No limiar de uma eleição que desafia qualquer certeza, a consultoria Eurasia Group mantém Lula com 55% de probabilidade de vitória — uma margem que, por si só, revela mais sobre a fragilidade do momento do que sobre qualquer solidez. A crise do Supremo Tribunal Federal funcionou como um abalo sísmico na campanha presidencial, apagando vantagens construídas e aproximando os dois candidatos de um empate real. O que resta, segundo o diretor Christopher Garman, é uma eleição cujo desfecho depende menos de grandes estratégias e mais de pequenos movimentos — noticiário, narrativa e o peso silencioso
Lula mantém 55% de chance de vitória, mas cenário permanece muito apertado
Numa eleição empatada, há vantagem ligeira para Lula pelo poder de incumbência
Se os modelos da Eurasia apontam 50% a 50%, por que manter 55% para Lula?
Porque o poder de incumbência pesa, mesmo que levemente. Quando tudo está empatado, quem está no poder tem uma vantagem pequena mas real.
Mas isso é uma suposição teórica, não um dado. Se os modelos dizem 50-50, por que não confiar neles?
A crise do Supremo prejudicou Lula, mas agora está arrefecendo. Isso significa que ele vai se recuperar completamente?
Não necessariamente. O sangramento parou, a aprovação estabilizou, mas o equilíbrio atual não é confortável para o presidente. É um alívio, não uma vitória.
E se a crise voltar às manchetes? Garman diz que é um "vento contrário" que pode carregar para o segundo turno. Isso é especulação sobre o futuro, não análise do presente.
Garman menciona fake news sobre Nossa Senhora Aparecida como um fator. Como isso se encaixa numa análise séria?
Ele não diz que é decisivo. Diz que é parte de um conjunto de medidas que criou um pequeno ímpeto. Nenhuma é uma "bala de prata".
Mas como se mede o impacto de uma fake news? Garman está atribuindo a recuperação de Lula a isso, mas não há dados que comprovem essa causalidade.
E quanto ao segundo turno? Garman tem uma fórmula específica sobre como os votos alternativos se distribuem.
Sim. Se Lula tiver 2 pontos de vantagem no primeiro turno com 8 a 10 pontos para outros candidatos, ele sai na frente no segundo. Se for apenas 1 ponto, Flávio pode vencer.
Mas isso depende de como esses votos se distribuem entre os candidatos. Garman reconhece que é "muito difícil" chegar a uma conclusão sobre isso. É uma variável que ninguém consegue prever com precisão.
Garman descarta interferência americana. Isso é convincente?
Ele reconhece que as ferramentas da Casa Branca são limitadas e que empresas americanas têm incentivos para não se envolver. É uma análise pragmática.
Mas ele também diz que há "um debate maior" sobre empresas de comunicação e tecnologia propagando mensagens da direita. Isso contradiz sua conclusão de que não há impacto relevante. Ele está sendo consistente?
Qual é o maior risco para Lula agora?
Que a crise do Supremo continue dominando as manchetes. Corrupção é um tema em que Lula não é crível, e isso reforça o pessimismo.
Mas Garman também diz que o noticiário "arrefeceu um pouco". Se arrefeceu, por que seria o maior risco? Parece que ele está identificando o risco teórico, não o risco atual.
O Pulso
- A projeção de 55% para Lula esconde um empate técnico de 50% a 50% nos modelos internos da própria Eurasia Group, sinalizando uma eleição que pode ser decidida por margem mínima.
- A crise do STF funcionou como um terremoto político: a aprovação de Lula caiu em setembro, justamente quando incumbentes costumam crescer, e a vantagem no segundo turno praticamente evaporou.
- Nos últimos dez dias, o sangramento parou — medidas como a proibição das apostas online e o alívio de dívidas para consumidores ajudaram a estabilizar a campanha presidencial sem, contudo, reverter o quadro de forma decisiva.
- A campanha de Flávio Bolsonaro se mostrou mais coesa, com foco em segurança e custo de vida, enquanto a de Lula ainda busca articular com clareza o que foi entregue e o que pode melhorar.
- O resultado final dependerá de três forças em movimento: o domínio do noticiário sobre a crise do STF, a capacidade de cada candidato de pautar o debate e a possibilidade de novas denúncias que alterem a dinâmica.
No limiar de uma eleição que desafia qualquer certeza, a consultoria Eurasia Group mantém Lula com 55% de probabilidade de vitória — uma margem que, por si só, revela mais sobre a fragilidade do momento do que sobre qualquer solidez. A crise do Supremo Tribunal Federal funcionou como um abalo sísmico na campanha presidencial, apagando vantagens construídas e aproximando os dois candidatos de um empate real. O que resta, segundo o diretor Christopher Garman, é uma eleição cujo desfecho depende menos de grandes estratégias e mais de pequenos movimentos — noticiário, narrativa e o peso silencioso de quem já ocupa o poder.
Christopher Garman, diretor da Eurasia Group, oferece ao Estadão um diagnóstico que resume o momento político brasileiro em poucas palavras: extremamente difícil de prever. A consultoria mantém Lula com 55% de probabilidade de vitória, mas essa cifra mascara uma realidade mais frágil — os próprios modelos internos apontam para um empate de 50% a 50%, e qualquer movimento nos próximos dias pode reescrever o resultado.
O que explica a queda de 60% para 55% desde a última avaliação é a crise do Supremo Tribunal Federal. O evento funcionou como um terremoto: Lula sofreu mais do que qualquer outro ator político, o pessimismo do eleitorado se aprofundou e a aprovação presidencial caiu em setembro — justamente quando governantes em campanha costumam crescer. A vantagem que Lula tinha no segundo turno simplesmente evaporou, e as pesquisas passaram a mostrar quase um empate entre os dois candidatos.
Há, porém, sinais de estabilização. Nos últimos dez dias, o sangramento parou. A aprovação de Lula começou a recuperar terreno, impulsionada por uma combinação de fatores: a proibição das apostas online, o alívio de dívidas para consumidores e até a repercussão de uma fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. Nenhuma dessas medidas é uma solução definitiva, mas juntas reforçam a premissa de que, numa eleição empatada, o incumbente carrega uma vantagem ligeira pelo simples fato de estar no poder.
Garman identifica três variáveis decisivas: o noticiário — se a crise do STF continuar dominando as manchetes, prejudica Lula, pois corrupção é terreno em que o presidente não é crível; a qualidade das campanhas e a capacidade de cada candidato deslocar o eixo do debate; e a possibilidade de novas denúncias contra Flávio Bolsonaro. Sobre eventual interferência americana, Garman é cético: os eleitores culpabilizam quase igualmente ambos os lados pelas tarifas, e é improvável que empresas de tecnologia arrisquem sua reputação para favorecer um candidato. O cenário permanece aberto, e o resultado dependerá de dinâmicas que ainda estão em movimento.
Christopher Garman, diretor da Eurasia Group, senta-se para conversa com o Estadão e oferece um diagnóstico que resume o momento político brasileiro em três palavras: extremamente difícil de prever. A consultoria mantém sua projeção de 55% de probabilidade de vitória para Lula, mas essa cifra mascara uma realidade bem mais frágil. Os modelos de previsão da própria Eurasia apontam para um empate de 50% a 50%, e a margem que separa o presidente de seu rival Flávio Bolsonaro encolheu tanto que qualquer movimento nos próximos dias pode reescrever o resultado.
O que mudou desde a última avaliação, quando a probabilidade de Lula era de 60%, foi a crise do Supremo Tribunal Federal. Esse evento funcionou como um terremoto na campanha presidencial. O presidente sofreu mais do que qualquer outro ator político, o pessimismo do eleitorado se aprofundou, e a aprovação de Lula caiu durante o mês de setembro — justamente quando um governante em campanha costuma ver seus números subirem. A vantagem que Lula tinha no segundo turno simplesmente evaporou. As pesquisas agora mostram quase um empate entre os dois candidatos, com Lula mantendo apenas um ponto de frente na média.
Mas há sinais de estabilização. Nos últimos dez dias, o sangramento parou. A aprovação de Lula deixou de cair e começou a recuperar terreno. O presidente ganhou um ponto porcentual nas pesquisas divulgadas no dia da entrevista, e a vantagem no segundo turno se estabilizou em torno de um empate. Garman atribui essa recuperação a uma combinação de fatores: a proibição das apostas online, o alívio da dívida para consumidores e até mesmo a fake news sobre Nossa Senhora Aparecida que circulou nas redes. Nenhuma dessas medidas é, nas palavras de Garman, uma "bala de prata", mas juntas reforçam a premissa de que numa eleição empatada há uma vantagem ligeira para o incumbente pelo simples fato de estar no poder.
O que mantém a Eurasia em 55% para Lula — e não em 50% — é a crença de que o poder de incumbência pesa, mesmo que levemente, e que as fragilidades da campanha de Flávio Bolsonaro são reais. A campanha do senador foi a mais bem-sucedida entre os candidatos, apresentando-se com clareza sobre segurança e custo de vida. A campanha de Lula começou dispersa, mas está começando a acertar o foco, tentando mostrar o que foi entregue e como isso pode melhorar o futuro. Essa narrativa, porém, ainda não foi plenamente articulada.
Garman identifica três variáveis que determinarão o resultado. A primeira é o noticiário: se a crise do Supremo continuar dominando as manchetes, prejudica Lula, porque corrupção é um tema em que o presidente não é crível e reforça o pessimismo eleitoral. A segunda é a qualidade das campanhas e a capacidade de cada candidato deslocar o eixo do debate para temas que lhe favorecem. A terceira é a possibilidade de novas denúncias contra Flávio Bolsonaro, que poderiam mudar a dinâmica.
Há também questões técnicas sobre como as pesquisas funcionam. Garman reconhece que alguns institutos podem estar subestimando o voto da direita, não por causa de "voto envergonhado", mas porque os modelos não calibram bem quem realmente vai comparecer às urnas e porque o perfil de quem responde às entrevistas mudou. Sobre o segundo turno, Garman discorda da tese comum de que se Flávio estiver menos de 5 pontos atrás no primeiro turno terá vantagem no segundo. Segundo sua análise, se Lula tiver 2 pontos de vantagem no primeiro turno com 8 a 10 pontos para candidatos alternativos, sairá à frente no segundo. Se a vantagem for de apenas 1 ponto, Flávio pode sair na frente, dependendo de como se distribuem os votos alternativos.
Sobre possível interferência americana, Garman é cético. Acha difícil que ações dos Estados Unidos tenham impacto relevante. Os eleitores culpabilizam quase igualmente a família Bolsonaro e Lula pelas tarifas. Uma sanção americana contra o ministro Alexandre de Moraes poderia ajudar Lula, mas a credibilidade do ministro é tão baixa que o efeito seria limitado. Empresas de tecnologia americanas têm presença significativa no Brasil, mas é improvável que tomem decisões para favorecer um candidato e coloquem em risco sua reputação. O cenário permanece muito apertado, e o resultado dependerá de dinâmicas que ainda estão em movimento.
Citações Notáveis
A soma de todas essas medidas anunciadas pelo governo e a fake news sobre Nossa Senhora Aparecida não são nenhuma bala de prata, mas reforçam a nossa premissa de que numa eleição empatada há vantagem ligeira para Lula pelo poder de incumbência.— Christopher Garman, diretor da Eurasia Group
Metade de uma campanha presidencial é se o candidato consegue deslocar o eixo do foco eleitor para temas que são mais favoráveis a ele.— Christopher Garman, diretor da Eurasia Group