A nove dias das eleições presidenciais brasileiras, Lula da Silva assinou um decreto proibindo apostas desportivas e casinos virtuais, invocando o endividamento das populações mais vulneráveis como justificação moral. A medida, porém, carrega uma contradição difícil de ignorar: foi o próprio Governo do PT que regulamentou o setor, autorizou 85 operadoras e arrecadou 20 mil milhões de reais em impostos. Entre a proteção genuína e o cálculo eleitoral, a história raramente oferece respostas limpas — e esta não é exceção.
Lula justifica proibição de apostas: "Pessoas endividadas"
Apostam, perdem, endividam-se para continuar a apostar
Porque é que Lula escolheu este momento, tão perto das eleições, para proibir as apostas?
Porque as sondagens o mostram em dificuldades em São Paulo, o maior estado eleitoral. Precisava de um gesto que falasse diretamente aos pobres, e as apostas são um problema real para essas comunidades.
Mas o Governo dele próprio regulamentou as apostas, autorizou 85 empresas e ganhou 20 mil milhões de reais em impostos. Isso não é uma mudança de coração — é uma mudança de estratégia.
Flávio Bolsonaro chamou-lhe fraude eleitoral. Tem razão?
Tem razão em apontar a contradição. Mas a questão real é se as apostas causam dano às pessoas pobres. Se causam, então a proibição é justificada, mesmo que chegue tarde.
O problema é que o decreto precisa aprovação do Congresso em 120 dias. Se for rejeitado após as eleições, as apostas regressam. Isso significa que a medida pode ser apenas um gesto, não uma política real.
Lula disse que ninguém enriquece a apostar, excepto os donos das casas de apostas. É verdade?
É uma simplificação, mas aponta para uma verdade: o sistema está desenhado para favorecer os operadores. As pessoas pobres perdem mais do que ganham, e usam dinheiro que precisam para outras coisas.
Verdade. Mas Lula não mencionou que o seu Governo beneficiou dessa exploração. Arrecadou 20 mil milhões de reais. Isso é importante para entender a credibilidade da sua posição agora.
O que significa a referência ao ouro português e à Inglaterra?
Lula está a ligar a defesa dos pobres à defesa da soberania nacional. É uma narrativa que diz: o Brasil foi explorado no passado, e não pode ser explorado agora, nem pelos estrangeiros nem pelas apostas.
É uma ligação retórica poderosa, mas não está claro se a proibição das apostas é realmente sobre soberania ou sobre ganhar votos. Provavelmente é ambas as coisas.
O Pulso
- Com Lula tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro nas sondagens, a proibição das apostas surge como um gesto dirigido ao eleitorado mais pobre e vulnerável, num momento em que cada voto em São Paulo pode decidir a eleição.
- A acusação de 'fraude eleitoral' por parte de Bolsonaro filho ganha peso quando se recorda que foi o próprio Governo do PT a abrir o mercado de apostas, autorizar empresas e cobrar impostos milionários sobre o setor.
- O decreto executivo tem um prazo de 120 dias para aprovação no Congresso — o que significa que, se rejeitado após as eleições, as apostas regressam e a medida terá servido apenas como palco de campanha.
- No comício em São Miguel Paulista, Lula alargou o discurso para além do jogo: defendeu a soberania nacional contra a alegada ingerência de Trump e prometeu que os recursos naturais do Brasil não voltariam a enriquecer potências estrangeiras como o ouro colonial enriqueceu a Inglaterra.
A nove dias das eleições presidenciais brasileiras, Lula da Silva assinou um decreto proibindo apostas desportivas e casinos virtuais, invocando o endividamento das populações mais vulneráveis como justificação moral. A medida, porém, carrega uma contradição difícil de ignorar: foi o próprio Governo do PT que regulamentou o setor, autorizou 85 operadoras e arrecadou 20 mil milhões de reais em impostos. Entre a proteção genuína e o cálculo eleitoral, a história raramente oferece respostas limpas — e esta não é exceção.
Lula da Silva escolheu São Miguel Paulista, bairro carenciado na zona leste de São Paulo, para defender publicamente a proibição das apostas desportivas que havia anunciado dias antes. A nove dias das eleições presidenciais de 4 de outubro, o Presidente descreveu o jogo como "uma desgraça na vida das pessoas pobres" — um ciclo de dívidas onde se aposta, se perde e se perde o controlo. O decreto que assinou extingue as apostas e os casinos virtuais, e no comício foi direto: queria impedir que um pai gastasse o dinheiro da alimentação dos filhos numa aposta que, no fim, só enriquecia os donos das plataformas.
Mas a medida chegou carregada de contradição. Foi o próprio Governo do Partido dos Trabalhadores que regulamentou o setor, autorizou 85 empresas a operar e arrecadou cerca de 20 mil milhões de reais em impostos. Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-Presidente, não deixou passar a ironia: acusou Lula de promover uma "fraude eleitoral" ao anunciar a proibição tão perto do dia da votação. Acrescentou ainda que o decreto precisava de aprovação do Congresso em 120 dias — e que, se rejeitado após as eleições, as apostas regressariam como se nada tivesse acontecido.
O contexto político tornava tudo mais agudo. As sondagens colocavam os dois candidatos tecnicamente empatados, e São Paulo — o maior colégio eleitoral do Brasil — pendia para Bolsonaro. Lula concentrou os últimos comícios neste estado e, em São Miguel Paulista, foi além do tema do jogo: defendeu a soberania brasileira contra o que classificou como ingerência do Governo Trump na campanha, e prometeu que os recursos naturais do país não voltariam a ser extraídos para enriquecer potências estrangeiras, invocando o ouro colonial que "nos deixou um vazio e acabou por enriquecer a Inglaterra".
A proibição das apostas ficou assim suspensa entre dois leituras possíveis — proteção genuína de quem mais sofre com o jogo, ou jogada eleitoral calculada para os últimos dias de campanha. A história do próprio Governo com o setor tornava impossível escolher apenas uma.
Lula da Silva subiu ao palco num comício em São Miguel Paulista, bairro carenciado na zona leste de São Paulo, e colocou as apostas desportivas no centro da sua campanha para a reeleição. A nove dias das eleições presidenciais de 4 de outubro, o Presidente justificou a proibição que havia anunciado na sexta-feira anterior com uma realidade que disse conhecer bem: pessoas pobres endividadas por causa do jogo.
"Tomei essa medida drástica, porque sei que há muitas pessoas endividadas por causa das apostas", afirmou Lula, que aspira a um quarto mandato não consecutivo. O seu argumento era direto e pessoal. O jogo, disse, tornou-se "uma desgraça na vida das pessoas pobres", um ciclo onde apostam, perdem, contraem dívidas para continuar a apostar, e perdem o controlo sobre o que devem. Assinou um decreto executivo para acabar com as apostas e os casinos virtuais, e na sua fala no comício foi claro sobre o que o motivava: impedir que um pai usasse o dinheiro destinado à alimentação dos seus filhos para tentar ganhar dinheiro num jogo que, argumentou, só enriquecia os donos das casas de apostas.
Mas a medida chegava tarde demais para escapar à acusação de oportunismo político. Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex-Presidente Jair Bolsonaro, acusou Lula de promover uma "fraude eleitoral" ao anunciar a proibição tão perto do dia da votação. O argumento de Bolsonaro tinha uma ironia incómoda: foi o próprio Governo do Partido dos Trabalhadores, durante a administração de Lula, que regulamentou as apostas, autorizou 85 empresas a operar e arrecadou cerca de 20 mil milhões de reais em impostos dessas operadoras. A mudança de posição, portanto, não era nova — era uma inversão.
Houve ainda uma questão técnica que Bolsonaro explorou. Lula usou um decreto executivo para determinar a proibição, mas essa medida precisava de aprovação do Congresso num prazo de 120 dias. Se o Legislativo não aprovasse após esse período, as apostas poderiam regressar com força — mas as eleições já teriam passado. Era uma crítica que tocava numa verdade incómoda: a medida tinha o timing de uma jogada eleitoral.
O contexto político era tenso. As sondagens mostravam Lula tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro, e São Paulo, o maior colégio eleitoral do Brasil, era um campo de batalha onde as pesquisas davam vantagem a Bolsonaro. Lula concentrou os seus últimos comícios neste estado, e no discurso em São Miguel Paulista foi além das apostas. Defendeu a soberania do Brasil contra o que chamou de ingerência do Governo do Presidente dos EUA, Donald Trump, na campanha eleitoral. Insistiu que ninguém de fora podia "meter o bedelho" nas eleições brasileiras.
Também falou de minerais e de história. Afirmou que não permitiria que empresas estrangeiras se apropriassem dos recursos naturais do Brasil sem os transformar no país. Invocou o passado: "Não permitiremos que se repita o que fizeram com o nosso ouro, que foi extraído por Portugal, nos deixou um vazio aqui e acabou por enriquecer a Inglaterra". Era uma narrativa que ligava o presente ao passado colonial, e que colocava a defesa dos pobres e da soberania nacional como temas gémeos na sua campanha.
A proibição das apostas, portanto, não era apenas uma medida de política social. Era também um gesto político num momento crítico, dirigido a um eleitorado vulnerável que Lula conhecia bem, e que tinha muito a perder com o jogo. Mas a sua chegada tão perto das eleições, e a história da própria regulamentação das apostas pelo seu Governo, deixava a medida carregada de ambiguidade — uma ação que podia ser lida como proteção genuína ou como cálculo eleitoral, ou talvez como ambas as coisas.
Citações Notáveis
Tomei essa medida drástica, porque sei que há muitas pessoas endividadas por causa das apostas. O jogo tornou-se uma desgraça na vida das pessoas pobres.— Lula da Silva, Presidente do Brasil
Quando esse prazo terminar e se não houver aprovação do Legislativo, as apostas poderão regressar com mais força, mas as eleições já terão passado.— Flávio Bolsonaro, senador, criticando o timing da proibição