Lula promete rediscutir acordo Mercosul-UE se eleito, citando risco à reindustrialização

Negociação tem que ser uma coisa em que todos ganham
Lula explica sua posição sobre o acordo Mercosul-UE durante entrevista a jornalistas estrangeiros em São Paulo.

Após duas décadas de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia permanece em suspenso — não ratificado, não implementado, e agora contestado. O candidato Lula, falando a jornalistas estrangeiros em São Paulo, declarou que o pacto de 2019 não representa os interesses do Brasil e que, se eleito, buscará renegociá-lo, colocando a reindustrialização nacional no centro de qualquer futura conversa. O destino do acordo, que já enfrenta resistências ambientais na Europa, dependerá tanto das urnas quanto da vontade de dois blocos em recomeçar um diálogo que durou vinte anos.

  • Lula descarta o acordo Mercosul-UE de 2019 como ilegítimo, argumentando que nunca foi plenamente concretizado e não reflete o que o Brasil deseja.
  • A estrutura tarifária do pacto — que abriria 91% do mercado sul-americano a produtos europeus — é vista pelo candidato como uma ameaça direta à recuperação industrial brasileira.
  • Na Europa, o acordo já sangra por outro flanco: o Parlamento Europeu condicionou sua ratificação a mudanças ambientais, pressionado por preocupações com o desmatamento na Amazônia.
  • O governo Bolsonaro celebrou o acordo em 2019 e rejeitou as críticas europeias, acusando países como a França de motivações ocultas sobre o território amazônico.
  • O futuro do pacto agora orbita em torno de duas incógnitas: o resultado das eleições brasileiras e a disposição de ambos os blocos em sentar novamente à mesa.

Durante entrevista a jornalistas estrangeiros em São Paulo, o candidato Lula foi direto: o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, fechado em 2019 após vinte anos de negociações, não é válido aos seus olhos. Se chegar à presidência, pretende renegociar os termos com os europeus, colocando a reindustrialização do Brasil como condição inegociável.

O pacto, ainda não ratificado pelos parlamentos de todos os países envolvidos, prevê a eliminação de tarifas sobre 91% dos produtos europeus exportados ao Mercosul e 92% dos produtos sul-americanos no sentido inverso, ao longo de dez anos. Para Lula, essa equação favorece os europeus e deixa o Brasil vulnerável. "Negociação tem que ser uma coisa em que todos ganham", disse o petista, defendendo que o país não pode abrir mão do direito de se reindustrializar.

A resistência ao acordo não vem apenas do Brasil. Na Europa, movimentos populares pressionaram governos diante do avanço do desmatamento e das queimadas na Amazônia durante o governo Bolsonaro. Em 2020, o Parlamento Europeu aprovou resolução exigindo compromissos ambientais dos países do Mercosul como condição para ratificação. O governo Bolsonaro rebateu as críticas negando negligência ambiental e sugerindo que as pressões — especialmente francesas — escondiam interesses sobre o território amazônico.

Com Lula propondo reabrir as negociações, o acordo que levou duas décadas para ser costurado enfrenta agora sua maior incerteza: depende do voto dos brasileiros e da paciência de dois blocos dispostos, ou não, a recomeçar.

Lula deixou claro, durante entrevista a jornalistas estrangeiros em São Paulo, que não considera válido o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia fechado em 2019. Se eleito presidente, disse, pretende sentar à mesa com os europeus para renegociar os termos do pacto, argumentando que a atual versão ameaça os planos de reindustrialização do Brasil.

O acordo, que levou duas décadas para ser negociado, ainda não entrou em vigor. Apesar de anunciado em 2019, depende de aprovação pelos parlamentos de todos os países envolvidos — uma etapa que ainda não foi concluída. Quando implementado, o pacto eliminaria tarifas sobre 91% dos produtos que a União Europeia exporta para o Mercosul ao longo de dez anos, enquanto o bloco sul-americano teria tarifas removidas de 92% de seus produtos no mesmo período.

Para Lula, essa estrutura não serve aos interesses brasileiros. O país, em sua avaliação, passou por um processo de desindustrialização nos últimos anos e precisa recuperar o peso da indústria na economia. Um acordo que abre o mercado brasileiro para produtos europeus sem garantias adequadas de proteção à indústria local prejudicaria esse objetivo. "O acordo não é válido porque não foi sequer concretizado em plenitude. O Brasil não é obrigado a concordar com um acordo que não respeita aquilo que é o desejo do Brasil", afirmou o candidato petista.

Ele insistiu que qualquer negociação comercial deve ser mutuamente benéfica. "Negociação tem que ser uma coisa em que todos ganham. Não pode ser uma coisa em que um ganha e o outro não ganha. O que nós queremos na discussão da Europa é não abrir mão do nosso interesse em nos reindustrializar", completou.

O acordo foi celebrado pelo governo Bolsonaro quando foi anunciado, mas enfrentou resistência crescente na Europa nos meses seguintes. Países europeus começaram a sinalizar rejeição ao pacto, pressionados por movimentos populares preocupados com o aumento de queimadas e desmatamento na Amazônia. Em outubro de 2020, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução pedindo mudanças na agenda ambiental dos países do Mercosul como condição para ratificação do acordo, com o objetivo de garantir respeito a políticas de desenvolvimento sustentável e combate à crise climática.

O governo Bolsonaro respondeu às críticas negando que o Brasil descuide do meio ambiente e sugerindo que as pressões europeias — em especial da França — eram motivadas por outros interesses, incluindo cobiça pelo território amazônico. Agora, com Lula propondo renegociar os termos, o futuro do acordo dependerá tanto do resultado das eleições quanto da disposição de ambos os blocos em voltar à mesa de negociações.

O acordo não é válido porque não foi sequer concretizado em plenitude. O Brasil não é obrigado a concordar com um acordo que não respeita aquilo que é o desejo do Brasil.
— Lula
O que nós queremos na discussão da Europa é não abrir mão do nosso interesse em nos reindustrializar
— Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que Lula acha que esse acordo, depois de vinte anos de negociação, não é válido?

Model

Porque ele ainda não foi ratificado por todos os parlamentos — está suspenso, não é lei ainda. Mas mais que isso: Lula vê nele um risco real. Se o Brasil abre o mercado para produtos europeus sem proteção adequada à sua indústria, fica mais difícil reconstruir o setor manufatureiro que enfraqueceu nos últimos anos.

Inventor

Então é uma questão de timing político? Ele quer renegociar porque está em campanha?

Model

Não é só isso. É verdade que está em campanha, mas a preocupação com reindustrialização é genuína — é parte de um projeto econômico maior. O que muda é que agora ele tem voz para dizer que não aceita os termos como estão.

Inventor

E a Europa? Por que eles também não ratificaram?

Model

Porque a Amazônia virou moeda de troca. Quando as queimadas explodiram em visibilidade internacional, movimentos europeus começaram a pressionar seus governos. O Parlamento Europeu pediu mudanças ambientais como condição. Bolsonaro recusou, disse que era interferência. Agora Lula chega dizendo: vamos conversar de novo, mas em bases diferentes.

Inventor

Qual é o risco real para o Brasil se esse acordo passar como está?

Model

Inundação de produtos europeus sem barreiras tarifárias suficientes. A indústria brasileira, já enfraquecida, teria dificuldade de competir. É a diferença entre um acordo que protege ambos os lados e um que favorece quem já é mais forte.

Inventor

Isso significa que Lula quer protecionismo?

Model

Ele quer negociação equilibrada. Não é fechar a porta, é não abrir demais sem garantias. É dizer: vocês ganham acesso ao nosso mercado, mas nós também ganhamos algo que nos importa — espaço para reconstruir nossa indústria.

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