Se depender do Trump e de mim, haverá acordo
Em Kuala Lumpur, dois líderes de mundos ideológicos distintos sentaram-se à mesma mesa e encontraram, ao menos por ora, uma linguagem comum: a do pragmatismo comercial. Lula saiu do encontro com Trump convencido de que um acordo entre Brasil e Estados Unidos está próximo, sustentado por dados que contestam a narrativa protecionista americana e por um calendário de negociações já acordado. O momento revela que, na diplomacia, o respeito mútuo pode abrir caminhos onde a ideologia erguia muros.
- Meses de tensão tarifária entre Brasil e EUA chegaram a um ponto de inflexão após encontro 'surpreendentemente bom' entre Lula e Trump na Malásia.
- O Brasil apresentou provas concretas de que os EUA acumularam superávit de US$ 410 bilhões em 15 anos de trocas comerciais, desafiando a justificativa das tarifas.
- Ministros e negociadores dos dois países já se reuniram no Ritz Carlton de Kuala Lumpur para estruturar um cronograma formal de negociações.
- Uma equipe brasileira de alto nível será enviada a Washington nas próximas semanas para avançar rumo a um acordo — mas as tarifas seguem vigentes por enquanto.
- Lula foi enfático: um eventual acordo com os EUA não compromete a parceria estratégica do Brasil com a China nem sua autonomia diplomática.
Lula deixou a Malásia no sábado com uma convicção rara em tempos de tensão comercial: um acordo com os Estados Unidos estava ao alcance. Na segunda-feira, em coletiva em Kuala Lumpur, descreveu a conversa com Trump como 'surpreendentemente boa', marcada por respeito mútuo apesar das diferenças ideológicas. 'Se depender do Trump e de mim, haverá acordo', afirmou, sinalizando que o impasse dos últimos meses poderia estar chegando ao fim.
O argumento brasileiro foi apresentado com números. Nos últimos 15 anos, os EUA acumularam superávit de US$ 410 bilhões nas trocas com o Brasil — dado que contradiz diretamente a narrativa que sustentou as tarifas protecionistas. Lula entregou as demandas por escrito e pediu a suspensão das medidas que considera injustas. Trump, segundo o presidente brasileiro, demonstrou disposição para resolver o impasse rapidamente.
O encontro também tocou em política interna. Lula explicou a Trump a gravidade do julgamento de Bolsonaro no STF, incluindo o plano frustrado de assassinato de autoridades. Trump teria ficado surpreso e compreendido a seriedade do caso. Lula aproveitou para declarar que Bolsonaro é 'página virada' e que, após mais reuniões, Trump perceberá que seu antigo aliado 'era nada, praticamente'.
Na manhã de segunda-feira, o chanceler Mauro Vieira, acompanhado de Márcio Elias Rosa e do embaixador Audo Faleiro, reuniu-se com o representante comercial americano Jamieson Greer e o secretário do Tesouro Scott Bessent. Os dois lados acordaram um cronograma: o Brasil enviará equipe de alto nível a Washington nas próximas semanas para avançar nas negociações.
Lula foi claro sobre os limites do acordo: a aproximação com Washington não altera em nada a relação com a China, principal parceiro comercial do Brasil. A estratégia é negociar com todos sem aceitar condicionalidades. O otimismo é real, mas as tarifas ainda não foram suspensas — e o calendário exato para sua reversão permanece em aberto.
Lula saiu do encontro com Trump na Malásia no sábado convencido de que um acordo comercial entre Brasil e Estados Unidos estava ao alcance. Na segunda-feira, em coletiva de imprensa em Kuala Lumpur, o presidente brasileiro descreveu a conversa como "surpreendentemente boa" e conduzida com respeito mútuo, apesar das diferenças ideológicas que separam os dois líderes. "Se depender do Trump e de mim, haverá acordo", afirmou, sinalizando otimismo sobre as negociações que devem ocorrer nas próximas semanas.
O tom da conversa refletiu uma mudança de postura em relação aos meses anteriores de tensão comercial. Lula entregou por escrito as demandas brasileiras e reforçou o pedido de suspensão das tarifas que considera injustas e baseadas em dados incorretos sobre a economia brasileira. Apresentou números concretos: nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam um superávit de US$ 410 bilhões nas trocas comerciais com o Brasil, contradizendo a narrativa que justificava as medidas protecionistas. Trump, segundo Lula, demonstrou disposição para resolver rapidamente o impasse e orientou sua equipe a buscar uma solução em poucas semanas.
O encontro também tocou em questões políticas internas brasileiras. Lula explicou a Trump a gravidade do julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, mencionando inclusive um plano frustrado para assassinar o presidente em exercício, o vice-presidente e o ministro Alexandre de Moraes. Trump, segundo Lula, ficou surpreso com as informações e compreendeu a seriedade do caso. O presidente brasileiro aproveitou para descartar qualquer tentativa de politização das relações bilaterais, reforçando que as instituições brasileiras agiram com base legal sólida e provas contundentes.
Na sequência das conversas presidenciais, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, participou de uma reunião de negociação na manhã de segunda-feira no hotel The Ritz Carlton, onde Trump estava hospedado. Ao lado dele estavam o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, e o embaixador Audo Faleiro. Pelo lado americano, compareceram o representante comercial Jamieson Greer e o secretário do Tesouro, Scott Bessent. Os dois países acordaram em um cronograma de negociações, com o Brasil comprometendo-se a enviar uma equipe de alto nível a Washington para avançar nas discussões.
Lula foi claro ao afirmar que Bolsonaro é "página virada" na política brasileira. Com certa confiança, declarou que após três reuniões com Trump, o presidente americano perceberá que seu antecessor "era nada, praticamente". A mensagem era dupla: consolidar a narrativa de que o Brasil havia superado a crise institucional anterior e reafirmar que as relações bilaterais com os Estados Unidos seguiriam em novo patamar, baseadas no pragmatismo e no respeito mútuo entre dois líderes democraticamente eleitos.
Um ponto importante que Lula deixou claro foi que o acordo comercial com os Estados Unidos não alteraria a relação do Brasil com a China, seu principal parceiro comercial. "Isso não tem nenhuma implicação na relação do Brasil com a China. São coisas totalmente distintas", respondeu quando questionado se haveria reequilíbrio na política externa. O presidente reafirmou que o Brasil manteria relações autônomas e equilibradas com todos os parceiros, incluindo a União Europeia, sem aceitar condicionalidades. A estratégia era clara: negociar com Washington sem sacrificar a flexibilidade diplomática que caracteriza a inserção internacional brasileira.
Apesar do otimismo, as reuniões em Kuala Lumpur não resultaram na suspensão imediata das tarifas, como Lula havia solicitado a Trump. O cronograma acordado deixa em aberto quando e como essas medidas serão revertidas, mantendo a incerteza sobre o calendário exato das negociações. Ainda assim, a mudança de tom e a disposição demonstrada por ambos os lados sugerem que o impasse comercial que marcou os primeiros meses da administração Trump pode estar entrando em uma nova fase, onde a negociação substitui a confrontação.
Notable Quotes
O fato de termos posições políticas diferentes não impede que dois chefes de Estado tratem a relação entre seus países com respeito— Lula
Com três reuniões que ele fizer comigo, vai perceber que o Bolsonaro era nada, praticamente— Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Como você avalia essa mudança de tom entre Lula e Trump, considerando a hostilidade anterior?
O encontro parece ter funcionado como um reset. Ambos chegaram dispostos a separar as diferenças ideológicas da negociação comercial concreta. Lula conseguiu apresentar dados que desmentem a narrativa das tarifas, e Trump respondeu com abertura.
Por que Lula mencionou o plano de assassinato durante uma conversa sobre comércio?
Porque precisava estabelecer credibilidade institucional. Trump precisava entender que o Brasil não é um país em caos político, que suas instituições funcionam. Era uma forma de dizer: você está negociando com um governo sério.
A questão da China parece importante demais para ser apenas um parêntese.
Exatamente. Lula está sinalizando que não vai escolher entre Washington e Pequim. Quer manter a autonomia. É uma mensagem tanto para Trump quanto para a China de que o Brasil não será pressionado a tomar lados.
E quanto a Bolsonaro? Por que insistir que é "página virada"?
Porque Trump pode ter simpatia por Bolsonaro. Lula precisa convencê-lo de que aquele capítulo não volta. Que o Brasil mudou, que agora há estabilidade. É uma garantia de que não haverá retorno a instabilidades anteriores.
O cronograma acordado é vinculante?
Não parece. É um compromisso de negociar, não um acordo fechado. As tarifas continuam em vigor. Lula saiu otimista, mas a verdadeira prova será se Washington suspende as medidas enquanto as negociações avançam.