.
Mas aqui está o ponto: ter dinheiro vivo e fazer pagamentos não é automaticamente crime. A PF está investigando se isso constitui corrupção, mas a investigação ainda está em andamento. Luchsinger tentava vender medicamentos de canabidiol ao Ministério da Saúde — um contrato que nunca saiu do papel.
E Marcola, o ex-chefe de gabinete? Ele também está envolvido?
Marcola recebeu a minuta do contrato de Luchsinger. Ele também recebeu 249 mil reais dela, que ele diz que foi um empréstimo pessoal já quitado. Mas a PF está investigando se isso faz parte de um esquema maior de tráfico de influência.
Novamente, Marcola tem uma explicação para o dinheiro. A questão é se a PF consegue provar que havia quid pro quo — que ele ou Lulinha fizeram algo em troca. Isso ainda não está estabelecido nos documentos públicos.
Então por que Lula está defendendo tão vigorosamente a inocência deles?
Porque são seu filho e seu ex-chefe de gabinete. Mas também porque, se forem condenados, isso prejudica seu governo e seu legado. A defesa dele é pessoal e política ao mesmo tempo.
E a proposta de reforma do STF? É uma cortina de fumaça ou uma ideia real?
Provavelmente ambas. Pode ser uma ideia genuína que Lula acredita, mas o fato de ele apresentá-la enquanto está em uma posição defensiva sobre investigações envolvendo seu círculo próximo muda como as pessoas vão recebê-la.
El Pulso
- Lula admite que o sistema atual de indicações ao STF concentra poder excessivo e propõe envolver a sociedade civil na escolha dos ministros — uma autocrítica incomum vinda de quem detém esse poder.
- Seu filho Lulinha está no centro de três inquéritos da Polícia Federal que investigam tráfico de influência e corrupção ligados a negociações com o Ministério da Saúde.
- O ex-chefe de gabinete Marcola recebeu a minuta de um contrato milionário de uma lobista que, segundo a PF, circulava com malas contendo centenas de milhares de reais em dinheiro vivo.
- Mensagens extraídas do celular da empresária Roberta Luchsinger revelam pagamentos em espécie a servidores públicos e ao empresário Fernando Bittar, ex-sócio de Lulinha.
- Lula defendeu publicamente a inocência do filho e de Marcola, mas as investigações seguem em curso, com a PF mapeando conexões entre os pagamentos e o governo federal.
Em um momento em que as instituições brasileiras enfrentam questionamentos sobre sua legitimidade, o presidente Lula propôs, em entrevista no Palácio da Alvorada, a criação de um conselho para mediar as indicações ao Supremo Tribunal Federal — reconhecendo, ele próprio, que o poder concentrado em uma única pessoa é vulnerável demais. Ao mesmo tempo, a Polícia Federal apura se pessoas próximas ao presidente, incluindo seu filho Lulinha e seu ex-chefe de gabinete Marcola, participaram de esquemas de tráfico de influência e corrupção envolvendo ministérios federais. A tensão entre o discurso reformista e as sombras que cercam o entorno presidencial coloca em relevo uma questão antiga: quem vigia os que propõem vigiar?
No domingo 27 de setembro, o presidente Lula concedeu entrevista à TV Bandeirantes no Palácio da Alvorada e surpreendeu ao propor uma reforma no processo de indicações ao Supremo Tribunal Federal. Para ele, o modelo atual é vulnerável por concentrar a decisão nas mãos de uma única pessoa, e um conselho com participação da sociedade civil deveria avaliar os candidatos à toga. Lula também criticou a duração dos mandatos — que podem chegar a décadas — e afirmou que muitos ministros, após a nomeação, passam a se comportar como se fossem deuses. Questionou ainda como magistrados com salários de 43 mil reais conseguem acumular fortunas, estendendo a crítica a deputados, governadores e presidentes.
Na mesma entrevista, o presidente defendeu seu filho Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, alvo de três inquéritos da Polícia Federal por suspeita de tráfico de influência e corrupção. Uma das investigações examina se Lulinha teria favorecido o lobista conhecido como Careca do INSS — apontado como figura central em desvios de aposentadorias e pensões — em negociações com o Ministério da Saúde. Lula também defendeu seu ex-chefe de gabinete Marcola, igualmente investigado.
As apurações revelaram que Marcola recebeu de uma empresária, Roberta Luchsinger, a minuta de um contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O contrato nunca se concretizou, mas em setembro descobriu-se que Luchsinger havia transferido 249 mil reais a Marcola — valor que ele descreveu como empréstimo pessoal já quitado.
A Polícia Federal foi além: mensagens extraídas do celular de Roberta Luchsinger mostram que ela mantinha malas com grandes somas em dinheiro vivo. Em uma conversa com seu motorista Ulisses Barbosa, ele informou ter trazido uma mala com 500 mil reais de um lado e cerca de 90 mil do outro. Parte desse dinheiro teria sido entregue ao empresário Fernando Bittar, ex-sócio de Lulinha, e pagamentos em espécie também foram feitos a servidores do Ministério do Desenvolvimento Social. As investigações seguem em andamento, com a PF buscando mapear as conexões entre os repasses, os servidores públicos e os beneficiários das transações.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em entrevista concedida no domingo 27 de setembro, que o sistema atual de indicações para ministros do Supremo Tribunal Federal não pode permanecer como está. Durante a conversa gravada no Palácio da Alvorada com a TV Bandeirantes, Lula propôs a criação de um conselho que avaliasse as indicações presidenciais, envolvendo a sociedade civil no processo de escolha dos magistrados. A mudança, segundo o presidente, seria necessária porque o critério atual é vulnerável demais e concentra poder excessivo nas mãos de uma única pessoa.
Na mesma entrevista, Lula argumentou que as indicações precisam examinar com muito mais rigor a biografia dos candidatos, buscando pessoas que demonstrem coerência e responsabilidade ao longo de suas carreiras. O presidente também criticou a duração dos mandatos, sugerindo que períodos de 35 a 45 anos são excessivos. Lula ainda fez críticas mais amplas aos ministros da corte, afirmando que muitos deles, após receberem a toga, comportam-se como se tivessem se transformado em deuses. Ele também questionou a compatibilidade entre a função de ministro e o enriquecimento pessoal, observando que um salário de 43 mil reais não deveria permitir que alguém ficasse rico, assim como ocorre com deputados, governadores e presidentes.
Durante a mesma entrevista, Lula defendeu a inocência de seu filho, Fábio Luis Lula da Silva, conhecido como Lulinha, que está sendo investigado pela Polícia Federal em três inquéritos diferentes. As investigações apuram possíveis crimes de tráfico de influência e corrupção. Uma das linhas de investigação examina se Lulinha atuou para favorecer o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, em negociações com o Ministério da Saúde. O Careca do INSS é apontado como um dos principais responsáveis por desvios de aposentadorias e pensões. Lula também saiu em defesa de seu ex-chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, que também está envolvido nas investigações.
As investigações da Polícia Federal revelaram que Marcola recebeu a minuta de um contrato para venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde. O documento foi enviado pela empresária Roberta Luchsinger, que tentava fechar o negócio com a pasta. O contrato nunca foi concretizado. No início de setembro, descobriu-se que Luchsinger havia repassado dinheiro a Marcola. Em nota, o ex-chefe de gabinete afirmou que a transferência foi de 249 mil reais e resultou de um empréstimo pessoal que já havia sido quitado.
A Polícia Federal também encontrou mensagens mostrando que Roberta Luchsinger pagou servidores do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. As mensagens analisadas pela corporação indicam que a empresária mantinha malas com grandes quantidades de dinheiro vivo para fazer pagamentos. Em março de 2023, em uma conversa com Ulisses Barbosa, seu auxiliar pessoal e motorista, Barbosa informou: trouxe a mala, um lado tem 500 mil, o outro lado tem o que sobrou, 90 mil mais ou menos. Segundo o jornal Estadão, parte desses valores foi entregue ao empresário Fernando Bittar, ex-sócio de Lulinha. A TV Globo confirmou que essas informações foram extraídas pela Polícia Federal do celular de Roberta.
As mensagens mostram que Luchsinger ordenou que Ulisses Barbosa entregasse 193 mil reais a Bittar. A Polícia Federal também identificou mensagens em que Roberta Luchsinger ordenou que seu motorista fizesse pagamentos em dinheiro vivo a dois servidores do Ministério do Desenvolvimento Social. O conjunto de evidências aponta para um padrão de movimentação de recursos que a corporação está investigando como possível corrupção envolvendo o governo federal. As investigações continuam em andamento, com a PF buscando esclarecer as conexões entre os pagamentos, os servidores públicos e os beneficiários das transações.
Citas Notables
A única coisa que eu posso dizer é que não pode continuar do jeito que está— Presidente Lula, criticando o sistema atual de indicações ao STF
Um ministro não pode querer ficar rico, é incompatível a função de quem recebe R$ 43 mil e ficar rico— Presidente Lula, sobre comportamento de ministros