Em um estúdio de rádio no Rio de Janeiro, o presidente Lula abriu espaço para temas que raramente habitam o centro do discurso presidencial: a violência que acontece dentro de casa, a desigualdade que se esconde nas tarefas cotidianas e o direito das mulheres ao descanso e à autonomia. Com um pacto contra o feminicídio já assinado e medidas protetivas com prazo de 24 horas em vigor, Lula argumentou que a lei é ponto de partida, não de chegada — e que a transformação mais duradoura começa na educação das crianças e na divisão justa do trabalho doméstico. A entrevista revelou um governo que tent
Lula defende fim da escala 6×1, combate ao feminicídio e divisão de tarefas domésticas
A mulher tem tripla jornada. Ela é a primeira a levantar e a última a dormir.
O presidente conectou três coisas bem diferentes nessa entrevista—violência, tarefas domésticas, e horário de trabalho. Por que essas três juntas fazem sentido?
Porque todas têm a ver com poder e tempo. Uma mulher que trabalha seis dias por semana, que depois ainda cuida da casa e dos filhos, não tem tempo para estudar, não tem independência financeira, e fica presa a um relacionamento abusivo por falta de opção. São sistemas que se reforçam.
Mas espera. O pacto contra o feminicídio com medidas em 24 horas—isso é real? Quem está implementando? Porque uma coisa é o presidente dizer que vai acontecer, outra é estar acontecendo em delegacias e tribunais pelo país.
Justo. O pacto foi assinado em fevereiro com o Supremo, o Senado e a Câmara. Mas Luke tem razão em questionar a execução. O que Lula está dizendo é a intenção, não necessariamente a realidade em cada estado.
E quanto à educação? Ele falou em reeducar desde o berçário. Isso é viável? Como você muda o currículo de milhares de escolas?
É uma visão de longo prazo. Não é algo que acontece em um mandato. Mas ele está nomeando que a mudança tem que ser cultural, não só legal.
Verdade. Mas ele não detalhou como. Educação é competência de estados e municípios. O governo federal pode orientar, mas não controla. Isso é uma limitação importante.
Sobre a escala 6×1—ele defendeu o fim dela. Mas isso é uma proposta legislativa em andamento? Ou era mais uma declaração de princípio?
Há uma discussão legislativa sobre isso, mas não está claro se há um projeto específico pronto. Ele está sinalizando prioridade, mas a implementação é complexa porque afeta setores inteiros da economia.
Exatamente. E ele não abordou o custo econômico disso ou como as empresas se adaptariam. É fácil dizer que ninguém é escravo mais, mas a transição é complicada.
Então o que fica dessa entrevista? É um presidente que está pensando sobre essas questões, ou é comunicação política?
Provavelmente os dois. Mas o fato de um presidente estar falando sobre tarefas domésticas e educação de gênero em rede nacional não é trivial. Muda o que é considerado assunto presidencial.
Concordo. Mas a gente precisa acompanhar o que sai do discurso para a prática nos próximos meses.
El Pulso
- Mulheres brasileiras enfrentam uma tripla jornada — trabalho fora, trabalho em casa e a constante ameaça da violência doméstica — enquanto o Estado ainda busca respostas à altura da crise.
- O pacto contra o feminicídio firmado em fevereiro reduziu para 24 horas o prazo para medidas protetivas, mas Lula admitiu que a burocracia não é suficiente para proteger quem já está sob guarda do governo.
- O presidente defendeu o fim da escala 6×1 como questão de dignidade feminina: sem um dia real de descanso, a liberdade das trabalhadoras permanece letra morta.
- Lula cobrou dos homens entrada na cozinha, troca de fraldas e divisão do lar — e das mulheres, estudo e profissão como caminho para independência financeira.
- A agenda que emergiu da entrevista combina lei já assinada, prazo concreto, reforma trabalhista em curso e apelo à reeducação cultural desde o berçário até a universidade.
Em um estúdio de rádio no Rio de Janeiro, o presidente Lula abriu espaço para temas que raramente habitam o centro do discurso presidencial: a violência que acontece dentro de casa, a desigualdade que se esconde nas tarefas cotidianas e o direito das mulheres ao descanso e à autonomia. Com um pacto contra o feminicídio já assinado e medidas protetivas com prazo de 24 horas em vigor, Lula argumentou que a lei é ponto de partida, não de chegada — e que a transformação mais duradoura começa na educação das crianças e na divisão justa do trabalho doméstico. A entrevista revelou um governo que tenta costurar proteção jurídica, independência econômica e mudança cultural em uma única agenda.
Na manhã de 18 de setembro, o presidente Lula sentou-se diante do microfone da Super Rádio Tupi, no Rio de Janeiro, para uma conversa com a comunicadora Isabelle Benito que tocou em temas incomuns para um chefe de Estado: violência doméstica, divisão das tarefas de casa e o direito das mulheres ao descanso.
O ponto de partida foi o pacto contra o feminicídio firmado em fevereiro, que envolveu o STF, o Senado e a Câmara. Uma das conquistas práticas: medidas protetivas para mulheres em risco passaram a ser emitidas em até 24 horas. Mas Lula foi direto ao reconhecer os limites da burocracia. "Bater em mulher vai ser preso", disse. "Ele não é dono da mulher, é parceiro dela." Para o presidente, porém, a lei sozinha não transforma mentalidades — e a mudança real precisa começar cedo. "Do berçário à universidade, temos que educar que somos iguais", afirmou, acrescentando que incentiva as mulheres a estudar e conquistar uma profissão como caminho para a independência financeira.
A conversa desceu ao cotidiano das casas brasileiras. Lula observou que homens ainda resistem a entrar na cozinha com naturalidade, enquanto as mulheres carregam uma tripla jornada — são as primeiras a levantar e as últimas a dormir. Quando Benito perguntou quais pratos ele sabia preparar, o presidente remontou aos tempos em São Bernardo do Campo, mencionando feijão, camarão à provençal e lasanha — detalhes que humanizaram a conversa sem desviar de seu propósito.
O terceiro eixo foi a escala 6×1. Lula defendeu seu fim conectando-o diretamente ao bem-estar das mulheres: "Queremos dar um dia de folga para a mulher, para ela poder relaxar, visitar um parente, chamar as amigas. Ninguém é escravo mais nesse país." A frase carregava uma declaração maior — a mudança não era apenas sobre horas de trabalho, mas sobre dignidade. O que emergiu da entrevista foi um presidente disposto a nomear problemas estruturais e conectá-los a soluções concretas: um pacto já assinado, prazos definidos e uma agenda cultural que aposta na igualdade não como favor, mas como direito.
Na sexta-feira 18 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sentou-se diante do microfone da Super Rádio Tupi no Rio de Janeiro para uma conversa com a comunicadora Isabelle Benito que tocaria em temas que raramente ocupam o centro das discussões presidenciais: violência doméstica, tarefas de cozinha, e o direito das mulheres ao descanso.
O ponto de partida foi um pacto. Em fevereiro, Lula havia firmado um acordo contra o feminicídio envolvendo o Supremo Tribunal Federal, o Senado e a Câmara dos Deputados. Uma das consequências práticas: medidas protetivas para mulheres em risco agora saem em 24 horas. Mas o presidente deixou claro que a burocracia não resolve tudo. "Não podemos perceber e aceitar que uma mulher que está sob a guarda do governo seja violentada dentro de casa outra vez", disse. E depois, com tom que misturava firmeza e educação: "Bater em mulher vai ser preso. A mulher não é obrigada a viver com homem a troco de um prato de comida. Ele não é dono da mulher, ele é parceiro dela, é companheiro dela, mas não é dono."
Para Lula, porém, a lei sozinha não muda mentalidades. O presidente cobrou uma transformação na educação que começasse cedo. "Nós precisamos reeducar a humanidade. O filho tem que aprender desde pequeno que ele não é melhor do que a mulher", afirmou. Sua visão era abrangente: "Do berçário à universidade, nós temos que educar que nós somos iguais, que o homem não é dono da mulher, que não é mais forte que ela, que não é mais esperto que ela." Ao mesmo tempo, o presidente reforçou a importância da autonomia econômica. "Tenho falado para as mulheres: estudem, estudem, porque vocês não têm independência sem uma profissão."
A conversa depois se deslocou para o cotidiano das casas brasileiras. Lula observou que homens ainda não aprenderam a entrar na cozinha com naturalidade. "Se o homem compartilhasse com a mulher os afazeres de casa, limpar o banheiro, arrumar a cama, trocar o filho, ajudar a fazer comida, seria tão bonito", disse. E nomeou uma realidade que conhece bem: "A mulher tem tripla jornada. Ela é a primeira a levantar e a última a dormir." Quando Benito perguntou quais pratos o presidente sabia preparar, Lula remontou aos tempos em São Bernardo do Campo, quando cozinhava em fogão de lenha. Mencionou feijão, camarão à provençal e lasanha—detalhes que humanizavam a conversa sem desviar de seu propósito.
O terceiro eixo da entrevista foi a escala 6×1, o regime de trabalho que exige seis dias de labor para um único dia de descanso. Lula defendeu seu fim conectando-o diretamente ao bem-estar das mulheres. "Queremos dar um dia de folga para a mulher, para ela poder sentar e falar: vou relaxar, vou visitar um parente, vou chamar minhas amigas. Ninguém é escravo mais nesse país." A frase final carregava uma declaração maior: a mudança não era apenas sobre horas de trabalho, mas sobre dignidade e liberdade.
O que emergiu da entrevista foi um presidente disposto a nomear problemas estruturais—violência, desigualdade econômica, divisão injusta do trabalho doméstico—e conectá-los a soluções que passam por lei, educação e mudança cultural. Não era retórica vaga. Havia um pacto assinado, medidas protetivas com prazo, e uma agenda legislativa implícita em torno da escala de trabalho. Ao mesmo tempo, Lula reconhecia que nenhuma dessas mudanças acontece sem que homens e mulheres entendam, desde cedo, que a igualdade não é um favor, mas um direito.
Citas Notables
Não podemos perceber e aceitar que uma mulher que está sob a guarda do governo seja violentada dentro de casa outra vez. Bater em mulher vai ser preso.— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Nós precisamos reeducar a humanidade. O filho tem que aprender desde pequeno que ele não é melhor do que a mulher.— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva