Flávio Bolsonaro lidera primeiro turno com 47,03% contra 45,16% de Lula; segundo turno ocorre em 25 de outubro. Safatle aponta que falta entusiasmo na campanha petista; eleitor precisa estar mobilizado por projeto de transformação, não apenas por medo.
Lula pode virar no 2º turno se tirar eleitor da melancolia, diz Safatle
O eleitor precisa estar entusiasmado com um projeto, não apenas com medo
Safatle está dizendo que Lula pode vencer, mas depende inteiramente de mobilização de base? Isso não é um pouco otimista, dado que Flávio está à frente?
Não é otimismo ingênuo. Ele está apontando que em 2021 no Chile, Boric estava em posição pior — perdeu o primeiro turno — e ainda assim virou. A diferença foi que conseguiu gerar entusiasmo real, não apenas voto defensivo.
Mas o Chile é o Chile. Boric tinha uma estrutura de esquerda mais organizada. Aqui, Safatle mesmo diz que a esquerda "foi desmobilizando" sua base ao longo dos anos. Ele está descrevendo um problema real, mas não oferece um plano concreto para resolvê-lo em três semanas.
Ele menciona a reversão da reforma trabalhista como exemplo de bandeira. Mas Lula já prometeu isso antes, não?
Sim, mas Safatle está dizendo que não basta prometer. Precisa ser visível, um processo que o eleitor vê acontecendo. Ele quer que Lula mostre ação, não apenas discurso.
Aqui está o problema: a reforma trabalhista é uma batalha legislativa complexa. Não é algo que Lula controla sozinho. Se ele prometer reverter e depois o Congresso bloquear, o que acontece com esse entusiasmo que Safatle quer despertar?
A abstenção recorde — 21,08% — é realmente o fator decisivo?
Para Safatle, sim. Se você conseguir tirar 30% desses eleitores da melancolia e colocá-los nas ruas, fazendo trabalho de base, muda o jogo. Não é matemática, é mobilização.
Mas abstenção não é homogênea. Alguns não votam por desânimo, outros por falta de acesso, outros por desinteresse genuíno. Safatle está agrupando tudo sob "melancolia" — é uma categoria útil, mas talvez simplificar demais.
El Pulso
- Flávio Bolsonaro lidera com 47,03% contra 45,16% de Lula no primeiro turno
- Segundo turno marcado para 25 de outubro
- Abstenção recorde de 21,08% (33,4 milhões de eleitores) no primeiro turno
- No Chile 2021, Boric perdeu primeiro turno por 2 pontos e venceu segundo turno com 55,85%
Flávio Bolsonaro lidera primeiro turno com 47,03% contra 45,16% de Lula; segundo turno ocorre em 25 de outubro. Safatle aponta que falta entusiasmo na campanha petista; eleitor precisa estar mobilizado por projeto de transformação, não apenas por medo.
Filósofo Vladimir Safatle afirma que Lula pode reverter desvantagem contra Flávio Bolsonaro no segundo turno se conseguir entusiasmar sua base eleitoral, citando exemplo de Boric no Chile.
Vladimir Safatle, filósofo e analista político, ofereceu uma avaliação contracorrente sobre o segundo turno presidencial em entrevista ao programa Direto da Redação de CartaCapital. Embora Flávio Bolsonaro tenha avançado à próxima votação em vantagem — 47,03% contra 45,16% de Lula — Safatle argumenta que a disputa está longe de decidida, desde que o presidente consiga mobilizar sua base de forma genuína.
A história recente oferece precedente. No Chile, em 2021, Gabriel Boric perdeu o primeiro turno para José Antonio Kast por uma margem estreita: 25,8% contra 27,9%. Kast era o candidato de direita, análogo ao que Bolsonaro representa no Brasil. Boric, porém, reverteu a desvantagem no segundo turno, vencendo com 55,85% dos votos. Safatle invoca esse exemplo não como garantia, mas como prova de que nenhuma "impossibilidade estrutural" impede uma virada brasileira — contanto que as condições políticas se alinhem corretamente.
O problema, segundo Safatle, não reside na estratégia de campanha ou na figura do candidato. Reside no eleitor. "Quem ganha a eleição não é o candidato, o diretor de marketing ou o estrategista. Quem ganha é o eleitor, que vai bater na porta do vizinho, pegar os panfletos e distribuir na rua, convencer as pessoas no seu entorno." Esse trabalho de base — a mobilização orgânica que transforma simpatizantes em ativistas — exige uma coisa que Safatle identifica como ausente da campanha petista até agora: entusiasmo genuíno.
O que existe, em seu lugar, é medo. Uma parcela significativa do eleitorado de Lula está mobilizada principalmente pela perspectiva de um novo governo Bolsonaro. Safatle não nega a legitimidade desse medo, mas insiste que ele é insuficiente. "O eleitor não pode estar mobilizado só por isso, mas pelo entusiasmo de que está em um projeto de transformação estrutural da sociedade — que é duro, árduo, tem idas e vindas, mas é um projeto que você enxerga." A diferença é entre votar contra algo e votar a favor de algo. O segundo tipo de voto move pessoas para as ruas.
Como exemplo concreto de bandeira capaz de gerar esse entusiasmo, Safatle cita a reversão da reforma trabalhista de Michel Temer. Não é uma promessa abstrata, mas uma ação visível, um horizonte de luta que o eleitor pode acompanhar. "Você vê o processo andando — ou pelo menos vê o horizonte das lutas à sua frente. Isso não ocorreu e precisa ocorrer imediatamente para tirar esse setor do eleitorado da sua melancolia." A palavra é precisa: melancolia. Não desânimo total, mas uma espécie de desmobilização, de falta de esperança ativa.
Os números reforçam a urgência. A abstenção no primeiro turno atingiu 33,4 milhões de pessoas — 21,08% do eleitorado, um recorde. Em 2022, a abstenção havia sido de 20,9%. Lula, em seu primeiro pronunciamento após a votação, prometeu fazer um apelo a esses eleitores ausentes. Safatle, porém, sugere que o apelo precisa vir acompanhado de razões concretas para comparecer.
O modelo chileno oferece um roteiro. Boric e sua campanha organizaram células de militantes que literalmente batiam na porta de vizinhos, perguntando se já tinham decidido seu voto, oferecendo-se para conversar. Era trabalho de base puro, sem intermediários. "Esse é o processo," afirma Safatle. "A esquerda já teve isso em alguns de seus momentos mais orgânicos no País, mas foi desmobilizando isso cada vez mais." A segunda votação está marcada para 25 de outubro. O que Safatle sugere é que o tempo que resta deve ser usado não para convencer eleitores racionalmente, mas para despertar neles uma esperança que os tire da melancolia e os coloque nas ruas.
Citas Notables
Quem ganha a eleição não é o candidato, o diretor de marketing ou o estrategista. Quem ganha é o eleitor, que vai bater na porta do vizinho, pegar os panfletos e distribuir na rua.— Vladimir Safatle
O eleitor não pode estar mobilizado só por medo, mas pelo entusiasmo de que está em um projeto de transformação estrutural da sociedade.— Vladimir Safatle