Não é comum, não é normal, não é democrático, não é civilizatório
Em visita ao Instituto Mauá de Tecnologia, o presidente Lula classificou como pirataria a taxa de 20% anunciada pelos Estados Unidos para proteger navios no Estreito de Ormuz — um dos corredores marítimos mais estratégicos do planeta. A crítica não é apenas diplomática: Lula traça uma linha direta entre os conflitos no Oriente Médio e o preço do feijão e do tomate nas mesas brasileiras, revelando como a geopolítica do petróleo atravessa fronteiras e economias domésticas. Diante desse cenário, o presidente propõe o biodiesel e o etanol como alternativas soberanas, e os carros híbridos como ponte para um futuro sem combustíveis fósseis.
- A cobrança americana de 20% sobre navios no Estreito de Ormuz acende um debate sobre quem, de fato, controla as rotas do comércio global — e a que preço.
- Lula rompe o protocolo diplomático ao comparar a medida de Trump à pirataria, argumentando que uma potência que combateu piratas não pode agora cobrar pedágio pelo mar.
- O conflito no Oriente Médio já chegou às prateleiras brasileiras: o presidente aponta que a guerra encareceu combustíveis e, por consequência, alimentos básicos como arroz, feijão, tomate e cebola.
- Para conter a pressão inflacionária, o governo federal criou uma alíquota de 12% sobre exportações de petróleo — uma barreira projetada para proteger o mercado interno.
- Lula oferece o biodiesel brasileiro como alternativa ao petróleo disputado, prometendo cobrar apenas 'o preço justo' — em contraste direto com o que chama de extorsão americana.
- O presidente aposta nos carros híbridos a etanol como solução imediata para a transição energética, posicionando o Brasil como protagonista de um futuro pós-fóssil.
Durante visita ao Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul, o presidente Lula chamou de pirataria a taxa de 20% anunciada por Donald Trump para navios que atravessam o Estreito de Ormuz sob proteção americana. Para Lula, há uma contradição indefensável: uma potência que historicamente combateu a pirataria não pode agora lucrar com a proteção de rotas marítimas estratégicas. "Não é normal, não é democrático, não é civilizatório", disse, descrevendo a cobrança como uma forma de "aproveitar a desgraça para ganhar dinheiro".
O presidente foi além da crítica geopolítica e conectou os conflitos no Oriente Médio à vida cotidiana dos brasileiros. Segundo ele, a guerra já se reflete no preço do feijão, do arroz, do tomate e da cebola, porque tornou o combustível mais caro em escala global. Para conter esse efeito, o governo instituiu uma alíquota de 12% sobre a exportação de petróleo — medida que, na avaliação de Lula, impediu uma alta ainda maior nos preços internos.
Mas o presidente não enxerga o petróleo como saída de longo prazo. Defendeu a transição para combustíveis renováveis e ofereceu o biodiesel brasileiro como alternativa soberana, prometendo cobrar apenas o preço justo pela produção. Na sua visão, o carro híbrido movido a etanol é, neste momento, mais estratégico do que o elétrico — uma ponte entre a dependência atual dos fósseis e um futuro de energia limpa, no qual o Brasil, com sua capacidade de produção de etanol e biodiesel, pode ocupar papel central.
Lula chamou de pirataria a cobrança de 20% que os Estados Unidos anunciou cobrar de navios que atravessam o Estreito de Ormuz sob proteção americana. A crítica veio durante uma visita a laboratórios no Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul, na segunda-feira. O presidente argumentou que é contraditório uma potência que historicamente combateu a pirataria agora lucrar com a proteção de navios em um dos corredores marítimos mais estratégicos do mundo.
A declaração de Lula respondeu ao anúncio feito por Donald Trump nas redes sociais, onde o presidente americano se posicionou como "guardião" do estreito e anunciou a retomada do bloqueio a navios iranianos. A região vive uma intensificação de confrontos que afeta o comércio global. Para Lula, a atitude americana não é apenas economicamente predatória, mas também politicamente indefensável. "Não é comum, não é normal, não é democrático, não é civilizatório", disse, descrevendo a cobrança como uma forma de "aproveitar a desgraça para ganhar dinheiro".
O presidente conectou a situação no Oriente Médio aos preços que os brasileiros pagam nas prateleiras. Segundo ele, o custo da guerra já chegou ao feijão, ao arroz, ao tomate e à cebola do país, porque tornou o combustível mais caro globalmente. Lula destacou que o governo federal instituiu uma alíquota de 12% sobre a exportação de petróleo justamente para proteger o mercado interno dessa pressão inflacionária. Sem essa medida, afirmou, os preços teriam subido ainda mais.
Mas Lula não vê o petróleo como solução de longo prazo. Defendeu que o Brasil e a humanidade se preparem para viver sem combustíveis fósseis, embora reconheça que o petróleo continuará importante no curto e médio prazos. Ofereceu o biodiesel brasileiro como alternativa que não geraria cobranças abusivas como as dos americanos. "Quem quiser comprar biodiesel pode vir aqui, que nós não vamos cobrar nada. Vamos cobrar só o preço justo daquilo que estamos produzindo", disse.
Na transição energética, o presidente avaliou que o carro híbrido é mais importante que o carro elétrico neste momento. Um veículo híbrido movido a etanol, segundo ele, ofereceria maior autonomia e conforto aos usuários, funcionando como ponte entre a dependência de combustíveis fósseis e um futuro de energia renovável. A posição reflete a aposta do Brasil em suas capacidades de produção de etanol e biodiesel como ferramentas tanto para proteger a economia interna quanto para contribuir com a transição global.
Notable Quotes
Isso antigamente se chamava pirataria. Um Estado importante como os Estados Unidos, que durante muito tempo combateu a pirataria, não pode agora virar pirata— Presidente Lula
O preço da guerra está chegando ao feijão no Brasil. Está chegando ao arroz, ao tomate, à cebola, porque tornou o combustível mais caro— Presidente Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Lula usou a palavra pirataria especificamente? Parece uma escolha de linguagem forte.
Porque é exatamente isso que ele vê — um Estado poderoso cobrando pedágio por proteção em um corredor que deveria ser livre. A ironia é que os EUA passaram décadas combatendo piratas de verdade. Agora estão fazendo a mesma coisa, só que com legitimidade estatal.
Mas os americanos diriam que estão protegendo um bem público, não roubando.
Talvez. Mas Lula está dizendo que ninguém pediu essa proteção, e que cobrar por ela enquanto há uma guerra acontecendo é aproveitar uma crise. É diferente de um serviço contratado.
Como isso chega ao feijão e ao arroz no Brasil?
Combustível mais caro no mundo significa que tudo que precisa ser transportado fica mais caro. Alimentos vêm de longe, ou precisam de combustível para ser produzidos. A guerra no Oriente Médio não é distante — ela entra na conta do supermercado.
E a alíquota de 12% que o governo colocou — isso funciona?
Funciona como escudo, mas é temporário. Lula está dizendo que sem ela, os preços estariam piores. É uma proteção, não uma solução.
Por que ele insiste tanto em carros híbridos com etanol?
Porque o Brasil tem etanol. É uma vantagem competitiva real. Um carro híbrido com etanol não depende de petróleo importado ou de tecnologia de bateria que o país não domina. É pragmático.
Ele está pedindo para o Brasil abandonar o petróleo?
Não. Está dizendo que o Brasil não precisa morrer por causa do petróleo. Que pode continuar usando, mas também pode se preparar para viver sem. É uma transição, não uma ruptura.