Em um momento em que as fronteiras entre o poder financeiro e as instituições republicanas parecem cada vez mais porosas, o presidente Lula concedeu uma entrevista em que nomeou ministros do Supremo Tribunal Federal e descreveu festas de luxo bancadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro como evidência de uma corrupção sistêmica. A denúncia, ancorada em contratos revelados por quebra de sigilo judicial, coloca em xeque a separação entre o mundo das finanças e o das mais altas cortes do país. O episódio ecoa uma questão perene da vida pública: até onde a promiscuidade entre dinheiro e poder pode avanç
Lula critica festas de Vorcaro e denuncia promiscuidade entre Banco Master e STF
Isso tudo está apodrecendo
O presidente está dizendo que cinco ministros do STF estão envolvidos. Ele nomeou dois deles. Qual é a natureza exata do envolvimento dos outros três?
Lula não especificou os nomes dos outros três. Ele disse que estão ligados "direta ou indiretamente" ao caso, o que deixa espaço para interpretações diferentes. Pode ser desde participação nas festas até contratos, como no caso de Moraes e Toffoli.
Aí está o problema. "Direta ou indiretamente" é vago demais. Precisamos saber: participação em festas é o mesmo que corrupção? Um contrato com um escritório ligado à família de um ministro é responsabilidade do ministro? A reportagem não deixa claro o que cada um fez.
Lula mencionou que André Mendonça reteve informações. Isso significa que há mais provas que ainda não vieram à tona?
Segundo Lula, sim. Ele disse que Mendonça tinha "muitas informações na mão dele que ele segurou" e que agora os documentos começam a circular entre os demais ministros. Isso sugere que há material que não foi divulgado publicamente ainda.
Mas quem confirmou isso além de Lula? Mendonça respondeu? A Procuradoria confirmou que há material retido? Lula pode estar certo, mas essa é a versão dele. Precisamos de confirmação independente.
A festa de Halloween tinha 120 mulheres e 20 homens. Todos os homens nomeados negaram estar lá. Como sabemos que realmente aconteceu dessa forma?
A revista Piauí detalhou o evento, e a Polícia Federal extraiu informações dos celulares de Vorcaro que indicam a festa. Fábio Faria confirmou ter distribuído convites. Então há múltiplas fontes apontando para o evento.
Confirmado: a festa aconteceu. Mas quanto aos nomes específicos que Faria mencionou — Alcolumbre, Pacheco, Toffoli — todos negaram. Então ou Faria mentiu sobre quem confirmou presença, ou eles estavam lá e mentem agora. A reportagem não resolve isso.
Lula disse que Vorcaro falsificava números e comprava títulos inexistentes. Isso foi comprovado em tribunal?
Lula afirmou isso, mas a reportagem não menciona condenação ou processo judicial específico. É a acusação do presidente.
Exatamente. Lula está acusando Vorcaro de fraude, mas não sabemos se há processo criminal, se foi investigado formalmente ou se isso é apenas alegação presidencial. Isso importa muito.
Por que Lula defende Moraes se há um contrato suspeito envolvendo a esposa dele?
Lula separa as duas coisas. Ele diz que o contrato é indefensável, mas que as ações de Moraes como juiz eleitoral — que irritam Flávio Bolsonaro — são legítimas e não têm relação com o Banco Master. É uma distinção entre o homem privado e o juiz.
Mas essa separação faz sentido? Se Moraes estava envolvido em esquemas de corrupção, isso não compromete sua imparcialidade como juiz? Lula não responde a isso. Ele está sendo estratégico, não analítico.
Il Polso
- Lula foi ao ar na Rádio Tupi e nomeou ministros do STF — entre eles Alexandre de Moraes e Dias Toffoli — como ligados a contratos suspeitos com o Banco Master, elevando a temperatura política a um nível raramente visto.
- Detalhes extraídos dos celulares de Vorcaro pela Polícia Federal revelam festas com garotas de programa, DJs e suspeita de uso de drogas, com senadores e ex-ministros na lista de convidados — todos negando presença.
- Um contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, cujos sócios incluem a esposa do ministro Alexandre de Moraes, veio à tona após quebra de sigilo determinada pelo próprio STF, criando um paradoxo institucional.
- Lula alertou que documentos retidos com o ministro André Mendonça começam a circular entre os demais ministros, sinalizando que novos desdobramentos são esperados antes das eleições.
- Ao mesmo tempo em que criticou Moraes pelos contratos, Lula defendeu sua atuação eleitoral — uma distinção que revela a complexidade das alianças e tensões que moldam o cenário político atual.
Em um momento em que as fronteiras entre o poder financeiro e as instituições republicanas parecem cada vez mais porosas, o presidente Lula concedeu uma entrevista em que nomeou ministros do Supremo Tribunal Federal e descreveu festas de luxo bancadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro como evidência de uma corrupção sistêmica. A denúncia, ancorada em contratos revelados por quebra de sigilo judicial, coloca em xeque a separação entre o mundo das finanças e o das mais altas cortes do país. O episódio ecoa uma questão perene da vida pública: até onde a promiscuidade entre dinheiro e poder pode avançar antes que o tecido institucional se rompa.
Na manhã de 18 de setembro, o presidente Lula usou uma entrevista na Super Rádio Tupi para lançar acusações graves contra o banqueiro Daniel Vorcaro e figuras do alto escalão do Estado. Com linguagem direta, descreveu as festas financiadas pelo dono do Banco Master como 'orgia e mais orgia', afirmando que os eventos revelam uma promiscuidade inaceitável entre o sistema financeiro e autoridades públicas.
O núcleo das denúncias gira em torno de contratos que vieram à tona após quebra de sigilo determinada pelo ministro André Mendonça. Lula citou nominalmente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, apontando que um contrato foi firmado entre o Banco Master e um escritório cujos sócios incluem a esposa de Moraes. Segundo o presidente, cinco ministros do STF estão ligados ao caso de alguma forma.
As festas, reconstruídas a partir de dados extraídos dos celulares de Vorcaro pela Polícia Federal, seguiam um padrão elaborado: mulheres recrutadas por promoters, shows, bebida e suspeita de drogas. Um evento de Halloween em outubro de 2023, numa boate paulistana, reuniu dezenas de convidados. Relatórios policiais indicam que o ex-ministro Fábio Faria articulou a lista masculina e informou que senadores como Alcolumbre e Pacheco estavam confirmados. Todos negaram presença; Faria admitiu ter distribuído convites, mas limitou sua participação a isso.
Lula também ironizou um episódio em que um participante teria transferido ao banco a conta de serviços sexuais não pagos, e alertou que parte do material investigativo, até então retido, começa a circular entre os ministros. 'Muita gente tem medo na República', disse, projetando novos capítulos antes das eleições.
Sobre Vorcaro, o presidente foi categórico: o banqueiro cresceu no governo Bolsonaro e foi preso no seu. Afirmou tê-lo recebido uma única vez, garantindo que ninguém seria perseguido se operasse dentro da lei — e que o caso foi encerrado justamente porque isso não ocorreu. Apesar de tudo, Lula fez questão de separar as críticas a Moraes pelos contratos de sua defesa da atuação do ministro no campo eleitoral, sugerindo que vê as duas dimensões como questões distintas — ainda que ambas permaneçam sob intenso escrutínio público.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou no ar na Super Rádio Tupi na sexta-feira, 18 de setembro, e não poupou palavras ao descrever o que chamou de um sistema de corrupção envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, o Banco Master e autoridades de alto escalão. Em entrevista com a comunicadora Isabele Benito, Lula caracterizou as festas financiadas por Vorcaro como "orgia e mais orgia", afirmando que revelações sobre esses eventos expõem uma promiscuidade inaceitável entre a instituição financeira e figuras públicas responsáveis pelo país.
O cerne da denúncia do presidente repousa em contratos que vieram à tona após quebra de sigilo determinada pelo ministro André Mendonça, a pedido do presidente do STF, Edson Fachin, e da Procuradoria-Geral da República. Lula citou nominalmente ministros do Supremo Tribunal Federal, mencionando especificamente Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. O contrato envolvendo Moraes foi firmado entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes, cujos sócios incluem Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Segundo Lula, cinco ministros do STF estão ligados direta ou indiretamente ao caso. "Isso tudo está apodrecendo", afirmou o presidente, sugerindo que a situação se deteriora continuamente.
Os detalhes das festas, extraídos de informações da Polícia Federal obtidas dos celulares de Vorcaro, revelam um padrão sofisticado de corrupção. O banqueiro utilizava mulheres para agradar autoridades e empresários em eventos de luxo que incluíam garotas de programa, shows de DJs, bebida e suspeita de uso de drogas. Uma festa de Halloween em outubro de 2023 na boate Madame Satã, em São Paulo, reuniu 20 homens e 120 mulheres recrutadas por um promoter. Segundo relatório policial, o ex-ministro Fábio Faria articulou a lista de convidados masculinos e informou a Vorcaro que os senadores Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco estavam confirmados, além de que Dias Toffoli tentaria comparecer após sessão no STF. Todos os nomeados negaram participação. Faria confirmou ter distribuído convites, mas disse que sua participação se limitou a isso.
Lula também mencionou um episódio específico revelado pela investigação: um homem que esteve com uma mulher cujos serviços custaram dez mil reais, não pagou e mandou o banco arcar com a despesa. O presidente ironizou a situação, sugerindo que o indivíduo "só faltou tentar entrar no Desenrola para pagar a dívida dele". Quanto ao material investigativo, Lula afirmou que parte das informações ficou retida com o ministro André Mendonça, que agora começa a circular entre os demais ministros. Ele projetou novos desdobramentos até a eleição, alertando que "muita gente tem medo na República".
Sobre o próprio Vorcaro, Lula repetiu que o banqueiro ascendeu durante o governo anterior. "Esse cidadão que virou banqueiro no governo Bolsonaro virou prisioneiro no meu governo", disse. O presidente relatou ter recebido Vorcaro uma única vez, por vinte minutos, quando lhe garantiu que ninguém seria perseguido se operasse corretamente. "E fechamos, porque não estava correto", afirmou, acusando Vorcaro de falsificar números, comprar títulos inexistentes e vender coisas que não existiam.
Apesar das críticas severas à Corte, Lula defendeu a atuação de Alexandre de Moraes no campo eleitoral, argumentando que a animosidade de Flávio Bolsonaro contra o ministro não decorre do caso do Banco Master, mas da prisão de seu pai. "Ele nunca aceitou a prisão do pai dele, nunca aceitou o resultado eleitoral", disse o presidente. A declaração marca uma distinção entre as ações de Moraes como juiz eleitoral e seu envolvimento nos contratos questionados, sugerindo que Lula vê essas questões como separadas, ainda que ambas permaneçam sob escrutínio público intenso.
Citazioni salienti
Era orgia e mais orgia. É uma sacanagem que é impensável para um cidadão comum acreditar que as pessoas que têm a responsabilidade de zelar por esse país faziam aquilo.— Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista à Super Rádio Tupi
Quem vai para o Supremo não pode querer ser rico. Ali é um sacerdócio.— Luiz Inácio Lula da Silva