Em 2022, Lula venceu por margem estreita, mas seu partido leu aquela vitória como consagração — e essa interpretação moldou três anos de escolhas políticas empobrecedoras. Em vez de cultivar o amplo arco democrático que o elegeu, o governo recorreu ao centrão e deixou escapar a oportunidade de governar com criatividade e amplitude. Agora, às vésperas de 2026, Lula segue em frente não como símbolo de renovação, mas como necessidade diante de um binarismo que ele mesmo ajudou a perpetuar.
Lula errou em 2023: vitória apertada lida como consagração
Podendo ampliar sua base, estreitou-a ou a engordou
Então Lula ganhou em 2022, mas por pouco. Por que isso importa tanto agora, em 2026?
Porque a forma como você lê uma vitória apertada determina como você governa depois. Lula leu como consagração quando deveria ter lido como aviso.
Mas ele foi preso e se elegeu de novo. Isso não é consagração por definição?
É uma vitória impressionante, sim. Mas impressionante não é o mesmo que ter mandato claro. Margem apertada significa que metade do país não quer você.
E o que ele deveria ter feito diferente?
Cultivado o arco democrático que o elegeu. Governado com criatividade, trazendo gente de fora do PT. Em vez disso, negociou com o centrão.
Qual é a diferença prática? Pedro Malan está dentro ou fora?
Está no arco democrático, mas fora da coligação governista. É um símbolo de como Lula deixou gente importante de fora.
E isso afetou a aprovação?
Seu governo tem 34% de aprovação contra 40% de desaprovação. Ele lidera as pesquisas, mas seu governo não convence a maioria.
Espera. Ele lidera nas pesquisas mas é impopular? Como isso funciona?
Porque o eleitor vê Bolsonaro como pior. É "se não for ele, é Bolsonaro". Não é amor, é rejeição ao outro.
Então Lula vence, mas frágil?
Exatamente. E cansado. Você vê no tom da campanha.
O antipetismo de 2018 desapareceu?
Encolheu. Bolsonaro tinha 32% de preferência então, Haddad tinha 21%. Agora há antibolsonarismo também. Mas polarização continua.
The Pulse
- Uma vitória apertada foi celebrada como consagração, e essa leitura equivocada definiu o tom de todo o governo Lula 3.0.
- O arco democrático que elegeu Lula foi abandonado em favor de negociações com o centrão, estreitando a base em vez de ampliá-la.
- Com 34% de aprovação contra 40% de desaprovação, o governo não convence a maioria — mas Lula ainda lidera as intenções de voto para 2026, um paradoxo que revela fragilidade estrutural.
- A polarização que Lula prometia combater acabou capturando-o: ao desafiar o eleitor com bordões, esqueceu que é o eleitor quem manda.
- Faltando dias para o primeiro turno, o binarismo ressurgiu com força — não como escolha, mas como fatalidade: ou Lula, ou Bolsonaro.
Em 2022, Lula venceu por margem estreita, mas seu partido leu aquela vitória como consagração — e essa interpretação moldou três anos de escolhas políticas empobrecedoras. Em vez de cultivar o amplo arco democrático que o elegeu, o governo recorreu ao centrão e deixou escapar a oportunidade de governar com criatividade e amplitude. Agora, às vésperas de 2026, Lula segue em frente não como símbolo de renovação, mas como necessidade diante de um binarismo que ele mesmo ajudou a perpetuar.
Lula venceu Bolsonaro em 2022 por uma margem que qualquer analista chamaria de apertada. Mas o PT leu aquele resultado como consagração — e essa interpretação equivocada moldou tudo o que veio depois. Vitória apertada e consagração são coisas diferentes: uma exige cautela política, a outra convida à confiança excessiva. O partido escolheu a segunda leitura e pagou o preço.
O governo Lula 3.0 nunca cultivou adequadamente o arco democrático que o havia eleito. Optou por uma coligação governista mais estreita, recheada de negociações com o centrão. A exclusão de figuras como Pedro Malan — pertencente ao arco democrático, mas fora do bloco governista — ilustra como o PT desperdiçou a oportunidade de governar com amplitude, caindo numa polarização empobrecedora.
Os números revelam a contradição: aprovação de 34% contra 40% de desaprovação, segundo o Datafolha, mas Lula ainda lidera as pesquisas para 2026. O presidente vence nas urnas, mas seu governo não convence a maioria. Às vésperas do primeiro turno, o binarismo ressuscitou a campanha — não por entusiasmo, mas por necessidade: se não for ele, será Bolsonaro.
O antipetismo que elegeu Bolsonaro em 2018 encolheu até 2026, mas não desapareceu. A polarização não acabou; apenas inverteu de direção. Lula, que poderia ter ampliado sua base, acabou capturado pela própria lógica que tentava combater. O PT teve falta de criatividade, mas teve a sorte de enfrentar um adversário igualmente incapaz de renovação. Nesse vácuo, Lula segue para o segundo turno não como consagração, mas como necessidade.
Lula venceu Jair Bolsonaro em 2022 por uma margem que qualquer analista chamaria de apertada. Mas o presidente e seu partido leram aquele resultado como algo muito maior: uma consagração. Essa interpretação equivocada moldou tudo o que veio depois.
Não é difícil entender por que a vitória pareceu monumental. Um homem que havia passado quase dois anos preso, acusado de corrupção, conseguiu se eleger presidente pela terceira vez. Qualquer um diria que é uma vitória impressionante. Mas vitória apertada e consagração são coisas diferentes. Uma exige cautela política; a outra convida à confiança excessiva. O PT escolheu a segunda leitura e pagou o preço.
O governo Lula 3.0 nunca cultivou adequadamente o arco democrático que o havia eleito. Em vez disso, optou por uma coligação governista muito mais estreita, recheada de negociações com o centrão. A diferença entre essas duas coisas é real e mensurável. Pedro Malan, ex-ministro, pertence ao arco democrático mas não faz parte do bloco que poderia ser chamado de governista. Essa exclusão ilustra como o PT desperdiçou a oportunidade de governar com criatividade e amplitude, caindo em vez disso numa polarização empobrecedora.
O custo dessa escolha aparece nos números. O governo Lula tem aprovação de 34% contra 40% de desaprovação, segundo o Datafolha. Ao mesmo tempo, Lula lidera as pesquisas eleitorais de 2026. É um paradoxo que revela a fragilidade da posição: o presidente vence nas urnas, mas seu governo não convence a maioria. Faltando dez dias para o primeiro turno, tanto Lula quanto o eleitor acordaram para a realidade: se não for ele, será Bolsonaro. Esse binarismo ressuscitou a campanha.
O antipetismo que elegeu Bolsonaro em 2018 encolheu significativamente até 2026. Em outubro de 2018, Bolsonaro tinha 32% de preferência contra 21% de Haddad, segundo o Datafolha. Aquele Brasil bolsonarista se desfez, embora não tenha desaparecido completamente. Ao mesmo tempo, surgiram fatos que alimentaram um antibolsonarismo crescente. A polarização não desapareceu; apenas inverteu de direção.
Lula revelou sinais de cansaço durante a campanha, não fadiga física mas desgaste com o modo campanha. Seu bordão desafiador — "É esse país que vocês querem?" — traía essa exaustão. O eleitor, porém, sabe que é ele quem manda. Não precisa ser desafiado. De certa forma, Lula foi capturado pela própria polarização que tentava combater. Podendo ampliar sua base, estreitou-a ou a engordou apenas com negociatas com o centrão.
O PT sofreu de falta de criatividade, mas teve a sorte de enfrentar um adversário incapaz de formular uma ideia nova ou buscar um aliado diferente. Nesse vácuo, Lula segue para o segundo turno não como consagração, mas como necessidade.
Notable Quotes
O que era uma vitória apertada vinda de um arco democrático, o PT e Lula tomaram como uma consagração— análise da coluna
Lula foi capturado pela polarização bolsonarista. Podendo ampliar sua base, estreitou-a ou engordou-a, recorrendo ao centrão— análise da coluna