Em toda eleição, há candidatos que convencem e candidatos que assustam — e a diferença entre esses dois caminhos define não apenas campanhas, mas governos. O Datafolha de 2026 revela que Lula e Renan Santos constroem suas bases sobre convicção, enquanto Flávio Bolsonaro, Zema e Caiado dependem em proporção significativa do medo que o PT inspira em seus eleitores. A política do antídoto tem seus limites: quem chega ao poder como remédio precisa, cedo ou tarde, explicar para qual doença foi eleito.
Lula e Renan vencem por propostas; Flávio depende da rejeição ao adversário
Campanhas baseadas em medo constroem prédios sem fundação
Então Flávio está em desvantagem porque depende mais de voto contra o PT do que de propostas próprias?
Não é bem desvantagem no curto prazo. Ele está ganhando porque o antipetismo é forte. O problema é que esse tipo de voto é frágil — muda quando a percepção do adversário muda.
Mas a pesquisa mede intenção de voto, não comportamento real. Esses 56% que dizem votar por propostas — como Datafolha diferencia de quem vota por propostas vagas versus concretas?
Boa pergunta. A pesquisa não detalha isso. Mas o padrão é claro: Lula e Renan têm bases mais consolidadas.
E se Lula cometer um erro grave antes do primeiro turno? Flávio não poderia crescer?
Poderia, sim. Mas o texto sugere que o crescimento seria limitado — porque o teto é definido pelo medo, não pelas qualidades do candidato.
Espera. O texto diz que campanhas baseadas em medo "têm um teto", mas não oferece evidência de qual é esse teto. É análise ou especulação?
É análise. O autor está interpretando o que os números sugerem sobre a natureza desses votos.
Então a questão real é: um governo eleito principalmente pela rejeição consegue governar?
Exatamente. Porque no dia seguinte da eleição, o medo deixa de ser a resposta para tudo.
E quanto aos 23% de Lula que votam contra alguém em vez de a favor dele? Isso não enfraquece o argumento de que ele tem uma base sólida?
Enfraquece um pouco, mas 68% ainda é muito maior que 56%. A proporção importa.
Qual é o risco real para Flávio, então?
Que ele chegue ao poder sem saber o que fazer com ele — porque nunca precisou responder essa pergunta.
Il Polso
- Renan Santos lidera em convicção com 73% dos seus eleitores votando por propostas — Lula vem logo atrás com 68%, enquanto Flávio Bolsonaro fica em apenas 56%, uma diferença que não é cosmética.
- Um terço ou mais dos eleitores de Flávio, Zema e Caiado admite votar não por adesão a um projeto, mas para impedir a vitória do PT — uma base construída sobre rejeição, não sobre identidade.
- Flávio já foi consagrado pelo eleitorado antipetista como o candidato mais viável contra Lula, o que tende a drenar Zema e Caiado no primeiro turno, mas aprisiona sua campanha numa narrativa de medo.
- O voto reativo é volátil: oscila conforme o adversário parece mais ou menos ameaçador, e o 'voto resignado' — aquele que escolhe por falta de opção — tende a ser o primeiro a desaparecer quando a urna se aproxima.
- Eleições podem ser vencidas pelo medo, mas governos não se sustentam com ele: quem chega ao Planalto como antídoto precisa responder, no dia seguinte, qual país pretende construir.
Em toda eleição, há candidatos que convencem e candidatos que assustam — e a diferença entre esses dois caminhos define não apenas campanhas, mas governos. O Datafolha de 2026 revela que Lula e Renan Santos constroem suas bases sobre convicção, enquanto Flávio Bolsonaro, Zema e Caiado dependem em proporção significativa do medo que o PT inspira em seus eleitores. A política do antídoto tem seus limites: quem chega ao poder como remédio precisa, cedo ou tarde, explicar para qual doença foi eleito.
A pesquisa Datafolha sobre 2026 expõe uma divisão estrutural entre os candidatos: os que mobilizam por convicção e os que mobilizam por medo. Lula consegue que 68% de seus eleitores digam votar nele pelas propostas que defende. Renan Santos vai além, com 73% — uma base sólida, resistente às oscilações semanais do noticiário. Flávio Bolsonaro fica em 56%, diferença que aponta para arquiteturas eleitorais radicalmente distintas.
O outro lado do quadro é ainda mais revelador. Entre os eleitores de Lula, 23% admitem votar nele para derrotar outro candidato; Renan tem proporção semelhante, 24%. Já Flávio, Zema e Caiado dependem muito mais desse voto reativo: 35%, 37% e 31% de seus bases, respectivamente, estão ali não por adesão a um projeto, mas como cálculo para barrar o PT.
Flávio já ganhou o rótulo de candidato mais viável contra o petismo, o que lhe dá vantagem sobre Zema e Caiado na disputa pelo eleitorado antipetista — e tende a absorvê-los na reta final do primeiro turno. Mas competir para ser o 'menos pior' tem um preço: campanhas construídas sobre medo têm um teto definido não pelas qualidades do candidato, mas pelo tamanho da ameaça que o adversário representa.
O voto por proposta é fiel porque nunca foi sobre o adversário. O voto contra é volátil — esfria quando o inimigo parece menos perigoso, e o 'voto resignado' tende a ser o primeiro a faltar à urna quando as coisas se complicam. Eleições podem ser vencidas pelo medo. Governos, não. Quem chega ao Planalto carregado pela rejeição ao adversário precisa responder, no dia seguinte, à pergunta que evitou durante toda a campanha: afinal, qual país pretende construir?
A pesquisa Datafolha sobre a corrida presidencial de 2026 revela uma divisão fundamental entre os candidatos: alguns constroem suas campanhas sobre convicção, outros sobre medo. Os números expõem essa diferença com clareza.
Lula consegue mobilizar 68% de seu eleitorado com base em propostas. Renan Santos vai além, alcançando 73% — mais de dois terços de sua base votando por convicção genuína, o tipo de apoio que não oscila ao sabor das notícias da semana. Flávio Bolsonaro fica significativamente atrás, com apenas 56% de seus eleitores dizendo que votam nele pelas ideias que defende. A diferença não é pequena. Ela aponta para estruturas eleitorais radicalmente diferentes.
Quando se olha para o outro lado da moeda — aqueles que votam contra alguém em vez de a favor de algo — o padrão se inverte. Entre os eleitores de Lula, 23% admitem que votam nele para derrotar outro candidato. Renan tem proporção semelhante, 24%. Mas Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado dependem muito mais desse voto reativo: 35%, 37% e 31% de seus eleitores, respectivamente, estão ali como forma de impedir a vitória de um adversário. Um terço ou mais de cada uma dessas candidaturas não repousa em adesão a um projeto, mas em cálculo eleitoral puro.
Flávio já recebeu do eleitorado antipetista o rótulo de candidato mais viável contra o PT. Isso lhe dá vantagem sobre Zema e Caiado na disputa pela rejeição ao petismo — e tende a sugar esses dois concorrentes na reta final do primeiro turno. Mas competir para ser o "menos pior contra o adversário" tem um preço que a análise dos dados deixa evidente. Campanhas construídas sobre medo têm um teto. Esse teto não é definido pelas qualidades do candidato, mas pelo tamanho do medo que o outro inspira.
Enquanto Lula parecer ameaçador para uma parcela significativa do eleitorado, o candidato pragmático cresce. No instante em que o adversário aparecer como um problema ainda maior, esse comportamento reativo pode esfriar. E junto com ele desaparece o voto que só existia para conter o inimigo. Quem vota por propostas não devolve o apoio quando o adversário se comporta bem. Fica, porque nunca foi sobre o adversário. Quem vota contra é mais volátil — e há ainda o "voto resignado", aquele que escolhe por falta de opção melhor e tende a ser o primeiro a faltar à urna quando as coisas se complicam.
A democracia também se exerce pela recusa. O voto útil é uma escolha legítima e racional diante de um sistema que empurra o eleitor para decisões binárias. O ponto, porém, é estrutural: campanhas que dependem quase inteiramente do medo do outro lado constroem prédios sem fundação. Funcionam enquanto o vento sopra a favor. Os 56% de eleitores de Flávio que dizem votar nele por propostas — bem abaixo dos 68% de Lula — não são só um número incômodo para a campanha. São o retrato de uma dificuldade que vai além da tática: falar com quem já decidiu é fácil; o problema é dialogar com quem ainda hesita quando sua mensagem inteira é construída em cima do medo do adversário.
Eleições podem ser vencidas pelo medo. Governos não se sustentam apenas com ele. Quem chega ao Planalto carregado pela rejeição ao adversário precisa, no dia seguinte, responder à pergunta que tentou evitar durante toda a campanha: afinal, qual país pretende construir? O voto contra pode derrotar um candidato. Só o voto a favor é capaz de legitimar um projeto. E quem se apresenta apenas como antídoto corre o risco de perder a utilidade assim que o eleitor deixa de enxergar veneno no outro.
Citazioni salienti
Eleições podem ser vencidas pelo medo. Governos não se sustentam apenas com ele.— Análise do Datafolha sobre dinâmica eleitoral de 2026
Quem se apresenta apenas como antídoto corre o risco de perder a utilidade assim que o eleitor deixa de enxergar veneno no outro.— Reflexão sobre campanhas baseadas em rejeição