Enquanto o Brasil se prepara para votar neste domingo, uma questão silenciosa mas estrutural paira sobre o pleito: a posição do país diante da rivalidade entre Washington e Pequim, especialmente no que diz respeito aos minerais críticos que sustentam tanto a transição energética quanto o poder militar global. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro prometem neutralidade geopolítica, mas o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo — e essa riqueza já atraiu investimentos americanos de US$ 750 milhões e ofertas de parceria chinesa. A história sugere que a neutralidade é um luxo qu
Lula e Flávio evitam escolher lado, mas China está no bastidor da eleição
A ilusão de neutralidade não sobreviverá aos próximos quatro anos
Por que a China desapareceu da campanha se vai ser tão importante no próximo mandato?
Porque enquanto o comércio é soja e minério, não há conflito real. Os americanos não pedem para o Brasil parar de vender. Mas terras raras são diferentes—são poder militar, tecnologia, controle de cadeias de suprimento.
Mas a gente sabe mesmo que nenhum governo americano vai forçar a barra? O documento que André Marinho levou aos doadores de Trump—Marinho nega que fosse sobre a campanha. Como a gente verifica isso?
Não verifica. Mas o fato é que Flávio apresentou o Brasil em Dallas como resposta americana ao domínio chinês. Isso é público.
E Lula? Qual é a posição dele de verdade?
Quer processar o minério aqui, com qualquer sócio. Criou um conselho para avaliar participação estrangeira. Parece neutralidade, mas Washington já reclamou.
Então nenhum dos dois tem uma estratégia clara. Ambos dizem que não vão escolher, mas as circunstâncias vão forçar.
Exatamente. E as circunstâncias começam em 2027, quando a cota de carne bovina se esgota e Xi Jinping preside o Brics.
Então a eleição de domingo resolve pouco?
Resolve tudo. Porque o vencedor vai ter que escolher, e essa escolha vai definir a próxima década de relações exteriores.
E nenhum deles preparou o país para essa conversa.
Der Puls
- A China não apareceu nos debates eleitorais, mas está presente em cada tonelada de soja exportada e em cada mina de nióbio operada pela CMOC em Goiás desde 2016.
- O Pentágono injetou US$ 750 milhões numa mina de terras raras em Goiás em agosto, dias depois de Pequim oferecer uma parceria a Brasília — a disputa geopolítica chegou ao cerrado brasileiro.
- Flávio Bolsonaro apresentou o Brasil a doadores ligados a J.D. Vance como alternativa americana ao domínio chinês sobre minerais críticos, enquanto Lula sancionou lei criando conselho presidencial para avaliar participação estrangeira em projetos estratégicos.
- A cota de carne bovina que a China abriu ao Brasil em 2026 já se esgotou, e ampliar o limite em 2027 será uma das primeiras pressões concretas sobre o próximo governo.
- A promessa de neutralidade de ambos os candidatos tem prazo de validade: quem vencer herdará pressões simultâneas de Washington sobre terras raras e de Pequim sobre comércio agrícola.
Enquanto o Brasil se prepara para votar neste domingo, uma questão silenciosa mas estrutural paira sobre o pleito: a posição do país diante da rivalidade entre Washington e Pequim, especialmente no que diz respeito aos minerais críticos que sustentam tanto a transição energética quanto o poder militar global. Tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro prometem neutralidade geopolítica, mas o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo — e essa riqueza já atraiu investimentos americanos de US$ 750 milhões e ofertas de parceria chinesa. A história sugere que a neutralidade é um luxo que as grandes reservas raramente permitem.
O Brasil vai às urnas neste domingo carregando uma questão que não apareceu em nenhum debate televisivo, mas que vai dominar o próximo mandato: como navegar entre Washington e Pequim quando o tema deixa de ser soja e passa a ser poder geopolítico.
Durante a campanha, a China serviu como munição retórica para os dois lados. Flávio Bolsonaro acusou Lula de "lamber bota da China", prometendo uma relação "pragmática" com Pequim. Lula elogiou a "ousadia dos investidores chineses" na América Latina. Ambos repetem a mesma promessa: o Brasil não precisa escolher entre as duas potências. Essa narrativa, porém, tem prazo de validade curto.
A conversa muda radicalmente quando entram em cena os minerais críticos. O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da própria China — e isso transformou Goiás em laboratório da disputa geopolítica. Em abril, a americana USA Rare Earth comprou a mina de Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões. O Pentágono entrou com mais US$ 750 milhões em agosto. Dias depois, Pequim ofereceu uma parceria a Brasília. A chinesa CMOC já opera em Goiás desde 2016. Em março, aliados de Flávio levaram a doadores ligados a J.D. Vance um documento prometendo aos EUA uma cadeia de suprimento paralela à chinesa.
Lula respondeu sancionando uma lei que criou um conselho presidencial para avaliar participação estrangeira em projetos estratégicos, sinalizando que quer o minério processado no Brasil antes de sair do país — com sócio de qualquer nacionalidade. Essa postura, porém, não satisfaz Washington, que já pediu ao Itamaraty que revisse a venda de minas de níquel à chinesa MMG.
Algumas decisões já aguardam o vencedor. A cota de carne bovina aberta pela China em 2026 se esgotou; ampliar o limite em 2027 será tarefa do próximo governo. Se Flávio vencer, o agronegócio provavelmente manterá o comércio com Pequim, mas as terras raras exigirão escolhas difíceis. Se Lula vencer, a pressão virá de Washington. De qualquer forma, a ilusão de neutralidade não sobreviverá aos próximos quatro anos.
O Brasil entra em votação neste domingo com uma questão que não apareceu em nenhum debate televisivo, mas que vai dominar o próximo mandato: como navegar entre Washington e Pequim quando o assunto deixa de ser soja e passa a ser poder.
Durante toda a campanha, a China funcionou como munição retórica. Flávio Bolsonaro disparou em Natal no dia 21, acusando o governo Lula de "lamber bota da China" enquanto prometia uma relação "pragmática economicamente" com os chineses. Lula, que trocou o debate presidencial por uma entrevista ao Flow Podcast gravada no Planalto, elogiou a "ousadia dos investidores chineses" na América Latina. Ambos repetem a mesma cantilena: o Brasil não precisa escolher entre Pequim e Washington. Essa narrativa, porém, tem data de validade curta.
Enquanto o comércio bilateral cabia em navios de soja ou minério de ferro, a neutralidade era viável. Nenhum governo americano pediu ao Brasil que parasse de vender grãos para quem compra perto de 30% de tudo o que o país exporta. A conversa muda radicalmente quando entram em cena os minerais críticos—as terras raras usadas em ímãs de motores elétricos e de mísseis, cujo refino a China controla quase por inteiro. O Brasil senta sobre a segunda maior reserva de terras raras do planeta, atrás apenas da própria China. Isso transformou Goiás em laboratório da disputa geopolítica.
Em abril, a americana USA Rare Earth fechou a compra da mina de Serra Verde por cerca de US$ 2,8 bilhões. O Pentágono entrou com mais US$ 750 milhões em agosto. Dias depois, Pequim ofereceu uma parceria a Brasília. Enquanto isso, a chinesa CMOC está em Goiás desde 2016, quando comprou as minas de nióbio da Anglo American. Em março, Flávio deixou claro de que lado está ao apresentar o Brasil num encontro conservador em Dallas como a resposta americana ao domínio chinês sobre esses minerais. Segundo o site Amado Mundo, seu aliado André Marinho havia levado a doadores ligados a J.D. Vance, vice de Trump, um documento prometendo aos EUA uma cadeia de suprimento paralela à chinesa. Marinho nega que o texto tivesse relação com a campanha, embora carregasse a marca dela.
Lula quer que o minério seja processado aqui antes de sair do país, com sócio de qualquer nacionalidade. A lei que sancionou em 16 de setembro criou um conselho ligado à Presidência para avaliar participação estrangeira em projetos estratégicos. Essa neutralidade, porém, não agrada Washington, que em janeiro pediu ao Itamaraty que revisse a venda de minas de níquel da Anglo American à chinesa MMG.
Algumas decisões vão cair no colo do vencedor independentemente de quem seja. A cota de carne bovina que a China abriu ao Brasil em 2026 já se esgotou; o excedente paga sobretaxa de 55%. Ampliar o limite em 2027 será responsabilidade do próximo governo. No mesmo ano, Xi Jinping preside o Brics, bloco que nem sequer aparece no plano de gestão de Flávio Bolsonaro.
Se Flávio vencer, o agronegócio provavelmente conseguirá manter o comércio com Pequim onde está. Mas as terras raras são outra história. Se Lula vencer, a cobrança virá de Washington, pelo mesmo tipo de pressão tarifária que já serviu para questionar negócios chineses. De qualquer forma, a ilusão de que o Brasil pode ficar neutro não sobreviverá aos próximos quatro anos.
Bemerkenswerte Zitate
O governo Lula lambe bota da China— Flávio Bolsonaro, em Natal no dia 21
Ousadia dos investidores chineses na América Latina— Lula, em entrevista ao Flow Podcast