Lula da Silva é reeleito presidente do Brasil após disputa acirrada com Flávio Bolsonaro

Lula voltou à frente e das varandas soou "Lula, Lula"
A liderança mudou duas vezes na noite eleitoral, enquanto faltava apurar o Sudeste.

Num domingo de outubro que o Brasil viveu entre a esperança e o receio, Lula da Silva foi reeleito presidente com 51,27% dos votos, segundo o Datafolha, depois de uma contagem que trocou a liderança por diversas vezes e de um dia marcado por suspeitas sobre transportes, voos e urnas. A disputa com Flávio Bolsonaro reabriu uma pergunta antiga da democracia brasileira: até que ponto a confiança no processo eleitoral resiste quando cada desencontro logístico parece ter dono. Vale notar que, ao fim, o veredicto saiu das urnas e não das acusações que as rodearam.

Às 19h47, em Brasília, Flávio Bolsonaro passou à frente na contagem do segundo turno, e das varandas ouviram-se gritos de um lado e do outro. Pouco depois das vinte horas, Lula voltou à liderança, e a apuração arrastou-se pelo Sudeste, a região mais populosa do país e a mais favorável a Flávio. No fim, segundo o Datafolha, Lula foi reeleito com 51,27% dos votos.

O dia da votação foi marcado por queixas sobre transportes em vários estados. Na Bahia e em São Paulo, o PT denunciou cortes superiores a metade da oferta de ônibus, apesar de a Justiça Eleitoral ter determinado o contrário. O tribunal baiano ordenou a prisão do secretário de Mobilidade de Salvador e o restabelecimento da frota. As prefeituras, lideradas por aliados de Flávio, atribuíram os problemas a veículos adesivados com propaganda e a ajustes nas escalas. Lula reagiu com indignação, falando em roubalheira e em prefeito bandido.

A votação foi prolongada por duas horas em alguns estados, mas só depois de a decisão chegar tarde demais, quando milhares de urnas já estavam fechadas e muitos eleitores tinham ficado à porta. Voos cancelados entre o Sul e o Nordeste alimentaram suspeitas, que a ANAC não confirmou como operação coordenada. A chuva mudou locais de votação, e uma infestação de pulgas levou milhares de eleitores do Rio a votar noutro lugar.

Os candidatos votaram de manhã, cada um com a sua mensagem: Flávio falou de uma esperança que virou medo, e Lula de uma disputa contra a mentira. Depois de um primeiro turno em que Flávio saíra à frente, a segunda volta foi decidida pelas urnas, e agora a atenção volta-se para o TSE e para a composição do novo Congresso que o governo terá de enfrentar.

Às 19h47 em Brasília, com cerca de 15% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro passou à frente de Lula na contagem do segundo turno. Das janelas dos apartamentos, ouviu-se o slogan bolsonarista "Lula ladrão, teu lugar é na prisão". Quase quarenta minutos depois, às 20h25, Lula voltou à liderança e foram os gritos de "Lula, Lula" que ecoaram das varandas. Faltava apurar grande parte do Sudeste, a região mais populosa do país e a mais favorável a Flávio. No fim, segundo o Datafolha, Lula foi reeleito presidente com 51,27% dos votos.

O dia de votação, domingo, 25 de outubro, foi marcado por uma controvérsia sobre os ônibus em vários estados: Bahia, São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Roraima, Piauí, Paraíba, Pará, Paraná e Rio de Janeiro. No início da tarde, o PT denunciou uma redução superior a 50% na oferta de ônibus em Salvador, Feira de Santana e Lauro de Freitas, apesar de a Justiça Eleitoral ter determinado transporte gratuito e uma operação equivalente à de um dia útil. O Tribunal Regional Eleitoral da Bahia ordenou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade de Salvador e o restabelecimento integral da frota, sob pena de multa de um milhão de reais por hora.

A prefeitura de Salvador, tal como as das outras duas cidades baianas, é liderada por um bolsonarista. Disse que o serviço estava a ser normalizado e atribuiu as interrupções iniciais a veículos que tinham sido adesivados com propaganda eleitoral, prática proibida. Em São Paulo, o PT afirmou que só cerca de 60% da frota municipal circulava, apesar da ordem judicial, e pediu também a prisão do secretário municipal de Mobilidade Urbana. A empresa de transportes falou em problemas operacionais na reorganização das escalas e das jornadas dos motoristas. O prefeito, Ricardo Nunes, apoia Flávio. Por volta das 16h, Lula reagiu: "É uma coisa abominável, não vamos permitir que haja roubalheira e prefeito bandido."

O PT pedira ainda o prolongamento da votação até às 19h nesses estados. Kássio Nunes Marques, presidente do TSE, não deu seguimento ao pedido durante duas horas, o que obrigou o STF a decidir já em cima do fecho das urnas. O juiz Cristiano Zanin, sorteado para o caso, optou por prolongar a votação por duas horas, considerando as queixas do PT e também pedidos do PL, por atrasos de eleitores causados pela chuva no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais. Mas milhares de urnas já tinham sido fechadas, o que gerou caos em muitos locais de votação. Zanin esclareceu depois que a prorrogação valia apenas para as secções ainda abertas.

Nas redes sociais circularam denúncias de cancelamentos em massa de voos que impediriam eleitores de chegar às urnas, sobretudo entre o Sul e o Nordeste. A ANAC confirmou, até à tarde de domingo, quatro voos de Gol, Azul e Latam com destino ao Nordeste cancelados entre sábado e domingo. A Gol apontou problemas técnicos no avião da ligação Porto Alegre–Salvador, reacomodou os passageiros e organizou um voo adicional; Azul e Latam citaram questões operacionais e condições meteorológicas. A ANAC, acionada pelo Ministério de Portos e Aeroportos, disse não ter identificado uma operação coordenada para prejudicar eleitores.

Houve outros incidentes. A chuva forçou a mudança de locais de votação em Itapevi, na região metropolitana de São Paulo, e em Curitiba e Guaratuba, no Paraná, onde três troços de rodovias federais foram bloqueados pela água. No Rio, cerca de 3000 eleitores de Jardim Sulacap votaram noutro estabelecimento depois de se detetar uma infestação de pulgas na preparação das urnas. O TSE informou que 114 das 114.605 urnas preparadas foram substituídas por problemas técnicos. Em Valinhos, um eleitor foi levado à esquadra por usar o telemóvel na cabine.

Os candidatos votaram de manhã. Flávio votou às 8h20, em Vila Isabel, no Rio, com a mulher, Fernanda, a mãe, Rogéria Nantes Bolsonaro, e o governador eleito do estado, Douglas Ruas. Disse que "a esperança virou medo" e qualificou a campanha de "alegre e limpa". Lula votou cerca de uma hora depois, em São Bernardo do Campo, com Janja da Silva, Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet. "Disputo eleições desde 1989 e nunca vi nada assim", afirmou, dizendo que a disputa era contra a "mentira" e que os brasileiros não aceitariam um "miliciano" no Planalto.

No primeiro turno, a 4 de outubro, Flávio ficara à frente, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula, cerca de 2,23 milhões de votos de diferença. Recebeu depois o apoio de Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Augusto Cury, além de partidos de centro-direita e do centrão. Lula mobilizou a esquerda, os movimentos sociais e os setores democráticos, e investiu nas redes, com o canal de WhatsApp "Exército do Lula", associado ao deputado André Janones. Flávio respondeu com a "Tropa do Flávio", num conflito que chegou ao TSE. Houve dois debates, na Band e na Globo. Foi a 10ª eleição desde 1989 e a oitava decidida em segundo turno. Resta acompanhar a resposta do TSE às denúncias sobre os ônibus e a construção da base parlamentar do novo governo.

É uma coisa abominável, não vamos permitir que haja roubalheira e prefeito bandido.
— Lula da Silva, sobre os ônibus em São Paulo
A esperança virou medo.
— Flávio Bolsonaro, ao votar no Rio de Janeiro
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