Lula propõe colegiado com sociedade civil para indicações ao STF

Quando o cara coloca toga, ele vira Deus
Lula reconhece que ministros indicados por ele ganham independência total após a posse no STF.
Mark

Por que Lula está falando sobre isso agora, em plena campanha eleitoral? Parece um tema técnico demais para o momento.

Mimi

Não é só técnico. A rejeição de Messias em abril foi um choque para o governo. Pela primeira vez em 130 anos, o Senado disse não. Isso deixou claro que indicar não é mais garantia de nada.

Luke

Mas espera. Lula está propondo um colegiado com sociedade civil, mas a PEC que o PT já protocolou não menciona isso. Como sabemos que essa proposta vai virar lei?

Mimi

Boa pergunta. Por enquanto é só uma ideia que ele está testando publicamente. A PEC mantém as competências atuais de indicação e aprovação.

Mark

Então o que muda de verdade? Se o Senado continua tendo poder de veto, e o presidente continua indicando, qual é o ganho?

Mimi

O colegiado seria um filtro antes do Senado. Teoricamente, se a sociedade civil já avaliou e aprovou, fica mais difícil o Senado rejeitar depois.

Luke

Teoricamente. Mas quem escolhe a sociedade civil? Como evita que vire só outro espaço de disputa política?

Mimi

Lula não respondeu isso. Ele disse que "temos que pensar como criar". É vago.

Mark

E quanto à frase dele, "quando coloca toga, vira Deus"? Isso não é uma crítica ao próprio sistema que ele criou?

Mimi

Exatamente. Ele está admitindo que indicar ministros não garante lealdade. Eles ganham independência. Então por que deixar a escolha só com o presidente?

Luke

Porque a Constituição diz assim. Mudar isso exigiria uma emenda. E emendas precisam de apoio político que talvez não exista.

  • A rejeição de Jorge Messias pelo Senado em abril — a primeira em mais de 130 anos — expôs uma ruptura inédita entre Executivo e Legislativo na composição do STF.
  • Lula reconheceu publicamente que ministros por ele indicados se tornam independentes após a posse, resumindo o fenômeno com a frase 'quando coloca toga, vira Deus'.
  • A proposta de um colegiado com sociedade civil ainda não tem forma institucional definida: o presidente não especificou quais setores participariam nem como o mecanismo funcionaria.
  • O PT já protocolou uma PEC em setembro com mandatos de dez anos para ministros e maior participação civil no CNJ, mas o texto preserva as regras atuais de indicação e aprovação.
  • A ideia do colegiado funcionaria como filtro anterior à indicação formal, buscando legitimar a escolha antes que ela chegue ao Senado e reduza o risco de nova rejeição pública.

Em democracias maduras, a escolha dos guardiões da lei sempre revelou a tensão entre o poder que indica e a instituição que deve ser independente. Neste domingo, o presidente Lula propôs que um colegiado com representantes da sociedade civil avalie candidatos ao Supremo Tribunal Federal antes de o nome chegar ao Senado — uma resposta, ao mesmo tempo filosófica e pragmática, à constatação de que ministros indicados por ele frequentemente agem com autonomia plena após a posse. A proposta surge num momento em que o Senado rejeitou, pela primeira vez em mais de 130 anos, um indicado presidencial ao STF, sinalizando que o equilíbrio entre os poderes está sendo renegociado em tempo real.

O presidente Lula defendeu neste domingo uma mudança profunda na forma como o Brasil escolhe seus ministros do Supremo Tribunal Federal. Em entrevista ao Canal Livre, da Band, ele propôs a criação de um colegiado com representantes da sociedade civil para avaliar candidatos antes de o presidente encaminhá-los ao Senado — retirando da Presidência a prerrogativa exclusiva de decidir sozinha.

A reflexão vem de uma experiência acumulada ao longo de seus mandatos: ministros por ele indicados frequentemente tomam decisões que divergem dos interesses do governo. 'Quando o cara coloca toga, ele vira Deus', disse Lula, reconhecendo que a independência dos magistrados os coloca além da influência presidencial após a posse. Esse reconhecimento o levou a questionar se o modelo atual ainda é adequado.

O presidente, porém, não detalhou como o colegiado funcionaria na prática nem quais setores participariam. Sua fala indicou apenas a necessidade de 'pensar como criar' um mecanismo mais plural — algo além da vontade presidencial ou da indicação da OAB.

O pano de fundo político é concreto e recente. Em abril, o Senado rejeitou Jorge Messias, indicado por Lula, por 42 votos a 34 — a primeira rejeição a uma indicação presidencial ao STF em mais de 130 anos, desde o governo Floriano Peixoto em 1894. O episódio mostrou que o Legislativo está disposto a usar seu poder de aprovação como instrumento de controle sobre o Executivo.

O PT já colocou em tramitação uma PEC apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes, de Minas Gerais, que estabelece mandatos de até dez anos para ministros do STF e de outras cortes superiores, além de ampliar a participação da sociedade civil no CNJ e no CNMP. No entanto, o texto preserva as competências atuais de indicação e aprovação — o que significa que a proposta do colegiado mencionada por Lula ainda não está formalizada em nenhuma emenda em tramitação.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu neste domingo uma reformulação profunda no processo de escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, propondo que a decisão deixe de ser prerrogativa exclusiva do Executivo. Em entrevista ao Canal Livre, da Band, ele sugeriu a criação de um colegiado que incluísse representantes da sociedade civil para avaliar os candidatos antes que o presidente os encaminhasse ao Senado para aprovação.

A proposta emerge de uma reflexão que Lula desenvolveu ao longo de seus mandatos: a constatação de que ministros indicados por ele frequentemente tomam decisões que divergem dos interesses do governo. "Uma coisa é quando você indica. Outra coisa é quando bota toga. Quando o cara coloca toga, ele vira Deus", afirmou, reconhecendo que a independência dos magistrados após a posse os coloca além da influência presidencial. Essa experiência o levou a questionar se o modelo atual, em que apenas o presidente escolhe os nomes, permanece adequado.

O presidente não forneceu detalhes sobre como o colegiado funcionaria na prática, nem especificou quais setores da sociedade civil participariam da avaliação. Sua fala sugeriu apenas que seria necessário "pensar como criar" um mecanismo que permitisse que alguém chegasse ao STF não apenas pela vontade do presidente ou pela indicação da Ordem dos Advogados do Brasil, mas após passar por um crivo mais amplo.

Esta não é a primeira vez que o tema ganha tração no governo petista. Em 11 de setembro, o PT protocolou uma Proposta de Emenda à Constituição apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes, de Minas Gerais, que traz mudanças significativas na estrutura do Judiciário. A PEC estabelece mandatos de até dez anos para ministros do STF, do Superior Tribunal de Justiça, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal Militar. Também amplia a participação da sociedade civil no Conselho Nacional de Justiça e no Conselho Nacional do Ministério Público. Porém, o texto preserva as competências atuais de indicação, escolha, nomeação e aprovação dos ministros das cortes, o que significa que a proposta do colegiado que Lula mencionou não está formalizada na emenda.

O contexto político que alimenta essa discussão é recente e marcante. Em 29 de abril deste ano, o plenário do Senado rejeitou Jorge Messias, indicado por Lula, com 42 votos contra 34. Foi a primeira rejeição a uma indicação presidencial para o STF em mais de 130 anos. As rejeições anteriores datam de 1894, durante o governo de Floriano Peixoto. O episódio expôs uma tensão latente: embora a Constituição reserve ao presidente o direito de indicar, o Senado possui poder de veto, e esse poder foi exercido de forma inédita na história republicana recente.

A Constituição estabelece que os indicados devem ter mais de 35 anos e menos de 70, além de notável saber jurídico e reputação ilibada. Essas exigências formais, porém, não impedem que questões políticas e ideológicas pesem nas deliberações do Senado. A rejeição de Messias sinalizou que o Legislativo está disposto a usar seu poder de aprovação como ferramenta de controle sobre as escolhas do Executivo.

A proposta de Lula de envolver a sociedade civil antes do Senado representa uma tentativa de deslocar o debate: em vez de deixar que a rejeição ocorra apenas no Senado, após a indicação presidencial já ter sido feita, o colegiado funcionaria como um filtro anterior, legitimando a escolha através de uma avaliação mais plural. Isso poderia, na teoria, reduzir o risco de rejeições posteriores ao oferecer um processo mais transparente e participativo. Mas a proposta ainda carece de definição institucional, e permanece incerto se ela será incorporada à reforma do Judiciário que o PT já colocou em tramitação ou se seguirá um caminho próprio.

Acho que nós temos que criar um critério de como envolver a sociedade civil para que a gente indique alguém que não seja só da vontade do presidente ou da OAB
— Lula, em entrevista ao Canal Livre
Uma coisa é quando você indica. Outra coisa é quando bota toga. Quando o cara coloca toga, ele vira Deus
— Lula, refletindo sobre a independência de ministros após a posse
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