Em uma ligação de quase hora e meia, Lula e Trump colocaram sobre a mesa as tensões comerciais e diplomáticas que separam Brasil e Estados Unidos — das tarifas ao crime organizado, da guerra na Ucrânia à soberania nacional. O gesto brasileiro de buscar diálogo direto revela que, por trás das retóricas de campanha e das disputas de classificação, há o reconhecimento silencioso de que duas grandes economias do hemisfério ocidental não podem se dar ao luxo de se ignorar. A conversa não resolveu nada, mas manteve aberta a porta mais importante: a da negociação.
Lula contesta tarifas americanas em ligação de uma hora com Trump
grandes líderes são os que põem fim aos conflitos, não os que os iniciam
Por que Lula decidiu ligar para Trump agora, em vez de deixar que os negociadores fizessem o trabalho?
Porque as tarifas já estão afetando a economia brasileira. Quando um presidente liga para outro presidente, é sinal de que o assunto subiu de nível — não é mais uma questão técnica, é política.
E Trump concordou com os argumentos de Lula sobre as tarifas serem infundadas?
Não exatamente. Trump concordou que manter negociações abertas era importante e que os vínculos comerciais precisam ser preservados. Mas isso não significa que ele vá recuar nas tarifas. Significa que ele está disposto a conversar.
Por que Lula insistiu tanto em dizer que o Brasil tem seus próprios instrumentos para combater o crime?
Porque os EUA haviam classificado facções brasileiras como narcoterroristas, o que é uma forma de dizer que o Brasil não está controlando a situação. Lula estava respondendo: nós estamos controlando, e não precisamos de vocês nos dizendo como fazer isso.
Os dezessete bilhões de reais apreendidos — isso é muito?
É uma quantia significativa. Mostra que o governo está realmente movimentando recursos contra o crime organizado. Mas também é um número que Lula estava usando para demonstrar competência, para justificar por que o Brasil não merecia ser classificado como um país que não combate o crime.
E quanto à sugestão de uma reunião extraordinária da ONU?
Lula já havia feito essa sugestão a Xi Jinping e Putin. É uma forma de dizer que os conflitos globais precisam de uma solução diplomática coordenada, não de ações unilaterais. É também uma forma de Lula se posicionar como um líder que busca paz, não confronto.
O que acontece agora?
As equipes técnicas se reúnem. Elas vão tentar encontrar um caminho que permita aos EUA recuar nas tarifas sem perder a face, e ao Brasil fazer concessões sem parecer que está cedendo à pressão. É um jogo de xadrez diplomático que pode levar semanas ou meses.
Der Puls
- As tarifas americanas sobre produtos brasileiros, justificadas por alegações de desmatamento, pirataria e trabalho forçado, criaram uma tensão que Lula decidiu enfrentar diretamente — ligando para Trump e contestando cada ponto.
- A classificação do Comando Vermelho e do PCC como organizações narcoterroristas pelos EUA acirrou o atrito bilateral, com o Brasil rejeitando o rótulo e defendendo sua autonomia no combate ao crime.
- Lula apresentou um arsenal de medidas internas — R$ 17 bilhões apreendidos, 138 presídios de segurança máxima planejados, Lei Antifacção aprovada — para demonstrar que o país age sem precisar de tutela externa.
- Trump reconheceu que as tarifas prejudicam ambas as economias e concordou em mobilizar equipes técnicas para retomar negociações, sinalizando abertura sem fazer concessões concretas.
- A conversa aterrisou em território diplomático mais amplo: os dois líderes concordaram que a guerra na Ucrânia precisa de solução negociada, e Lula defendeu uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU.
Em uma ligação de quase hora e meia, Lula e Trump colocaram sobre a mesa as tensões comerciais e diplomáticas que separam Brasil e Estados Unidos — das tarifas ao crime organizado, da guerra na Ucrânia à soberania nacional. O gesto brasileiro de buscar diálogo direto revela que, por trás das retóricas de campanha e das disputas de classificação, há o reconhecimento silencioso de que duas grandes economias do hemisfério ocidental não podem se dar ao luxo de se ignorar. A conversa não resolveu nada, mas manteve aberta a porta mais importante: a da negociação.
Na manhã de sexta-feira, Lula pegou o telefone e ligou para Trump. A conversa durou uma hora e vinte minutos — tempo que o presidente brasileiro usou para contestar, ponto por ponto, as justificativas americanas para as tarifas impostas ao Brasil. Desmatamento, propriedade intelectual, trabalho forçado, o sistema Pix, etanol: para Lula, nenhuma das alegações levantadas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA se sustentava. Mais do que isso, ele argumentou que as tarifas prejudicavam as duas economias — e Trump, segundo o Palácio do Planalto, reconheceu o argumento como válido. O tom foi descrito como amistoso, e os dois líderes concordaram em reunir equipes técnicas o quanto antes.
A conversa foi além do comércio. A classificação americana do Comando Vermelho e do PCC como organizações narcoterroristas havia gerado tensão, e Lula foi direto ao ponto: esses grupos são criminosos que impõem terror cotidiano às populações mais pobres, mas não se enquadram na categoria de terrorismo internacional. O Brasil, disse ele, tem seus próprios instrumentos. E os detalhou: cerca de R$ 17 bilhões apreendidos de organizações criminosas, planos para transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima, a Lei Antifacção aprovada e uma emenda constitucional para ampliar o papel federal na segurança pública. Trump respondeu oferecendo reforço na cooperação bilateral.
A ligação também tocou em conflitos globais. Ambos concordaram que a guerra na Ucrânia, com quase cinco anos de duração, precisa de uma saída negociada. Lula lamentou a paralisia do Conselho de Segurança da ONU e sugeriu uma reunião extraordinária do órgão — proposta que já havia feito a Xi Jinping e Putin. Ao encerrar o tema, o presidente brasileiro deixou no ar uma frase de peso diplomático: grandes líderes são os que põem fim aos conflitos, não os que os iniciam.
O gesto de Lula contrasta com a retórica soberanista que marca sua campanha à reeleição. Mas nesta conversa, o tom foi de entendimento — o reconhecimento de que Brasil e Estados Unidos precisam um do outro, pelo menos enquanto as equipes técnicas exploram se há espaço real para acordo.
Na manhã de sexta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pegou o telefone e ligou para Donald Trump. A conversa duraria uma hora e vinte minutos — tempo suficiente para o brasileiro expor ponto por ponto por que acreditava que as tarifas impostas pelos Estados Unidos não tinham fundamento.
O governo americano havia investigado o Brasil através do Escritório do Representante Comercial e chegado a conclusões que Lula contestava frontalmente. As alegações incluíam desmatamento, acordos comerciais preferenciais, proteção à propriedade intelectual, combate à corrupção, o sistema de pagamentos Pix, etanol e importações com trabalho forçado. Para o presidente brasileiro, nenhuma delas se sustentava. Mais do que isso, ele argumentou que as tarifas prejudicavam a economia de ambos os países — um ponto que Trump, segundo o Palácio do Planalto, reconheceu como válido. O tom da ligação foi descrito como amistoso e cordial, e Trump concordou que manter a mesa de negociação aberta era a melhor escolha. Os dois líderes acertaram que equipes técnicas se reuniriam novamente assim que possível.
Mas a conversa foi além do comércio. Lula trouxe à tona a questão do crime organizado, um tema que vinha gerando tensão entre os dois países. Os Estados Unidos haviam classificado o Comando Vermelho e o PCC como organizações narcoterroristas — uma decisão que o Brasil rejeitava. Para Lula, esses grupos eram criminosos, sim, exercendo terror cotidiano sobre as populações mais pobres, mas não se enquadravam na categoria de terrorismo internacional. O Brasil, argumentou, tinha seus próprios instrumentos para lidar com a criminalidade sem precisar de rótulos especiais impostos de fora.
O presidente então detalhou o que seu governo estava fazendo. Havia apreendido cerca de dezessete bilhões de reais pertencentes a organizações criminosas — uma asfixia financeira do crime. Planejava transformar cento e trinta e oito presídios em unidades de segurança máxima. Havia aprovado a Lei Antifacção, que facilitava a apreensão de bens e passaportes. E havia proposto uma emenda constitucional para ampliar o papel do governo federal na segurança pública, trabalhando junto com os estados. Além disso, o Brasil havia criado o Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia, em Manaus, reunindo oficiais de todos os países da região. Trump respondeu oferecendo reforço na cooperação bilateral e indicando que mobilizaria funcionários de alto escalão do governo americano para dar prosseguimento aos entendimentos.
A conversa também tocou em conflitos globais. Ambos concordaram que a guerra na Ucrânia, que se estendia por quase cinco anos, precisava de uma solução negociada. Trump apresentou suas perspectivas sobre o Irã. Lula, por sua vez, lamentou a inoperância do Conselho de Segurança da ONU e repetiu uma sugestão que havia feito a Xi Jinping e Vladimir Putin: convocar uma reunião extraordinária do órgão para buscar saídas diplomáticas. Ao encerrar o tema, o presidente brasileiro observou que grandes líderes são aqueles que põem fim aos conflitos, não os que os iniciam — uma frase que carregava peso diplomático.
O gesto de Lula em ligar para Trump e buscar negociação marca um contraste com a postura que o presidente tem mantido em sua estratégia de campanha à reeleição. Lula se apresenta como defensor da soberania brasileira contra o que vê como uma política intervencionista americana. Mas nesta conversa, o tom foi de busca por entendimento, de reconhecimento de que os dois países precisam um do outro, e de disposição em trabalhar juntos — pelo menos enquanto as equipes técnicas se reúnem e exploram se há espaço real para acordo.
Bemerkenswerte Zitate
Lula argumentou que as tarifas prejudicam a economia de ambos os países e que manter a mesa de negociação aberta seria a melhor escolha— Palácio do Planalto
Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes técnicas dos dois países voltem a se reunir o mais brevemente possível— Palácio do Planalto