Em meio a tensões comerciais crescentes, o presidente Lula telefonou a Donald Trump para defender a continuidade do diálogo entre Brasil e Estados Unidos, contestando tarifas que, segundo Brasília, carecem de fundamento econômico e refletem pressões políticas. A conversa revela a fragilidade de uma relação que oscila entre aproximações e rupturas, enquanto US$ 5,8 bilhões em exportações brasileiras aguardam o desfecho de uma disputa que vai além do comércio. Trump concordou em retomar negociações técnicas, mas o caminho entre o gesto diplomático e a resolução concreta permanece incerto.
Lula liga para Trump e defende negociação contra tarifas que chama de 'infundadas'
Os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos
Por que o governo brasileiro insiste que essas tarifas são politicamente motivadas?
Porque a cronologia é suspeita. Bolsonaro foi condenado, e logo depois Trump decreta tarifas. Depois há uma melhora, um encontro, e de repente voltam as tarifas. O governo vê a mão de aliados de Bolsonaro pressionando Trump nos bastidores.
Mas Trump concordou em continuar negociando. Isso não é um sinal positivo?
Sim, mas é frágil. Já concordou antes, já relaxou tarifas, e depois voltou a apertar. O governo brasileiro está sendo cauteloso porque não acredita que essa concordância vire ação concreta.
E quanto à questão das facções criminosas serem terroristas? Por que Lula se opõe?
Porque uma classificação de terrorismo daria aos EUA ferramentas legais para intervir diretamente nos assuntos de segurança brasileiros. Lula quer manter a soberania, argumentando que o Brasil tem instrumentos próprios.
O Brasil está realmente preparado para uma guerra comercial?
Não está buscando isso. Notificou sobre reciprocidade, mas o governo acha que não deve avançar este ano. É mais um aviso do que uma ação. Eles querem negociar, não escalar.
E se Trump não mudar de posição?
Aí o Brasil terá que decidir se aplica as retaliações ou continua esperando. Mas isso afeta bilhões em exportações, então a pressão interna é enorme.
El Pulso
- Os EUA impuseram duas camadas de tarifas ao Brasil — 25% específica e 12,5% compartilhada com 59 países — afetando setores como madeira, calçados, móveis e açúcar, num total de US$ 5,8 bilhões em exportações.
- O governo Lula acusa adversários políticos, incluindo Eduardo e Flávio Bolsonaro, de pressionar Washington a adotar as medidas, transformando uma disputa comercial em campo de batalha político.
- Na semana anterior à ligação, o Brasil havia notificado os EUA sobre um processo de reciprocidade tarifária, mas aliados de Lula preferem cautela para não aprofundar a crise.
- Trump concordou com a necessidade de preservar os laços comerciais e propôs que equipes técnicas dos dois países retomem as negociações com urgência, sem que avanços concretos tenham sido anunciados.
- A relação entre os dois presidentes segue seu padrão de altos e baixos: após um encontro de três horas na Casa Branca em maio que parecia selar harmonia, novas tarifas em junho e agosto revelaram a fragilidade desse equilíbrio.
Em meio a tensões comerciais crescentes, o presidente Lula telefonou a Donald Trump para defender a continuidade do diálogo entre Brasil e Estados Unidos, contestando tarifas que, segundo Brasília, carecem de fundamento econômico e refletem pressões políticas. A conversa revela a fragilidade de uma relação que oscila entre aproximações e rupturas, enquanto US$ 5,8 bilhões em exportações brasileiras aguardam o desfecho de uma disputa que vai além do comércio. Trump concordou em retomar negociações técnicas, mas o caminho entre o gesto diplomático e a resolução concreta permanece incerto.
O presidente Lula ligou para Donald Trump na quarta-feira para defender a continuidade das negociações comerciais, argumentando que as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil carecem de fundamento. Washington aplicou duas camadas de taxação sobre produtos brasileiros: 25% direcionada especificamente ao Brasil e 12,5% que atinge outras 59 nações. Juntas, afetam cerca de 15% do volume exportado pelo Brasil aos EUA em 2025, equivalente a US$ 5,8 bilhões, com setores como madeira, móveis, calçados e açúcar entre os mais prejudicados.
Desde o início do processo, o governo brasileiro sustenta que as tarifas têm motivação política, não comercial, apontando a atuação de Eduardo e Flávio Bolsonaro como responsáveis por pressionar a administração Trump. Durante a ligação, Lula reiterou que ambos os países saem perdendo com as taxas e que a melhor saída é permanecer na mesa de negociação. Trump concordou com a necessidade de preservar os vínculos comerciais e sugeriu que as equipes técnicas retomem os encontros com brevidade, sem que avanços concretos tenham sido detalhados.
A conversa também abordou segurança pública: Lula rejeitou a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas — posição que contrasta com a decisão americana de designar o PCC e o CV como entidades terroristas em maio. O presidente apresentou as ações do governo nessa área, incluindo planos para transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima e a aprovação do projeto de lei Antifacção.
Os dois líderes ainda discutiram conflitos internacionais, concordando sobre a urgência de uma solução negociada entre Rússia e Ucrânia. Lula lamentou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e propôs a convocação de uma reunião extraordinária do órgão — movimento alinhado a conversas recentes com Xi Jinping e Putin. A ligação é mais um capítulo numa relação marcada por choques e aproximações: após um encontro de três horas na Casa Branca em maio que parecia selar um período de harmonia, novas tarifas em junho e agosto revelaram o quanto esse equilíbrio permanece frágil.
O presidente Lula ligou para Donald Trump na quarta-feira para defender a continuidade das negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos, argumentando que as tarifas impostas pela administração americana carecem de fundamento. A conversa ocorre em meio a um cenário de tensão crescente: Washington aplicou duas camadas de taxação sobre produtos brasileiros — uma de 25% direcionada especificamente ao Brasil e outra de 12,5% que atinge também outras 59 nações. Juntas, essas medidas afetam aproximadamente 15% do volume que o Brasil exportava para os Estados Unidos em 2025, equivalente a US$ 5,8 bilhões.
O governo brasileiro vem sustentando desde o início deste processo que as tarifas possuem motivação política, não comercial. Aliados do presidente têm apontado a atuação de adversários políticos, incluindo Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, como responsáveis por pressionar a administração Trump a adotar essas medidas. Os setores mais atingidos são madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, produtos cerâmicos e açúcar — indústrias que formam a espinha dorsal das exportações brasileiras.
Durante a ligação, Lula reiterou que tanto Brasil quanto Estados Unidos sofrem com essas tarifas e que a melhor saída para ambos os países é manter-se na mesa de negociação. Trump concordou com a necessidade de preservar os vínculos comerciais fortes e sugeriu que as equipes técnicas dos dois países retomem os encontros com a maior brevidade possível. A nota divulgada pelo governo brasileiro não detalha se houve avanços concretos, apenas que ambos reconhecem a importância de trabalhar juntos.
A semana anterior havia marcado um momento de escalada: o Brasil notificou os Estados Unidos sobre o início de um processo de reciprocidade em resposta às tarifas. Porém, o entorno petista avalia que esse processo não deve avançar significativamente neste ano, preferindo manter cautela para evitar decisões precipitadas que possam aprofundar a crise. A tarifa de 25% começou a valer em 22 de julho, após uma investigação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA que alegava práticas "desleais" do Brasil prejudicando empresas americanas — acusação que Brasília rejeita.
A segunda camada de tarifas, de 12,5%, foi justificada pela alegação de que Brasil e outras 59 nações falham em barrar importações fabricadas com trabalho forçado. O governo Lula também refuta esse argumento. Durante a conversa, o presidente brasileiro aproveitou para reforçar o interesse em cooperação no combate ao crime organizado, mas rejeitou a classificação de facções criminosas como organizações terroristas — uma posição que contrasta com a decisão de maio dos Estados Unidos de designar o PCC e o CV como entidades terroristas.
Lula argumentou que grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre populações carentes, mas não se equiparam a organizações terroristas internacionais. Apresentou ao interlocutor americano as ações do governo para "asfixiar financeiramente a criminalidade", incluindo planos de transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima, além da aprovação do projeto de lei Antifacção e de uma Proposta de Emenda à Constituição sobre segurança pública — esta última ainda aguardando votação no Senado.
Os dois presidentes também discutiram os principais conflitos internacionais. Concordaram sobre a urgência de encontrar uma solução negociada entre Rússia e Ucrânia. Trump abordou perspectivas de resolução do conflito com o Irã, enquanto Lula lamentou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e propôs a convocação de uma reunião extraordinária do órgão para buscar saídas diplomáticas — movimento que já havia feito em conversas recentes com Xi Jinping e Vladimir Putin. Segundo a nota oficial, Lula afirmou que "os grandes líderes não são aqueles que iniciam guerras, mas aqueles que põem fim aos conflitos".
Esta ligação representa mais um capítulo na relação turbulenta entre os dois presidentes. Ao longo de um ano e meio como chefes de Estado das maiores democracias ocidentais, acumularam choques intercalados por momentos de aproximação. Em julho do ano anterior, Trump havia decretado uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, citando como justificativa uma suposta "perseguição" na condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pela tentativa de golpe de 2023. Um encontro de 39 segundos nos bastidores da Assembleia Geral da ONU em setembro mudou o tom: Trump revelou minutos depois que tiveram "uma química excelente". Isso resultou em telefonemas e um encontro em outubro na Malásia, onde Trump retirou produtos da tarifa anterior e excluiu o ministro Alexandre de Moraes das sanções previstas na Lei Magnitsky. Uma visita de Lula à Casa Branca em maio, com três horas de encontro incluindo almoço, pareceu selar um período de harmonia. Mas a sequência de novas tarifas em junho e agosto sugere que essa harmonia foi frágil.
Citas Notables
Ao observar que as tarifas afetam negativamente tanto o Brasil quanto os Estados Unidos, afirmou que seguir na mesa de negociação é a melhor opção para os dois países— Nota do governo brasileiro sobre a posição de Lula
Grupos criminosos exercem terror cotidiano sobre as populações mais carentes, mas não se confundem com organizações terroristas— Posição de Lula durante a ligação com Trump