Puta vida, presidente, eu esqueci de fazer
Na segunda-feira, o presidente Lula anunciou quase R$ 703 milhões para urbanizar favelas no Rio de Janeiro — mas o gesto de generosidade veio acompanhado de uma confissão de impotência. Diante de obras prometidas e não entregues, de prédios esquecidos e pedras no caminho, Lula colocou em palavras o que muitos governos hesitam em admitir: a distância entre a promessa e o concreto é, muitas vezes, medida em burocracia, descuido e tempo perdido pelas comunidades que mais precisam.
- Um prédio prometido para a Cidade de Deus ficou dois anos parado porque o então prefeito Eduardo Paes simplesmente esqueceu de liberar o terreno — e os moradores cobraram Lula com uma faixa.
- No Complexo do Alemão, uma pedra no terreno foi suficiente para paralisar a construção de outro Instituto Federal, revelando a fragilidade da execução de obras públicas.
- Lula chegou a um evento esperando inaugurar algo e descobriu que se tratava apenas de uma ordem de serviço — a frustração do presidente foi visível e declarada.
- A ministra Miriam Belchior explicou o ciclo vicioso: prefeitos chegam com ideias, o governo federal entusiasma, mas na hora de executar não há projeto, licença nem licitação prontos.
- O prefeito interino Eduardo Cavalieri desbloqueou o caso da Cidade de Deus rapidamente, mostrando que a solução existe — mas depende de quem está no comando e da vontade de agir.
Na segunda-feira, Lula subiu ao palco para anunciar R$ 702,9 milhões para a urbanização de favelas no Rio de Janeiro. Mas em vez de se limitar à celebração, usou o momento para expor uma ferida antiga: a lentidão que transforma promessas federais em anos de espera para as comunidades mais vulneráveis.
O exemplo mais emblemático veio da Cidade de Deus. Em 2024, o então prefeito Eduardo Paes havia dito que buscaria um terreno para abrigar um Instituto Federal. Lula acreditou, anunciou a obra e esperou. Dois anos depois, nada havia sido construído — e os próprios moradores penduraram uma faixa cobrando o presidente. Irritado, Lula procurou Paes, que já não era mais prefeito. A resposta foi direta e desarmante: 'Puta vida, presidente, eu esqueci de fazer.' Questionado pelo Poder360, Paes não negou o lapso, mas destacou que o prefeito interino Eduardo Cavalieri resolveu o impasse rapidamente após assumir.
O caso da Cidade de Deus, porém, não era isolado. No Complexo do Alemão, uma obra do mesmo tipo foi interrompida por causa de uma pedra no terreno. No próprio evento de urbanização, Lula descobriu ao vivo que o que imaginava ser uma inauguração era apenas uma ordem de serviço.
A ministra Miriam Belchior ofereceu o diagnóstico técnico: faltam projetos prontos, as licenças demoram e as licitações travam a execução. O ciclo se repete — um prefeito chega a Brasília com uma ideia, Lula entusiasma e inclui no PAC, mas na hora de executar tudo começa do zero. O presidente pediu agilidade e prometeu buscar formas de destravar essa burocracia. Enquanto isso, as comunidades do Rio continuam esperando pelo concreto que lhes foi prometido.
Na segunda-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco para anunciar R$ 702,9 milhões destinados à urbanização de favelas no Rio de Janeiro. Mas em vez de celebrar apenas o investimento, ele usou o momento para desabafar sobre um problema que o incomodava: a lentidão nas obras que o governo federal promete aos municípios. E tinha um exemplo bem específico na ponta da língua.
Dois anos atrás, em 2024, havia uma conversa sobre um prédio na Cidade de Deus que abrigaria um Instituto Federal. O então prefeito Eduardo Paes havia dito que aquele imóvel não serviria e que buscaria outro lugar para a escola. Lula acreditou na promessa, anunciou a construção e esperou. Mas quando voltou a olhar para o Rio, o prédio ainda não existia. Pior: viu uma foto de uma faixa pendurada pelos moradores cobrando dele próprio. A situação o irritou o suficiente para procurar Paes, que já não era mais prefeito. A resposta foi desarmante. "Puta vida, presidente, eu esqueci de fazer", disse Paes, segundo o relato de Lula.
O problema foi então levado ao prefeito interino Eduardo Cavalieri, que finalmente desapropriou o terreno e acionou o Ministério da Educação para dar início à obra. Quando questionado pelo Poder360, Paes não negou o lapso. Reconheceu que a desapropriação não avançou durante sua gestão anterior, mas apontou que o atual prefeito resolveu rapidamente. "Com alegria! É verdade! A desapropriação não andou. Mas deixei um prefeitaço no meu lugar, que rapidinho resolveu o problema", afirmou.
Mas o Instituto Federal da Cidade de Deus era apenas um sintoma de um problema maior que Lula vê na máquina pública. Ele citou outro caso: o Instituto Federal do Complexo do Alemão teve a construção interrompida porque havia uma pedra no terreno. No próprio evento de urbanização, Lula se viu surpreso ao descobrir que o que ele pensava ser uma inauguração era apenas uma ordem de serviço. A frustração era visível.
Conversando com a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, Lula ouviu a explicação técnica para os atrasos. Faltam projetos. As autorizações demoram. As licitações travam tudo. É um ciclo que se repete: um prefeito chega em Brasília com uma ideia bem articulada, Lula se entusiasma e diz para colocar no PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. Aí a ministra conversa com o governador ou prefeito. Mas quando chega a hora de executar, não há projeto pronto. Tudo começa do zero.
O presidente pediu agilidade. Disse que é preciso encontrar um jeito de fazer as coisas mais rápido, de destravar essa burocracia que transforma promessas em anos de espera. O desafio agora é transformar essa irritação em ação concreta, em mudanças nos processos que permitam que um Instituto Federal saia do papel em meses, não em anos. Enquanto isso, as comunidades carentes do Rio continuam esperando pela infraestrutura que lhes foi prometida.
Notable Quotes
Puta vida, presidente, eu esqueci de fazer— Eduardo Paes, ex-prefeito do Rio, a Lula
Com alegria! É verdade! A desapropriação não andou. Mas deixei um prefeitaço no meu lugar, que rapidinho resolveu o problema— Eduardo Paes, em resposta ao Poder360
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Lula escolheu justamente esse caso do Instituto Federal para criticar?
Porque é concreto. Não é uma abstração sobre burocracia. É um prédio que deveria existir e não existe. É uma faixa de moradores cobrando dele. É pessoal.
E quando Paes disse que esqueceu?
Lula achou importante contar isso porque mostra que não é incompetência do governo federal. É desorganização local, esquecimento, falta de prioridade. Mas também mostra que Lula consegue conversar com Paes depois, que há um diálogo.
O que Miriam Belchior estava tentando explicar?
Que não é simples. Que entre a ideia e a obra há um abismo de papelada. Projeto, licença, licitação. Cada etapa demora. E muitas vezes o prefeito chega sem ter feito o trabalho de casa.
Então o problema é dos prefeitos ou do governo federal?
Dos dois. O federal precisa acelerar seus processos. Mas os prefeitos também precisam chegar preparados. Lula está pedindo os dois lados para se mexerem.
E as pessoas na Cidade de Deus? O que elas ganham com isso?
Ganham um Instituto Federal que deveria ter saído do papel há dois anos. Ganham educação. Ganham oportunidade. Mas só se a máquina realmente se mexer agora.